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Full text of "Rizoma.net"

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Amigos Leitores, 

Agora esta acionada a maquina de conceitos do Rizoma. Demos a partida 
com o formato demo no primeiro semestre deste ano, mas so agora, depois 
de calibradas e recauchutadas no programa do site, que estamos 
comecando a acelerar. 

Cheios de combustfvel e energia incendiaria, voltamos a ativa agora, com 
toda a disposicao para avancar na direcao do future 

E sua primeira vez no site? Estranhou o formato? Nao se preocupe, o 
Rizoma e mesmo diferente, diferente ate pra quern ja conhecia as versoes 
anteriores. Passamos um longo periodo de mutacao e gestacao ate chegar 
nesta versao, que, como tudo neste site, esta em permanente 
transformacao. Essa e nossa visao de "work in progress". 



anseio, meio utopico ate, de mudar as coisas, as regras do jogo. Impossivel? 
Vai saber... Como diziam os situacionistas: "As futuras revolucoes deverao 
inventar elas mesmas suas proprias linguagens". 

Pois e, e ja que falamos de jogo, e assim que propomos que voce navegue 
pelo site. Veja as coisas como uma brincadeira, pequenos pontos para voce 
interligar a medida que le os textos, pois as conexoes estao ai para serem 
feitas. Nos jogamos os dados e pontos nodais, mas e voce quern poe a 
maquina conceitual para funcionar e interligar tudo. Va em frente! De a 
partida no seu cerebro, pise no acelerador do mouse e boa diversao! 

Ricardo Rosas e Marcus Salgado, editores do Rizoma. 

28/08/2002 



Mas vamos esclarecer um pouco as coisas. Por tras de tantos nomes 
"estranhos" que formam as secoes/rizomas do site, esta nossa assumida 
intencao de fazer uma re-engenharia conceitual. 

Mas de que se trata uma "re-engenharia conceitual" ? Trata-se sobretudo 
de reformular conceitos, dar nova luz a palavras que de tao usadas acabam 
por perder muito de seu sentido original. Dizer "Esquizofonia" em vez de 
"Musica" nao e uma simples intencao poetica. A poesia nao esta de maneira 
alguma excluida, mas o objetivo aqui e muito mais engendrar novos angulos 
sobre as coisas tratadas do que se reduzir a uma definicao meramente 
didatica. Dai igualmente a variedade caleidoscopica dos textos tratando de 
um mesmo assunto nas secoes/rizomas. Nao se reduzir a uma so visao, virar 
os angulos de observacao, descobrir novas percepcoes. Fazer pensar. 



Novas percepcoes para um novo tempo? Talvez. Talvez mais ainda novas 
visoes sobre coisas antigas, o que seja. Nao vamos esconder aqui um certo 



fndice 

A ALUCINACAO COLETIVA DO VIRTUAL (Nova hegemonia elimina o 
tempo historico e suprime ate mesmo a possibilidade do apocalipse) 

-Jean Baudrillard 

PAGINA-5 



A ARTE DE SUBVERTER A TECNOLOGIA - Michelle Delio 



PAGINA- 



A CULTURA DA IMANENCIA - Ricardo Barreto e Paula Perissinotto 

PAGINA-10 

O CONSUMO IDEOLOGICO DAS REDES: As identidades socio- 
comunicacionais como vetores da cidadania desterritorializada - 

Fabio Malini 

PAGINA-15 

TELECENTROS - A MARCHA DIGITAL DOS TRABALHADORES SEM 
TERRA - Veronica Couto 

PAGINA-30 

ACAO COMO EXPRESSAO DO PENSAMENTO - Carolina Borges 

PAGINA-32 

ARTE HACKTIVISTA - Gerson Vitoriamario de Oliveira 

PAGINA-33 



A LIBERDADE NAS ONDAS - CIBERATIVISTAS E A WIRELESS-FIDELITY. 

-Andre Lemos 

PAGINA-35 

BLOGS E ATIVISMO - Uma Politica de Codigo Aberto? - Ricardo Rosas 

PAGINA-39 

CIBERESPACO: Moradia do Pensamento - Carolina Borges 



CRITICA RADICAL PARA MICREIROS - Daniel Cunha 



CYBER-ATIVISMO NAO-VIOLENTO - Felix Bran 



CYB£/?PL//VKAPROPRIACAO, DESVIO E DESPESA NA CIBERCULTURA - 

Andre Lemos 

PAGINA-52 

DECLARACAO DE INDEPENDENCIA DO CIBERESPACO - John Perry 
Barlow 

PAGINA-66 

DESMATERIAUZACAO EMBRIAGADA DE DIONIZIO COMO FORMA 
APOLINEA DE REAUDADE. - Carolina Borges 



WIKIPEDIA PARA UMA SOCIEDADE LIVRE E ABERTA - ENTREVISTA 
COM JIMMY WALES - IHU-On-Line 

PAGINA-71 

EUROMAYDAY 2004 - ATIVISMO POLITICO PELA REDE - Francisco 
Jose Paoliello Pimenta e Letfcia Perani Soares 

PAGINA-74 

EXPRESSOES CAOTICAS DA NATUREZA DA VIDA - Carolina Borges 

PAGINA-83 

ZAPATISTAS, GUERREIROS DA INFORMACAO ENTREVISTA COM 
RICARDO DOMINGUEZ, UM DOS FUNDADORES DO MOVIMENTO 
ZAPATISTA NO CIBERESPACO. - Juliano Spyer 

PAGINA-85 

HACKLABS, DO DIGITAL AO ANALOGICO - Nomada e Montserrat Boix 
(Suburbia :[Telemacktical MediaZine]) em colaboracao com Mentes 
Inquietas 

PAGINA-94 

HACKTIVISMO Acao Direta nas auto-estradas da informacao - 

Ricardo Rosas 



HACKTIVISMO BRASILEIRO (ENTREVISTA COM SUB-SYS DO GRUPO 
MICROFOBIA)- Carter 

PAGINA-102 



MAIORIA DOS PROJETOS DE INCLUSAO DIGITAL IGNORA INCLUSAO 
SOCIAL -Bia Barbosa 

PAGINA-104 

REFLEXOES ALEATORIAS SOBRE A REDE INDYMEDIA E MIDIA TATICA 

- Evan Henshaw-Plath 



MANIFESTO NOMADE - Tom-B 



O XYZ DO NET ATIVISMO - Luther Blissett 



PAGINA-108 



PAGINA-110 



PAGINA-111 



CULTURAS DO SABER EM MEGACIDADES: OS TELECENTROS DE SAO 
PAULO - Ciro Marcondes Filho 

PAGINA-117 

SEDUCAO DOS ZUMBIS CIBERNETICOS - Hakim Bey 

PAGINA-124 

CIBERESPACO: USINA DE APRENDIZAGEM - Carolina Borges 

PAGINA-130 

UTOPIAS PIRATAS - Hakim Bey ^^^ 

PAGINA-131 

WSIS? NOS ADERIMOS! 

PAGINA-133 



w. 



A ALUCINAgAO COLETIVA DO VIRTUAL 

(Nova hegemonia elimina o tempo historico e suprime ate mesmo a 

possibilidade do apocalipse) 

Jean Baudrillard 




Hoje nao pensamos o virtual, e o virtual que nos pensa. E essa transparencia 
imperceptivel que nos separa definitivamente do real nos e tao 
incompreensivel quanto pode se-lo para a mosca o vidro contra o qual ela se 
choca sem compreender o que a separa do mundo exterior. A mosca nem 
sequer imagina o que poe fim ao seu espaco. Do mesmo modo, nem sequer 
imaginamos o quanto o virtual ja transformou, como por antecipacao, todas 
as representacoes que temos do mundo. 

Somos incapazes de imagina-lo porque e da natureza do virtual por fim nao 
apenas a realidade, mas tambem a imaginacao do real, do politico, do social 
- nao apenas a realidade do tempo, mas tambem a imaginacao do passado 



e do futuro ( a isso da-se o nome , com uma boa dose de humor negro, de 
"tempo real"). 

Ainda estamos muito longe de compreender que a entrada em cena da 
midia impede a evolucao da historia, que a subida ao palco da inteligencia 
artificial impede o avanco do pensamento. A ilusao que guardavamos de 
todas essas categorias tradicionais, inclusive a ilusao de nos "abrir ao 
virtual" como a uma extensao real de todos os mundos possiveis, e a propria 
ilusao da mosca que incansavelmente toma distancia para de novo chocar- 
se contra o vidro. 

Ainda acreditamos na realidade do virtual, apesar de o proprio mundo 
virtual ja ter apagado virtualmente todas as pistas do pensamento. Para por 
um pouco de ordem nessa confusao, tomarei um exemplo delicado, 
justamente porque representa o prolongamento do fato mais assustador e 
incompreensivel da historia moderna: o exterminio e aqueles que negam 
sua existencia, os negacionistas. 

A proposicao negacionista e em si mesma absurda; seu desproposito e tao 
evidente que a questao crucial passa a ser: por que temos que defender a 
verdade contra eles? Como a questao da existencia das camaras de gas pode 
sequer ser formulada? Ela jamais o seria em outros tempos. Aqueles que 
contestam o negacionismo nao se indagam sobre a propria possibilidade 
dessa polemica e contentam-se com uma veemente indugnacao. Ora, a 
propria necessidade de defender a realidade historica das camaras de gas 
como uma causa moral, a necessidade de defender a "realidade"em geral 
com base em uma especie de engajamento politico revela muito dos 
descaminhos da objetividade e da mudanca de registro na verdade historica. 



No tempo historico, o evento ocorreu e as provas de fato existem. Mas nao 
estamos mais no tempo historico, estamos no tempo real - e no tempo real 
nao ha mais provas, sejam elas quais forem. 

O negacionismo, portanto, e absurdo em sua propria logica. Seu carater 
peculiar esclarece o advento de um aoutra dimensao, chamada 
paradoxalmente de "tempo real", mas em cujos limites a realidade objetiva 
esta ausente - e nao apenas a realidade do acontecimento atual, mas 
tambem dos acontecimentos passados e futuros. Todos os elementos 
esgotam-se numa tal simultaneidade que as acoes nao recobram mais seu 
sentido, os efeitos nao remontam mais suas causas e a historia ja e incapaz 
de neles ser refletida. 

tempo real e uma especie de buraco negro onde nada penetra sem antes 
perder sua substancia. De fato, os proprios campos de exterminio tornam-se 
virtuais e figuram apenas na tela do mundo virtual: todos os testemunhos, o 
Holocausto e o Shoah, precipitam-se, a despeito deles e a despeito de nos, 
no mesmo abismo virtual. 

Nao se diz com isso, no entanto, que, em sua sinceridade absoluta, os 
proprios testemunhos e os filmes (como imagens que esgotam o horror na 
atualidade da imagem) nao contribuem para essa memoria impossivel : o 
exterminio real esta condenado a um outro exterminio, o do virtual. Eis aqui 
a verdadeira solucao final. 



final", sobre o "Acidente dos acidentes", o "apocalipse do virtual", que ele 
vislumbra ao termo dessa evolucao, ou melhor, dessa involucao de nosso 
mundo em tempo real. Nada e mesmo certo, porem, do que esse apocalipse 
(ate mesmo essa certeza nos escapa!...). 

Sonhar com o "Acidente final significa prender-se a ilusao do fim, significa 
esquecer que a propria virtualidade e virtual e que, por definicao, seu 
advento definitivo, seu apocalipse, jamais sera capaz de ganhar forca de 
realidade. 

Nao havera apocalipse do virtual e do tempo real porque, justamente, o 
tempo real aniquila o tempo linear e a duracao, ou seja, a dimensao em que 
poderiam desenvolver-se ate seu extremo limite. Nao ha uma funcao linear 
exponencial do Acidente, e seu termo ultimo permanece aleatorio. 

A solucao radical de continuidade do real instaurada pelo virtual, a sincope 
ou o colapso do tempo instaurada pelo tempo real felizmente nos preserva 
do termo final do exterminio. O sistema do virtual, a exemplo de todos os 
outros, esta condenado a destruir suas proprias condicoes de possibilidade. 

Nao devemos, portanto, sonhar com um apocalipse futuro, assim como nao 
devemos nos deixar prender por uma Utopia qualquer, seja ela qual for: o 
apocalipse ou a Utopia jamais terao lugar no tempo real, pois o proprio 
tempo sempre Ihes faltara. 



Exatamente nisto e que consiste a derrota do pensamento - do pensamento 
historico e do pensamento critico. Na verdade, porem, nao e sua derrota: e 
vitoria do temporeal sobre o presente, sobre o passado e sobre todas as 
formas de articulacao logica da realidade. Nem mesmo o futuro esta a salvo 
no tempo real (este e o sentido da prposicao paradoxal de que nao havera 
ano 2000). Caberia aqui discutir a visao de Paul Virillo sobre o "Acidente 



Se ha efetivamente uma revolucao do virtual, e preciso compreender seu 
sentido e deduzir todas as suas consequencias, mesmo se nos reservamos a 
liberdade de ter de recusa-lo pela raiz. Se nao ha apocalipse (e, 
virtualmente, ja nos encontramos dentro dele: basta constatar a devastacao 
de todo o mundo real), isso vale tambem para as demais categorias. 



O social, o politico, o historico e mesmo o moral e o psicologico - todos os 
acontecimentos dessas esferas sao virtuais. Ou seja, e inutil buscar uma 
politica do virtual, uma etica do virtual, etc., pois a propria politica tornou-se 
virtual, a propria etica tornou-se virtual, no sentido de que ambas perderam 
seu principio de acao e sua forca de realidade. 

O mesmo ocorre com a tecnica: falamos de "tecnologias do virtual", mas na 
verdade ha (ou em breve havera) somente tecnologias virtuais. Ora, nao 
existe mais o pensamento do artificio num mundo em que o proprio 
pensamento torna-se artificial. Podemos dizer, nesse sentido, que o virtual 
nos pensa, e nao o contrario. 

Toda essa interrogacao sobre o virtual tornou-se hoje em dia ainda mais 
delicada e mais complexa devido a extraordinaria impostura que o rodeia. O 
excesso de informacoes, o bombardeio publicitario e tecnologico, a midia, o 
entusiasmo ou o panico - tudo concorre para uma especie de alucinacao 
coletiva do virtual e de seus efeitos. Windows 95, Internet, as auto-estradas 
da informacao - tudo isso e consumido cada vez mais por antecipacao, no 
discurso e na fantasia. Sera esse talvez um modo de unir os efeitos em 
curto-circuito, fazendo-os irromper na imaginacao? Disso, porem, nao 
estamos certos. A propria impostura e a intoxicacao nao fazem parte do 
virtual? Nao sabemos. Sempre a velha historia da mosca que se choca 
contra a evidencia incompreensivel do vidro. 

"A certeza nao existe", diz uma pichacao de Nova lorque. 

"Tern certeza?"* 



Traducao de Jose Marcos Macedo 

Fonte: Folha de Sao Paulo ( www.uol.com.br/fsp ). 
(Arquivo Rizoma) 



*No original em ingles (N. do Rizoma). 



A ARTE DE SUBVERTER A TECNOLOGIA 

Michelle Delio 

NOVA YORK - A atividade dos hackers ja foi descrita como um crime, como 
uma compulsao e como o resultado geralmente problematico de uma 
curiosidade fora de controle. Raramente alguem que nao se considera 
hacker tentou retratar a criacao, exploracao e subversao da tecnologia como 
uma forma valida e elegante de arte. 

Mas uma nova exposicao que inaugura nesta sexta-feira no New Museum of 
Contemporary Art ( www.newmuseum.org ) de Manhattan, intitulada 
Open_Source_Art HacM www.netartcommons.net/ ), pretende mostrar como 
o ato de hackear e a etica do desenvolvimento de codigoe aberto - 
participacao direta, investigacao profunda e acesso a informacao - podem 
ser considerados arte. 

Cada obra apresentada na exposicao traz alguma tecnologia que foi alterada 
por seu criador como uma forma de ativismo - algo que os curadores 
definem como "o hack enquanto pratica artistica extrema". 
"Originalmente", diz Jenny Marketou, artista da nova midia e curadora de 
Art_Hack, "a palavra Hacker, como foi cunhada no MIT nos anos 60, era 
sinonimo de virtuose no computador. Hoje ela representa reapropriacao, 
reforma e regeneracao, nao apenas de sistemas e processos, mas tambem 
decultura". 

A arte criada com a etica do codigo aberto permite que os artistas oferecam 
mais do que apenas imagens bonitas. Eles podem produzir ferramentas 
funcionais que podem ser usadas por eles e por outros para criar novas 
formas artisticas, afirma a diretora do museu, Anne Barlow. "E dada a 
natureza do codigo aberto, o processo pode ser tao importante quanto o 
resultado", afirma. 



De fato, o processo - como a obra foi criada e como podera evoluir - e um 
dos principais aspectos da exposicao. O ativismo - usar a arte e o hacking 
para modificar um sistema ou sabota-lo completamente - e outro. 

Nesta exposicao, o visual das obras nao importa muito. O importante 
mesmo e o que se pode aprender e fazer com elas. "Cheguei a conclusao de 
que hackear e um processo que envolve uma combinacao de informacao, 
disseminacao, acao direta, habilidade e solucoes criativas", diz Marketou. "E 
um fenomeno importante e uma metafora para como pensamos e 
manipulamos digitalmente a cultura em rede que nos cerca". 

Art_Hack trara uma serie de exibicoes interativas que envolverao os 
visitantes no ato de alterar ou minar o codigo usado no dia-a-dia pelos 
softwares e pela sociedade. Uma das instalacoes permitira que os visitantes 
clonem ( www.tracenoizer.org ) seus proprios "corpos de dados" e os 
libertem na Internet. Os "clones" servirao como uma especie de "dupla 
identidade", permitindo - em teoria - que seus donos evitem qualquer 
invasao de privacidade destinada a coletar informacoes. 

Um outro trabalho que faz parte da exposicao explora a mesma ideia de 
desinformacao ao usar ferramentas automaticas para criar paginas da Web 
falsas. As paginas falsas sao entao propagadas atraves de varios sites de 
busca, impossibilitando a verificacao dos dados pessoais verdadeiros dos 
participantes. A ideia surgiu a partir da pratica comum de fornecer dados 
falsos nos formularios de registro online. 

Em Anti-wargame, o artista Josh On, do grupo Future Farmers 
( www.futurefarmers.com ), desafia as ideias que existem por tras da maioria 
dos jogos de computador. No jogo desenvolvido por On, os jogadores 
ganham pontos ao demonstrar ate a menor nocao de consciencia social. 



O projeto CueJack, assinado por Cue P. Doll/rtmark, transforma o infame 
CueCat, um aparelho eletronico destinado a fornecer informacoes de 
marketing para as empresas, em uma ferramenta capaz de fornecer dados 
aos consumidores. O Cuejack ( www.cuejack.com ) da aos consumidores o 
acesso a um banco de dados contendo informacoes "alternativas" a respeito 
do fabricante dos produtos passados na leitora. 



alemao Rena Tangens a respeito dos conceitos americanos e europeus de 
privacidade, e um passeio pelas ruas de Manhattan com um guia que ira 
mostrar aos participantes a localizacao dos equipamentos ocultos de 
vigilancia instalados na regiao. 

Texto extraido da Wired News em portugues ( www.wired.com.br ). 



"Tenho grande interesse pela forma como os artistas distorcem o uso da 
tecnologia, aplicando-a em propositos para os quais ela nao foi planejada ou 
sancionada", diz Steve Dietz, curador de nova midia do Walker Art Center 
( www.walkerart.org ) e co-curador de Art_Hack. "Esse tipo de transformacao 
parece ser um aspecto comum, se nao fundamental, de todo uso artistico da 
tecnologia, inclusive a programacao e o ato de hackear". 

Tambem serao exibidas obras de arte criadas a partir de dados coletados 
por grampos eletronicos conhecidos como "package sniffers". O projeto 
permite que os visitantes do museu testem as condicoes de seguranca das 
redes de computadores de varios grupos ativistas. Quando o sniffer 
encontra uma brecha, um show de luzes e som se inicia. 

"Devido a natureza dessa exposicao, tive a oportunidade de questionar e ser 
questionada pelo museu em relacao a varias questoes legais abordadas por 
alguns trabalhos", conta Marketou. "Acho surpreendente como a maioria 
das institutes culturais desse pais nao estejam preparadas para abrigar 
exposicoes como esta por causa de questoes tecnicas e politicas associadas 
com algumas destas obras". 



A exposicao Art_Hack abre com a Noite da Cultura Digital, promovida por 
Marketou e Dietz, durante a qual se discutira os meritos artisticos do 
hacking. Outros programas incluem um debate promovido pelo hacker 



A CULTURA DA IMANENCIA* 

Ricardo Barreto e Paula Perissinotto 



cultural, um engodo perverso que se chamou cultura da transcendencia 
para as massas. 



"O mdximo em dar forma... e chegar ao amorfo" 
Sun Tzu 

Algo radical, para alguns ainda imperceptfvel, comeca a surgir na cultura 
mundial deixando atonitos ate os mais sabios. Tratam-se de mudancas 
profundas que vem ocorrendo no seio das sociedades pos-modernas, 
ocasionando transformacoes onde as consequencias sao imprevisfveis e 
incomensuraveis. 

Vivesse no limiar de catastrofes cujas mudancas de paradigmas escapam 
quanto a sua definicao; instituicoes ate entao solidas pelo peso da tradicao 
historica poderao desaparecer pelo sopro das intemperies culturais. Em 
todas as disciplinas: das matematicas as artes,da biologia a economia, 
notam-se modificacoes de sentimento profundo quanto as conviccoes ate 
entao adquiridas, ocasionando uma crise generalizada na cultura 
contemporanea. 

Permanece-se ainda sob o prisma historico da cultura da transcendencia, 
porem seu predominio se mostra ameacado. Das ideias platonicas, 
passando pela metafisica aristotelica, passando pelo Leviata hobbeseano, 
ate os ideais teleologicos da modernidade, a cultura da transcendencia havia 
imposto a univalencia e a supercodificacao as suas instituicoes e aos fluxos 
culturais que nela emergiram, produzindo assim o estriamento de todos os 
seus aspectos culturais. Compartilhou com todas as formas de soberania 
constituindo e consolidando seu poder atraves de suas instituicoes culturais: 
academias, museus, universidades. A cultura da transcendencia era uma 
cultura para "poucos" em detrimento dos "muitos". Na sua versao moderna, 
entretanto, agora sob o interesse do capital, ela inventou uma simulacao 



Esta pseudocultura, atraves dos meios de comunicacao de massa, 
sustentava a maioria dos comportamentos e principios da cultura da 
transcendencia dos "poucos", nao havendo nenhuma modificacao quanto 
aos procedimentos supercodificantes impostos aos "muitos" agora 
atomizados "culturalmente" e tragicamente desconectados entre si, ligados 
apenas ao media analogico de informacao unilateral, na producao 
homogenizante de suas subjetividades. Tudo ocorria sustentado pelo 
desenvolvimento tecnologico que parecia corroborar com a 
despotencializacao dos "muitos", contudo a aceleracao tecnologica levou a 
uma dobragem catastrofica inesperada que rompeu com o sistema de 
linearidade na qual se fundamentava a cultura da transcendencia. Sistemas 
nao-lineares comecaram a emergir por todos os lados. Matematicas fractals, 
sistemas de complexidade dinamica , fisica do caos, micronarrativas e 
agonistica das linguagens anunciavam o fim do mundo linear provocando 
uma crise paradigmatica no interior da cultura da transcendencia. 

Esta crise chamou-se pos-modernidade, provavelmente o ultimo movimento 
da cultura da transcendencia. Apesar de sua polivalencia, ela era impotente 
para romper com as axiomaticas transcendentes limitando-se a degladiar 
com a modernidade agonizante. Ela foi um grito de desespero, todavia um 
grito morto. A multiplicacao dos sistemas nao-lineares havia provocado um 
outro fenomeno paralelo a pos-modernizacao: um conjunto de 
procedimentos chamados de digitalizacao. Com ela a cultura da imanencia 
pode proliferar no cenario mundial. 

Na historia da cultura ocidental diversas foram as tentativas de suplantacao 
da cultura da transcendencia em prol da imanencia. Do deus como mundo 
dos estoicos e do espinosismo ao espirito dionisiaco dos nietzscheanos, a 



tendencia cultural da imanencia havia ficado marginal e relegada as 
margens da historia, mas com o advento das redes virtuais a tendencia a 
imanencia pode pela primeira vez constituir um mundo para a sua acao. As 
producoes culturais on-line sao as primeiras feitas num mundo virtual 
independente e paralelo ao mundo fisico-cultural, fora de suas leis e fora de 
seus codigos, mas fora tambem da cultura das artes transcendentes tal 
como a entendemos. 

As redes virtuais constituem um piano de imanencia. Elas sao 
transcendentais. Tanto as producoes digitais como a cultura digital fazem 
parte do piano de imanencia cuja proliferacao as precipitam numa 
potencializacao sem precedentes. Ha um processo constante de 
heterogenizacao que se da principalmente por replicacoes livres e por 
procedimentos de alteridade atraves de devires descodificados. Disto advem 
o principal acontecimento da cultura da imanencia que e o anarqui- 
culturalismo, ele e o jogo livre entre todas as performances que ocorrem no 
mundo da imanencia, libertando-se das institutes transcendentes 
baseadas na autoridade e na unicidade provocando por todos os lados um 
descontrole que nao se pode capturar. 

Deste modo, so podemos falar de "arte digital" no sentido metaforico, pois 
no anarqui-culturalismo a "arte digital" significa todas as demais disciplinas 
potencialmente intercruzadas num processo de transcodificacao. O anarqui- 
culturalismo ocorre, quando a autoridade cultural nao pode mais exercer 
nenhum poder sobre as manifestacoes culturais ou sobre os seus 
produtores; quando os seus produtos nao sao mais comercializados; quando 
o valor do produto cultural nao repousa sobre a sacralizacao ou sobre a 
propriedade, mas na sua capacidade de potencializar os agentes que com 
ele se conectam; quando o produtor cultural liberta-se de seu ego, liberta-se 
de seu nome, liberta-se da pretensao inocua de entrar para a historia e, 
entao, ao se desterritorializar pode participar de um piano mais complexo, 



onde o sentido construido pelo autor e substituido pelas estrategias de 
multiplos sentidos em co-autoria com seus interagentes; quando o produto 
cultural deixa de ser linear e analogico e passa a ser um sistema ubiquo de 
complexidade interativa enfatizando seus aspectos imersivos e bioculturais, 
tornando-se portanto maquina de transformacao cultural; quando nao ha 
mais o mundo proprio das artes, das ciencias ou de qualquer outra 
disciplina, mas o jogo livre entre seus codigos, o jogo livre das diagonais que 
atravessam todos os pianos, todas as disciplinas e que entrelacam as 
multiplicidades heterogeneas num jogo livre das conexoes. 

A cultura da imanencia procede por replicacao. Este e um acontecimento 
que aproxima o mundo virtual das redes ao mundo da vida, tanto um 
quanto o outro sao digitais. Os clones; a auto-poesis; os virus, sao comuns a 
ambos os mundos. A replicacao e o seu modo de producao e de invencao. A 
nocao de que toda a vida evolui pela sobrevivencia diferencial de entidades 
replicadoras passa a ser comum a cultura digital. Nao sao as especies, os 
generos ou as disciplinas que importam, mas os genes digitais pelas quais 
eles se replicam. Aqueles surgem dos codigos ; a errancia, e a recombinacao, 
pelas mudancas topologicas possibilitando a emergencia de novos devires 
bioculturais, produzindo o fluxo inconstante da bio-digital-esfera. A vida na 
cultura nao e mais uma metafora, ela e no sentido literal. No mundo da 
biocultura imanente digital a fixidez e a constante sao apenas transitorias. 
Nao ha constantes, mas variaveis de variaveis. Sua natureza tern o poder de 
esticar; deletar; cortar; torcer; recortar; estracalhar; explodir; multiplicar; 
contaminar. 

Os instrumentais digitais foram elaborados para potencializar as 
capacidades transformadoras. A contemplacao transcendente, seja do belo, 
seja do sublime cede lugar a interacao imanente participativa e 
transformadora. Toda producao cultural esta ali para ser destruida, sua 
duracao depende apenas de sua replicacao, pois ela podera ser alterada, 



dilacerada e esquartejada e quando isto acontece surgem novas producoes 
digitals que por sua vez se conectam a outras , mas quando falamos de 
produces digitais falamos de redes. Cada producao digital, pela suas 
interconeccoes imanentes, se envolve numa rede , entao pode-se considerar 
tambem que cada interagente possui uma rede de imanencia. Redes digitais 
conectando-se com redes sinapticas. Imanencia de ambas as redes. A 
cultura da imanencia ultrapassa a relacao sujeito-objeto. A rede e 
transcendental, porem sem sujeito. O objeto nao e mais a coisa, mas apenas 
fluxos, performances. Nao se trata portanto de fruicao de uma obra de arte 
por parte do sujeito. O que e importante e que a performance esteja 
passando pelas redes nao-lineares e que va das redes digitais as redes 
sinapticas e vice-versa. 

Foi uma nova mentalidade nao-linear que havia inspirado aos construtores e 
engenheiros digitais a construirem a interface entre ambas as redes a qual 
chamaram de hipertexto digital. Ele passou a ser a condicao sine qua non 
sem a qual nao haveria comunicabilidade nao-linear. O hipertexto digital, no 
entanto nao e uma estrutura, esta e uma visao lingufstica transcendente e 
linear sobre o hipertexto digital. Ele e uma maquina, uma maquina digital de 
performance nao-linear baseada na interface do mouse. Ele nao tern nada a 
ver com texto, mas sim com gatilhos e performances, assim ha dois 
procedimentos evolutivos nas hipermaquinas: os gatilhos que sao botoes 
que desencadeiam as performances e garantem a nao-linearidade pela 
simultaneidade extensiva topologica. 

Os multiplos gatilhos constituem assim os campos de comutacao, porem no 
seu desenrolar tenderao a desaparecer incorporando-se ao proprio 
desempenho das performances. As performances sao as acoes produzidas 
pelos interagentes e pelas programacoes, no caso desta ultima 
encontraremos atores e scripts, mas tambem outros gatilhos que executam 
estas acoes. Assim, todas as medias passam a ser incorporadas as 



hipermaquinas digitais e tambem se tornam pela digitalidade outras 
maquinas nao-lineares: maquinas imageticas; maquinas textuais; maquinas 
musicais; mas tambem maquinas simuladoras; maquinas inteligentes; 
maquinas pensantes; maquinas emotivas; maquinas vivas. 

Com o crescimento das redes e a multiplicacao das hipermaquinas digitais 
conectadas entre si surge a megahipermaquina digital por onde circulam as 
performances; os telecomandos; os valores; os conhecimentos; a educacao; 
as aranhas. Este e o destino das producoes culturais compartilhadas, que 
produzem uma desterritorializacao nas producoes culturais ampliando a 
criatividade coletiva e aumentando a heterogenizacao cultural. Assim, tem- 
se uma megaproducao digital formada por multiplas producoes micrologicas 
concebidas por diversos artistas, cientistas, filosofos, ativistas culturais 
espalhados pelo mundo e que nao se saberia onde uma producao cultural 
comeca e a outra acaba: 1) compartilhamento com producoes culturais ja 
publicadas; 2) compartilhamento dos envolvidos para concepcao de uma 
producao cultural inedita. Em ambos os casos criando uma rede de 
crescimento indeterminado. 

Alem destas hipermaquinas e megahipermaquinas, ha tambem as 
maquinas-arquivos que surgiram para preencher as necessidades de 
acessibilidade aos conteudos que se encontram nas redes digitais. Existem 
centenas delas, mas apenas algumas sao utilizadas pelos usuarios digitais, 
contudo os maquinas-arquivos nao preenchem sua funcao principal, elas 
deixam de cumprir aquilo que elas se propoem: a acessibilidade sobre 
qualquer assunto, sobre qualquer materia que se encontre conectada a 
rede. A inacessibilidade acontece pela dificuldade de se encontrar algo num 
mundo cujo numero de conteudos sobre varios assuntos e exponencial e 
astronomico, mas tambem pela forma de classificacao e de prioridades que 
as maquinas-arquivos produzem, ainda que, para contornar estes limites, 
algumas funcionem com uma performance booleana, apesar da maior 



abrangencia continuam sendo insuficientes. Assim, um volume enorme de 
materials digitals esta inacessivel, apesar de estar conectado. So a ponta do 
iceberg esta geralmente disponivel, a maior parte esta na profundidade 
digital a qual poderiamos chamar de inconsciente digital. Por um lado o 
inconsciente digital e importante, pois produz uma opacidade e um 
alisamento digital na rede que impossibilita o controle pelos aparelhos de 
Estado. As policias digitais so podem atingir a superficie da rede; por outro 
lado o inconsciente das redes digitais passa a ser vital no relacionamento 
com os agentes da cultura digital, pois novos mecanismos podem ser 
estabelecidos para o afloramento dos materiais inacessiveis estabelecendo 
uma forca transformativa de combate, nao nos esquecamos que os cripto- 
anarquismos deram condicoes para que as mensagens enviadas pela rede 
mantivessem sua privacidade. 

Outra forca que corrobora com isto e a forca do gratuito que vem 
desestabilizando o capital digital com consequencias imprevisiveis para o 
mercado mundial. Para cada produto digital a ser comercializado, surge um 
fac-simile, as vezes melhor, porem gratuito. Nao se tratam aqui de produtos 
piratas, mas ao contrario, de produtos elaborados por programadores ou 
agentes culturais que nao querem vender ou distribuir seus produtos com 
alguma forma de pagamento, existem tambem programas que alem de 
nada custarem , seus arquivos sao abertos possibilitando assim que todos 
possam contribuir para o seu desenvolvimento, testemunhando a forca da 
criatividade coletiva. 

Tudo isto revela a natureza anarqui-cultural das redes digitais. Outras 
formas estao sendo adotadas principalmente nas areas da educacao. 
Educacao gratuita digital e mundial, educacao a distancia que se funda no 
autodidatismo e na auto-iniciativa de seus interagentes, desmobilizando 
ensinos academicos baseados na disciplina e no controle e geralmente 
suportados pelo Estado e pela Igreja. Assim, o anarqui-culturalismo pode vir 



a fazer frente, nao so a sociedade de controle como tambem a sociedade do 
espetaculo. 

A cultura da imanencia e da participacao imersiva constituem a 
possibilidade de uma agonistica com respeito aos mass medias analogicos 
que bestializam milhares de pessoas na introjecao de "memes" e de 
programas signicos com a finalidade perversa de comercializacao de seus 
produtos. Lembremos que as redes virtuais podem absorver tudo. Nao ha 
um controle do que possa ocorrer, apesar das tentativas de controla-la, mas 
sempre haverao meios e estrategias de escapar deste controle imposto pela 
cultura da transcendencia, os hackers multiplicam-se a medida que sao 
controlados. 

A natureza das redes e de imanencia anarquica. Ela nao pertence a 
nenhuma nacao e a nenhum estado politico. Ela e pura potencialidade. Os 
sistemas juridicos nao tern competencia sobre ela, pois ela escapa do 
dominio dos estados, contudo ela pode absorver modos que Ihe sao 
estranhos sem alterar ou colocar em crise a sua natureza, assim, ela pode 
ser tratada de maneira analogica (linear), neste caso ha um achatamento de 
seu potencial, pois os tratamentos sao lineares e sobrecodificados pelos 
seus autores ou produtores, isto ocorre: ou pelo desconhecimento das 
potencialidade das hipermaquinas, ou por simples reproducao dos 
comportamentos analogicos com a intencao de massificacao. Em ambos os 
casos, todo o potencial que os instrumentos digitais oferecem sao 
desprezados por uma mentalidade extemporanea que nao rompeu com os 
processos lineares de pensar permanecendo territorializados no mundo da 
transcendencia; por outro lado, o avanco tecno-digital e a cultura da 
imanencia trazem uma outra mentalidade. Ela so pode ocorrer se houver 
uma desconstrucao nos procedimentos educacionais academicos e uma 
desmemetizacao dos comportamentos e pragmaticas impostos a 
subjetividade contemporanea. 



E de importancia vital que as pessoas saibam produzir as hipermaquinas, os 
hipertextos e nao apenas manipula-los. So havera uma nova mentalidade, 
alem da atual baseada na escrita, se houver um modo de pensar nao-linear 
e para isto e necessario uma pragmatica hipertextual. Os hipertextos 
deveriam estar no curriculo de todas as escolas primarias do mundo. Eles 
sao a propedeutica para a cultura digital, dai a importancia de uma politica 
de imanencia cultural que de condicoes nao apenas da inclusao digital 
aqueles que sao desfavorecidos, mas principalmente, da inclusao na cultura 
digital e isto so pode acontecer pela pragmatica das performances digitals 
que comecam com o aprendizado dos hipertextos, e tambem com a 
acessibilidade as producoes culturais que estao sendo desenvolvidas nas 
redes. Neste sentido, ha varios eventos como os festivals digitals, que 
conseguem reunir um grande numero de producoes culturais envolvendo a 
multiplicidade de acontecimentos que atravessam as redes, oferecendo ao 
publico acesso as problematicas atuais que produtores, programadores e 
pesquisadores vem desenvolvendo. Ha outros, no entanto, que vem 
expondo as producoes digitals como mera novidade e geralmente do prisma 
da unicidade analogica da cultura da transcendencia. 

Nao nos iludamos ao achar que o grande publico esteja participando destas 
grandes mudancas digitals, pois por um lado as condicoes economicas 
impedem esta aproximacao e por outro existe a massificacao imposta a ele 
principalmente pelos meios de massa que obliteram a inclusao na cultura 
digital, apesar de muitas vezes estarem conectados a rede, mas nao na 
cultura digital, fixos em programas que sao produtos dos mass medias. 
Varias institutes culturais tradicionais tais como: galerias, museus, etc., 
vem tentando expor obras virtuais e quando isto acontece o fazem pelo 
angulo transcendente da curadoria. Ora, estas institutes estao sobre a 
cultura da transcendencia que opera com uma axiomatica cultural, ou seja: 
com principios e com conceitos, baseando-se na autoridade discursiva, nas 
metanarrativas e nas metalinguagens. Tanto a critica de arte como a 



curadoria operam como aparelhos de captura cultural na medida em que 
seus discursos sao sempre metalinguisticos, discursos transcendentes que 
subsumem aos conceitos, as obras de arte no intuito de submete-las, 
semiotiza-las ao julgo da autoridade, ao julgo dos axiomas, estando assim as 
obras e os artistas sempre em segundo piano e o publico submetido a 
contemplacao passiva mediante de tal espetaculo cultural. 

A cultura da imanencia opera de outro modo, ela e a cultura do virtual 
(potencia), das redes digitals na agonistica das micronarrativas; ela nao 
opera por aparelhos, pois sao maquinas culturais de guerra de 
transformacao permanente de todos os codigos. Ao inves de curadorias e 
curadores a cultura da imanencia opera com organizadores estrategicos que 
trabalham nao com uma axiomatica, mas com uma rede de performances, 
uma rede de problematicas que incrementam a potencializacao dos 
interagentes e do grande publico; ao inves de exposicoes contemplativas, 
propoe-se um ecossistema digital constituido de estrategias para 
contextualizar o publico nas problematicas tecnico-biodigitais. Uma rede de 
performance que entrelaca a apresentacao dos trabalhos dos produtores 
culturais, da manipulacao interativa e inteligente pelo publico, da 
conversacao do publico com os produtores, da apresentacao de trabalhos 
teoricos pelos produtores. ..Haveria assim um ambiente ecocultural de 
imersao interativa oferecendo as condicoes de espectadores passivos 
poderem se transformar em interagentes ativos e assim produzirem a suas 
proprias conexoes culturais. Os "muitos" atomizados tornando-se 
conectados culturamente entre si formando uma nanotecnologia 
sociocultural. 

* Conceito do File - Festival Intenacional de Linguagem Eletronica. 

Fonte: File - Festival Internacional de Linguagem Eletronica - 2003 
( www.file.org.br/file2003ins/arquivo.htm# ). 



O CONSUMO IDEOLOGIC*) DAS REDES: 

As identidades socio-comunicacionais como vetores da cidadania 

desterritorializada 

Fabio Malini ( fmalini@aol.com ) 




"O espaco da reflexao sobre o consumo e o espaco das prdticas cotidianas 
enquanto lugar de interiorizacdo muda das desigualdades sociais, desde a 
relacdo com o proprio corpo ate o uso do tempo, o habitat e a consciencia 
do possivel para cada vida, do alcangdvel e do inatingivel. Mas tambem 
enquanto lugar da impugnagao desses limites e expressao dos desejos, 
subversao de codigos e movimentos da pulsao e do gozo. O consumo nao e 
apenas reproducdo de forcas, mas tambem producdo de sentidos: lugar de 
uma luta que nao se restringe a posse dos objetos, pois passa ainda mais 
decisivamente pelos usos que Ihes dao forma social e nos quais se inscrevem 
demandas e dispositivos de acao provenientes de diversas competencias 
culturais". 
(Jesus Martin-Barbero) 



Este trabalho parte da hipotese de que os movimentos sociais, originados a 
partir da emergencia da Internet, nao so atualizam a organizacao das lutas 
sociais como produzem riqueza, que se opoe, veementemente, a logica de 
producao vigente do capital. Para sustentar essa hipotese, esse estudo 
percorre um itinerario pela abordagem do pos-fordismo, parando em tres 
pontos. 

O primeiro consiste em mostrar as bases materials que tornam possivel o 
surgimento do trabalho em rede. Especificamente, e no deslocamento do 
modelo de acumulacao capitalista - do fordismo para o pos-fordismo - que 
emerge a nova qualidade do trabalho (imaterial), gerando um sistema social 
baseado na economia da informacao e impulsionando os EUA a recuperar, 
por intermedio das information superhighays, a hegemonia economica 
internacional (ate entao sob dominio japones). 

A segunda parada discorre sobre as especificidades do trabalho imaterial , 
uma nova articulacao entre trabalho manual e intelectual, mas que os 
supera, por meio de uma nocao de trabalho que para se desenvolver nao 
precisa mais se subsumir diante do trabalho morto, mas se caracteriza como 
potencia relacional, comunicativa e cooperativa entre sujeitos sociais. Seu 
locus de manifestacao ocorre no conjunto de redes sociais territorializadas 
nos espacos urbanos, como tambem nas redes (socio-tecnicas) 
desterritorializadas nos espacos de nao-lugares. 

O terceiro momento trata de interrogar como os modos de consumo dessas 
redes possibilitam repensar a propria nocao de consumo da sociedade, sem 
ignorar o que e mascaramento ideologico atribuido pela sociedade do 
consumo. Reportar-se-a o "consumo como produtor de riqueza e a 
transacao como transformadora do produto" (Cocco). 



Consideracoes Iniciais 



O ultimo piano de analise tenta demonstrar como esse debate se constitui 



nas redes socio-tecnicas, especificamente na Internet. Contextualiza a 
genese do embriao dessas redes, particularmente nos idos dos anos 70, 
apresentando ainda o duelo entre os californianos, que creditam o futuro 
das redes a um locus virtual comercial, e os cibercomunistas, que sem negar 
o lado comercial, sustentam a hipotese de a rede se caracterizar como um 
espaco da cultura da doacao, da livre e gratuita circulacao de informacao 
(gift economy). Aqui, residiria o espaco onde os movimentos sociais da rede 
atuariam. 

A fuga das fabricas, o encontro nas redes 

"Podemos e devemos imaginar um conceito de acumulacao gue integre em 
sua definicao todo o tipo de trabalho social (tanto material como imatehal), 
tal como se organizam o homem hoje em dia. Ao meu ver, neste momento, a 
acumulacao so pode ser interpretada como um momento previo de uma 
constituigao comunista de sociedade. Para ser sincero e claro: o Imperio 
explora a maxima capacidade de cooperagao da sociedade com o objetivo 
de acumular; portanto, explora as bases do gue e o comunismo" 
(Antonio Negri) 

No inicio dos anos 70, a maxima racionalizacao do fordismo, sustentada por 
um conjunto de mecanismos rigidos, tais como o investimento de capital 
fixo de larga escala e de longo prazo em sistemas de producao em massa, o 
absoluto controle da forca de trabalho, a producao fincada em estruturas 
organizacionais e na ordenacao hierarquica do fluxo da autoridade da 
informacao, impulsiona uma verdadeira "fuga das fabricas", solidificada no 
aumento de ondas de greve, do trabalho informal, dos contratos 
terceirizados, no crescimento de pequenas e medias empresas. Somado a 
essa fuga, os rigidos compromissos do Estado com a protecao social e a 
politica inflacionaria aprofundada com a crise do petroleo corroia as bases 
da sustentacao fordista. 



Cocco (1999) chega a dividir em fordismo e pos-fordismo os modelos de 
acumulacao do capital, defendendo a tese que ha um deslocamento de 
"hegemonia social do chao de fabrica (do qual o fordismo foi o auge para 
um regime de acumulacao) para pos-fordista em que producao e circulacao 
se confundem com uma cooperacao social que a fabrica nao padroniza 
mais" (idem, p. 277). O autor ratifica sua tese elaborando fatores que 
distinguem um modelo do outro: 

- o pos-fordismo estabelece uma logica produtiva em que "produz-se o que 
ja foi vendido", estimulando uma integracao da reproducao e producao. Ao 
contrario do fordismo, em que vende-se o que ja foi produzido ("a producao 
comanda a reproducao"). 

- No pos-fordismo, a forca de trabalho nao consiste em um individuo pre- 
programado que trabalha silenciosamente, caracteriza-se como 
comunicativa, "trabalha falando e tomando iniciativas aleatorias, nao- 
programaveis". A fabrica deixa de ser o nucleo da producao para se tornar 
um elo, o que significa que nao mais determina, mas e determinada pela 
cadeia produtiva social e comunicativa que atravessa o territorio social (a 
cidade e as redes interativas). "Suas maquinarias sao maquinas lingufsticas 
de fluidificacao da informacao na economia da circulacao em massa " e nao 
mais "instrumento de decomposicao dos fluxos na economia da producao 
em massa ". 

- No fordismo, e a "insercao na relacao produtiva que legitima a cidadania", 
no pos, e a cidadania que determina a insercao produtiva" . 

Dois fenomenos distintos impulsionam a emergencia do pos-fordismo. Um 
primeiro foi a "flexibilizacao defensiva", que visava a diminuicao de custos 
operacionais e a manutencao da disciplina da Organizacao Cientifica do 
Trabalho. Para isto, as estrategias desenvolvidas caracterizaram-se, 



inicialmente, pela descentralizacao de uma parte das atividades industrials 
para alguns paises do Terceiro Mundo. Posteriormente, pela corrida para a 
automacao da linha de montagem, diminuindo drasticamente a forca de 
trabalho no processo produtivo. 

Um segundo fenomeno foi a "desvalorizacao crescente do valor do trabalho 
fabril". Primeiro, com uma fuga da fabrica pela forca de trabalho mais 
qualificada e de militantes sindicais mais ativos. Depois, pelo aparecimento, 
a partir de 68, de organizacoes sociais, tais como, o movimento estudantil, o 
feminista, o da contra-cultura e os da lutas urbanas, que nao se legitimavam 
politicamente a partir da relacao capital-trabalho. "Sao essas contradicoes 
de tipo novo, de abertura social dos conflitos e da propria relacao sala.rial, 
que acabam determinando um processo de difusao territorial de novas 
figuras e de novas formas de empresariado. Aqui e que nascem as redes de 
micro-empresas" (Cocco, 1999, p. 271). A partir desse quadro e que emerge 
um novo tipo de trabalho (assunto abordado no item seguinte), feito de 
atividades de coordenacao, inovacao e gestao. "O trabalho acabou 
absorvendo as caracteristicas distintivas da acao politica [de fazer e agir], 
sendo que o modo de producao contemporaneo integra, como forca 
produtiva fundamental, uma intelectualidade de massa que se tornou social, 
isto e, publica" (Cocco, 1995, p.15). 

Harvey, a partir de seu debate sobre a acumulacao flexivel, acrescenta mais 
dois processos decisivos, que se alimentam reciprocamente, na crise do 
fordismo: a aceleracao do tempo de giro da producao e aceleracao do 
tempo de giro do consumo. O primeiro ocorreu gracas ao uso intensivo de 
novas tecnologias produtivas (automacao, robos) e de novas formas 
organizacionais (just in time, sistema de gerenciamento de estoques que 
reduziu a quantidade de material necessaria para manter a producao 
fluindo). "Esses sistemas de producao flexivel permitiram uma aceleracao do 
ritmo da inovacao do produto, ao lado da exploracao de nichos de mercado 



altamente especializados e de pequena escala - ao mesmo tempo que 
dependeram dela. Em condicoes recessivas e de aumento da competicao, o 
impulso de explorar essas possibilidades tornou-se fundamental para a 
sobrevivencia" (Harvey, 2000, p. 148). No entanto, junto com a aceleracao 
do tempo de giro da producao ocorreu o mesmo na esfera do consumo, por 
meio de mecanismos que reduziram a vida util dos produtos pela metade, 
trazendo, ainda, uma estetica da diferenca, da efemeridade, do espetaculo e 
da moda. Alguns produtos da era fordista, que duravam cerca de cinco a 
sete anos, em algumas industrias, como a de informatica e jogos eletronicos, 
em dezoito meses ja estavam obsoletos. 

Mais dois aspectos constituem o modelo do pos-fordismo: a financeirizacao 
da economia e o uso interativo das tecnologias de informacao para a 
producao/consumo. Amparada em uma estrutura informacional global, a 
financeirizacao da economia e capaz de gerar cada vez mais capital, ao 
descartar a mercadoria como fonte de acumulacao. A formula marxista 
Dinheiro produz Mercadoria que produz Dinheiro (D-M-D) e substituida por 
Dinheiro produz Dinheiro (D-D): "Os novos sistemas financeiros 
implementados a partir de 1972 mudaram o equilibrio de forcas em acao no 
capitalismo global, dando muito mais autonomia ao sistema bancario e 
financeiro em comparacao com o financiamento corporativo, estatal e 
pessoal. A acumulacao flexivel evidentemente procura o capital financeiro 
como poder coordenador mais que o fordismo o fazia" (Harvey, 2000, 
p.155). 

Segundo Castells (1999), estariamos vivendo, desde a decada de 70, uma 
revolucao informacional, proporcionada pelas tecnologias da informacao, 
processamento e comunicacao. A tecnologia da informacao para essa 
revolucao consiste no que foi as novas fontes de energia e os combustiveis 
fosseis para a revolucao industrial. Em sua investigacao, Castells destaca as 
tecnologias como determinantes de novas relacoes sociais estabelecidas no 



interior [e a favor] do sistema de producao capitalista, agora se organizando 
em "rede de conexoes entre agentes economicos". Informacional e global, 
aponta o autor, a concorrencia e feita em uma "rede global de interacao". 

Tres campos da tecnologia deram visao a revolucao informacional baseada 
em eletronica: microeletronica, computadores e telecomunicacoes. O 
primeiro criou o microprocessador, que e o comutador em um unico chip e 
tornou possivel a instalacao do processamento da informacao em todos os 
lugares. O segundo marcou pelo lancamento, em 1981, do 
microcomputador, superando as tecnologias de mainframe. Aliado as 
inovacoes na parte fisica, os computadores precisavam de interfaces 
graficas para operar. Logo, inovacoes em software ocorriam, por meio do 
predominio da Microsoft a partir de 1976. 

Essas duas inovacoes na eletronica, microprocessador e computador, 
formaram a base material para o surgimento das Redes de Castells, 
identificada a priori como nos de computadores. "Desde os meados dos 
anos 80", dizia ele, "os PC's nao podem se concebidos isolados, eles atuam 
em rede" (idem, p. 55). Porem, a condicao do desenvolvimento das redes foi 
os avancos das telecomunicacoes, ocorridos tambem nos anos 70, por meio 
da combinacao das tecnologias de nos, roteadores e comutadores, tais 
como, TCP/IP e o ATM, e tecnologias de transmissao, fundamentalmente a 
fibra otica e o laser. 

A revolugao tecnologica das novas tecnologias da informacao e 
comunicagao opunha a capacidade criativa e cooperativa das forgas sociais 
a coerencia do modelofordista de orqanizacdo do trabalho, que se pretendia 
cienti'fico universal, e apostava na massificagao/padronizagao das 
necessidades e desejos, bem como na cooperacao somente entre as grandes 
empresas e o Estado. Essa revolugao faz a cultura, a comunicacdo, a 
produgao lingufstica e a producao social de saber emergirem como meios de 



produgao e como produtos, exatamente o gue a economia tinha excluido do 
seu campo de investigacao . (Corsani, 2000, p. 131.). O grifo e nosso. 

Segundo Castells, essas tecnologias sao a base da Infovia da decada de 90. 
"O surgimento da sociedade em rede nao pode ser entendido sem a 
interacao entre estas duas tendencias relativamente autonomas: o 
desenvolvimento de novas tecnologias da informacao e a tentativa da antiga 
sociedade de reaparelhar-se com o uso do poder da tecnologia para servir a 
tecnologia do poder" (idem, p. 69). Portanto, essas transformacoes nao so 
consolidam a emergencia do multimidia e das superestradas da informacao, 
mas determina um novo regime de producao. "Quer dizer que a producao 
cultural e o desenvolvimento das redes de difusao - networks - e das 
tecnologias de two ways nao atravessam somente o mercado de multimidia, 
mas o conjunto das atividades economicas" (Cocco, 1995, p. 03). A 
caracteristica produtiva dessa economia da informacao e a interatividade, 
capitaneada pela integracao da forma (industria de hardware e eletronico), 
do conteudo (industria de software, cinema, programas televisivos) e da 
difusao (industria de telecomunicacoes). 

Por um la do, as superinfovias serao entao constitui'das por redes de 
circulagao (e nao somente de difusao) das informacoes e, por outro lado, 
elas serao estruturadas por instrumentos de armazenagem e de tratamento 
das informacoes gue permitiam, ao mesmo tempo, uma conexao 
simplificada as redes e, um uso intuitivo dos servicos oferecidos. Elas nao veto 
constituir a base tecnica da venda de uma nova geragao de servigos gue 
teriam gue circular nas suas redes, mas o espaco virtual de atuagao das 
relagoes de servigos. Mais que de producao, e preciso falar de co-producao 
de servicos . Nesta perspectiva, o primado da materialidade do objeto tende 
a se apagar atrds do valor de uso, real ou imagindrio, do servigo prestado 
por esse objeto (idem, p. 05. o grifo e nosso). 



Antecedido por uma fase que Cocco denomina de convergencia externa, em 
que o crescimento da industria de informacao e orientado por capital 
externo e nao havia integracao entre as mfdias, a fase de convergencia 
interna ("urn regime de acumulacao endogeno de desenvolvimento do setor 
global da comunicacao, da informacao e das telecomunicacoes") e 
antecipada, em 1993, a partir da construcao das Information 
Superhighways, um marco do deslocamento do regime de producao (do 
fordismo para a economia da informacao - pos fordismo) e possibilitara aos 
Estados Unidos a retomada da hegemonia internacional, ate entao, sob o 
dominio do Japao. Enquanto o Japao produz o meio (material), os Estados 
Unidos, o meio e, principalmente, conteudo (imaterial). 

A atual estrategia americana visa a pensar e organizar, ao mesmo tempo, a 
economia, a tecnologia digital e a formacao-constituicao de uma forca de 
trabalho adeguada. O feito e gue os EUA estao passando da economia dos 
servicos baseados nas tecnologias digitals, as redes continentals em fibra 
otica e as redes satelitdrias planetdrias. Mesmo se os japoneses 
conseguiram ir mais longe gue todo mundo na integracao industrial da 
subjetividade operdria, eles tern, hoje em dia, gue se confrontar com o 
superamento definitivo do papel especi'fico da fdbrica (Cocco, 1995, p. 04). 



subjetividade operaria se liberta nas redes sociais, com enfase nas redes 
socio-tecnicas. Para Lazzarato (1998), na fase do pos-fordismo, todos os 
grupos sociais participam da producao de riqueza, pois o tempo da vida e o 
tempo de trabalho sao indissociaveis e articulados por meio da economia da 
informacao. "O coletivo em nos e o coletivo fora de nos", argumenta o autor 
italiano, "interconectam-se atraves de maquinas que os atravessam e os 
constituem". Nao se trata aqui de uma vulgata tecnicista, mas na percepcao 
de que a economia da informacao produz subjetividades. 

A forma da rede e do fluxo exprimem, ao mesmo tempo, a capacidade 
desses dispositivos [do capital] de capturar nao somente as formas de 
cooperacdo e de producao de subjetividade caracterizadas pela nova 
capacidade de agir, mas tambem de cooperacdo e de producao de 
subjetividade fordistas e pos-fordistas, gue se reproduzem na 
economia/ mundo. A economia da informacao nos permite criticar o conceito 
de trabalho porgue o motor das formas de cooperagao nao e mais apenas o 
seu tempo, mas o tempo da vida. Nao se trata mais somente do fato de gue 
o trabalho desempenhe funcoes de controle das potencias da tecnica, da 
ciencia e dasforcas genericamente sociais, mas tambem da mudanga de sua 
natureza (idem, p. 98). 



O Trabalho nas Redes: novas formas de enfrentamento politico 

"O trabalho imaterial se refere unicamente ao fato de gue muito produtos, 
ou muitos elementos desses produtos, sao imateriais, nao e gue o trabalho 
em si seja imaterial. Hoje em dia, o processo de producao se reparte pelo 
nosso corpo, pelo nosso cerebro, pela nossa afetividade e, por conseguencia, 
por todas as forcas da vida." 

(Michael Hardt) 

A tese do pos-fordismo sustenta-se na assertiva que, ao fugir das fabricas, a 



A possibilidade de pensar a producao de subjetividade, nas redes ou nao, 
sem nos remeter a "estrutura", torna-se possivel gracas ao conceito de 
Trabalho Imaterial. E o que caracteriza esse trabalho? Quais as evidencias 
que possibilitam pensar o legado dessa conceituacao nos estudos sobre as 
redes socio-tecnicas? Veremos de perto. 

Ha muita confusao em torno do trabalho imaterial, descrito muitas vezes 
como intelectual. Contudo, ele nao esta restrito a isto. Trata-se, como 
afirma Cocco (1997), da recomposicao do trabalho manual e intelectual, mas 
ultrapassando essas duas visoes. "As novas competencias no pos-fordismo 



devem ser capazes de propor inovacoes tecnicas e solutes comunicacionais 
adequadas a uma organizacao do trabalho, cuja mecanica implica nfveis 
cada vez mais importantes de cooperacao e de subjetividade nos locais de 
producao, mas sobretudo entre esses locais e as redes de comunicacao e 
consumo que estruturam os territories sociais" (Cocco, 1999, p. 273). Na 
economia da informacao, o trabalho imaterial existe somente na forma de 
fluxos e networks, ou seja, e exterior a fabrica. Seu espaco e o territorio 
(cidade e redes interativas), seu tempo, o tempo da vida, pois e inserido no 
trabalho toda a dimensao coletiva da forca de trabalho. O trabalho imaterial 
consiste no "valor de uso do trabalho vivo", envolvendo habilidades 
intelectuais, manuais e empresariais em atividades de coordenacao, gestao, 
de pesquisa e de inovacao, em que o trabalhador torna-se um manipulador 
de simbolos. 

trabalho imaterial dota a mercadoria de dois conteudos: informacional e 
cultural. O primeiro como habilidades envolvendo cibernetica e controle 
computacional, alem da comunicacao horizontal e vertical. O segundo como 
as atividades nos produtos que fixam padroes culturais e artisticos, modas, 
preferencias, normas de consumo e, mais estrategicamente, a producao de 
opiniao publica. Consiste em um trabalho que, para ser exercido, necessita 
de uma logica cooperativa e comunicativa, em que ocorre a "socializacao 
dos niveis de cooperacao, dos saberes, das subjetividades dos 
trabalhadores, dos dispositivos tecnologicos e organizativos" (Negri & 
Lazaratto, 2000, p. 15). Manifesta-se tanto no operario qualificado, quanto 
no precarizado (dado como virtualidade, ou seja, fruto da "luta contra o 
trabalho" fordista, e favor da socializacao do trabalho, qualificacao 
profissional e autovalorizacao cultural). Em um primeiro momento, o 
dominio desse trabalho era da burguesia e seus filhos. A partir da decada de 
70, o dominio se transfere para a "massa intelectualizada" (General Intelect). 

A dimensao material do trabalho no pos-fordismo quer dar conta 



exatamente de seu carater relacional, comunicativo e cooperativo. Ela nao 
se opoe ao material, pois o trabalho imaterial e a condicao da producao de 
bens e servicos. Mas ela da conta da qualidade nova de um trabalho vivo 
que, para se concretizar, nao precisa mais de sua subsuncao dentro do 
sistema de maquinas, no trabalho morto. O trabalho imaterial e, como dizia 
Marx, o trabalho nao-materializado mas vivo, que existe como processo e 
ato" (Cocco, 1999, p. 274). 

A hipotese central e de que a economia da informacao capta e coloca no 
trabalho nao mais o "tempo do trabalho", mas o "tempo da vida" 
(Lazaratto). E um trabalho que implica cada vez mais a capacidade de 
escolher alternativas. "Para o novo manaqement, 'e a alma do operario que 
deve descer na oficina', ou seja, e a subjetividade operaria que deve ser 
organizada e controlada" (Negri & Lazaratto, 200, p. 05). torna-se necessario 
ampliar, assim, o argumento de Foucault sobre o poder exercido pelas 
tecnologias disciplinares no capitalismo, pois estas tinham como objeto o 
homem-corpo, enquanto hoje ha dispositivos bio-politicos que visam o 
homem-especie. "O tempo da vida implica nao apenas o inorganico, mas 
tambem, e sobretudo, uma vida a-organica. E por vida a-organica entendo 
fundamentalmente o tempo e suas virtualidades. Nao o tempo abstrato, o 
tempo medida, mas o tempo-potencia, o tempo como fonte de criacao 
continua de imprevisiveis novidades, aquilo que faz com que tudo se faca" 
(Lazaratto, 1998, p.95). 

Contudo, se tempo de trabalho e tempo da vida sao indissociaveis, como 
pensar a autonomizacao do trabalho, ao mesmo tempo, como um fator 
gerador do aumento da exploracao capitalista e como catalisador de um 
novo enfrentamento politico? Como pensar, afirma Negri, o seguinte 
paradoxo atual: o capital reduz a forca de trabalho em capital fixo, 
subordinando-a cada vez mais ao processo produtivo, porem, o ator 
fundamental do processo social de producao e tornado agora o saber social 



geral. 

Essa perspectiva especula que para haver producao imaterial, o Capital 
precisa nao so do controle do tempo-medida, mas da comunidade, 
fundamentalmente. "A subsuncao da comunidade" na logica capitalista e a 
subsuncao dos elementos lingufsticos, relacionais, sexuais que a definem, 
visto que e na comunidade que se expropria o que e colocado no trabalho: 
comunicacao e linguagem. E o que Negri & Lazaratto denomina de mais- 
comunidade. "A autonomizacao do trabalho nao so reduz custos e flexibiliza 
a producao, mas captura as 'externalidades' positivas produzidas pela 
cooperacao". 

No ambito da organizacao, essa captura ocorrera por meio da gestao 
participativa (e todos os seus dispositivos de controle dos processos 
subjetivos), da politica autoritaria da expressao ("alguem tern de falar!") e 
do enrijecimento da comunicacao (presa a uma forma e urn conteudo). Sao 
essas as estrategias que visam codificar a subjetividade operaria para 
fomentar as necessidades de producao. 

Se a subjetividade torna-se uma forma de valorizacao do capital, ou seja, se 
a producao capitalista invadiu toda a vida, a comunicacao torna-se 
produtiva, porque de urn certo modo produz producao. Diante disto, so nos 
resta o desalento de assistir o despertar de urn novo mundo? Ao contrario, 
se consolida a maxima de Marx (quando se refere a logica contraditoria do 
capital): as mesmas forcas produtivas e relacoes sociais que mantem a base 
do capital, tornam-se, ainda mais, condicoes para explodi-las. Isto porque "e 
o trabalho que define o capital e nao o contrario"; e o processo de producao 
de subjetividade se constitui "fora" da relacao de capital. Para Negri, a 
cooperacao nao e determinada pelo economico, porque se trata da propria 
vida da sociedade. Os elementos criativos, da inovacao, sao ligados aqueles 
que so as formas de vida produzem. O economico pode so se apropriar das 



formas e dos produtos dessa cooperacao, normatiza-los e padroniza-los, 
gerir e regular as atividades do trabalho imaterial: criar dispositivos de 
controle e de criacao do publico atraves do controle das TIC's e seus 
processos organizativos. 

Quando o trabalho se transforma em trabalho imaterial e o trabalho 
imaterial e reconhecido como base fundamental da producao, este processo 
nao investe somente a producao, mas a forma inteira do ciclo "reproducdo- 
consumo ": o trabalho imaterial nao se reproduz (e nao reproduz a 
sociedade) na forma de exploracao, mas na forma de reproducao da 
subjetividade. A "intelectualidade de massa" se constitui sem ter a 
necessidade de atravessar a "maldicdo do trabalho assalariado". A sua 
miseria nao e ligada a expropriacdo do saber, mas, ao contrario, a potencia 
produtiva que concentra no seu interior, nao apenas sob forma de saber, 
mas, sobretudo enguanto orgao imediato da praxis social, do processo da 
vida real . A "abstragao capaz de todas as determinagoes", segundo a 
definicao marxiana, desta base social, permite a afirmagao de uma 
autonomia de projeto, ao mesmo tempo positiva e alternativa (Negri & 
Lazaratto, 2000, p.ll). 

Emerge, como afirmamos anteriormente, uma forma de trabalho que gera 
urn novo enfrentamento politico, uma forca de trabalho alternativa e nao 
dialetica ao capitalismo, ja que sua genealogia e externa ao modo de 
producao capitalista. 

Preferimos ler o "tempo libre" e as "atividades culturais, relacionais, 
cognitivas, etc. " nao como uma exterioridade dada as relacoes de mercado e 
espago que deven'amos defender contra "a extensao a todos os ambitos da 
economia capitalista de mercado", mas como novo terreno de 
enfrentamento politico . A exterioridade ao capitalismo necessita ser 
construi'da atraves de formas de recusa, de cooperacao e de organizacao 



que atravessem de modo antagonico o "tempo de vida" colonizado pela 
producdo de mercado (idem, p. 26). 

Em suma, a conceitualizacao de trabalho imaterial e de intelectualidade de 
massa traz consigo novas relates de poder (o que significa novos processos 
de subjetivacao), ja que como poder entende-se "a capacidade dos sujeitos 
livres e independentes intervir sobre a acao de outros sujeitos livres e 
independentes". Na economia da informacao, a critica radical se manifesta 
como autonomia da constituicao dos sujeitos. 

O tornar-se revoluciondrio dos sujeitos e o antagonismo constitutivo da 
comunicacao contra a dimensao controlada da propria comunicacao, isto e 
que libera as maquinas de subjetivacao de que o real e hoje constituido. A 
revolta contra o controle e a reapropriacdo da maquina da comunicacao sao 
operacoes necessdrias, mas nao sao suficientes; elas naofazem mais do que 
repropor sobre novas vestes a velha forma do Estado, se a revolta e a 
reapropriacdo nao se encarnam em urn processo de liberagao da 
subjetividade que se forma ao interior proprio das maquinas de 
comunicagao. A unidade do politico, do economico e do social se determina 
na comunicacao: e no interior desta unidade, pensada e vivida, que os 
processo revoluciondrios podem hoje ser conceituados e ativados . 

O Consumo (comunicacao) produtivo das redes 

"As praticas do consumo sao os fantasmas da sociedade que leva o seu 
nome. Como os 'espiritos' antigos, constituem o postulado multiforme e 
oculto da atividade produtora" 

(Michel de Certeau) 

O novo papel do consumo e impulsionado por urn somatorio de 
especificidades do ciclo do trabalho imaterial, que Negri & Lazaratto dividem 



em quatro processos: 

1) a submissao a logica capitalista da forma de cooperacao e do "valor de 
uso" do trabalho, nao tolhe a autonomia e a independencia da sua 
constituicao e do seu sentido. 

2) os produtos (tornados ideologicos e efeitos das mercadorias) produzem 
nao o reflexo da realidade, mas novas formas de enxerga-la. Ou como 
prefere Negri, "novas estratificacoes da realidade, novos modos de ver, de 
sentir, que pedem novas tecnologias e novas tecnologias pedem novas 
formas de vida e de sentir". 

3) as formas de vida constituem-se como fonte de inovacao, ou seja, a 
inovacao e fruto de uma relacao de criacao social. 

4) o publico tern uma dupla funcao produtiva: elemento constitutivo da obra 
(a quern o produto ideologico e dirigido); e recepcao, por meio da qual o 
produto encontra urn lugar na vida (logo integrado na comunicacao social) e 
faz-se viver e envolver-se. A recepcao e entao urn ato criativo e parte 
integrante do produto. 

Sublinho essa afirmacao, porque ela contem uma outra hipotese da 
abordagem da economia da informacao: o consumo e produtor de riqueza 
no interior das redes. E o consumo que torna ativo as redes socio-tecnicas e 
individualiza o seu uso. O trabalho realizado pela intelectualidade de massa 
tern como funcao servir de cimento entre a producao e o consumo, 
promovendo inovacao continua nas condicoes de comunicacao, e 
produzindo necessidades, imaginarios que, por conseguinte, torna o 
produto urn produtor poderoso de necessidades, imagens e preferencias. Ha 
uma dupla qualidade desse produto. Ele nao e destruido no ato de 
consumo, o que se destroi e involucro material, logo, a informacao do 



produto e multiplicada. Esse consumo transforma a pessoa que usa o 
produto imaterial. Nao ha reproducao ffsica do trabalhador, mas reproducao 
de seu ideario, de seu universo cultural. Somente se atendido esse objetivo, 
a mercadoria imaterial tern valor de troca. Portanto, trata-se de um 
consumo que produz subjetividade, amplia o ambiente ideologico dos 
produtos e produz relacao social. "No ato do consumo, enquanto o suporte 
material da mercadoria e destruido, seu conteudo informacional e 
comunicacional participa tanto da producao do ambiente ideologico e 
cultural do consumidor quanto da reproducao das condicoes de producao" 
(Cocco, 1999, p.278). 

Em suma, o consumo participa da producao desde o momento de sua 
concepcao, em dois niveis: "pela integracao em tempo real dos 
comportamentos de consumo; e pela proliferacao disseminada dos atos 
criativos, lingufsticos e comunicativos" (idem, p. 274). Sao as trocas 
lingiiisticas que passam a se inserir na producao imaterial dos 
manipuladores de simbolos. 

Se o consumo se torna produtivo e a vida e mobilizada, enquanto tal, dentro 
dos processos de valorizacao, e porque o intercambio lingufstico se torna 
produtivo. As redes de integracao virtual que as novas TIC's proporcionam 
se tornam estrategicas. Com efeito, e o comando sobre os processo de 
globalizacao das redes informatico-comunicativas que decidira, ao mesmo 
tempo, a nova divisao internacional do poder e a capacidade do capital fixo 
continuar subsumindo um trabalho vivo que ele nao consegue mais abstrair. 
poder esta rapidamente dirigindo-se na direcao da hierarquizacao da 
divisao internacional da propriedade do saber, da propriedade daquela 
materia-prima cujo custo da producao determina de maneira crescente os 
precos relativos dos bens e servicos trocados ao nivel internacional. Daqui 
para frente, "copyrights"," trade-marks" e "trade-secrets", serao os 
verdadeiros objetos de negociacoes internacionais (idem, p. 274). 



Nas redes interativas, o consumo ocorre devido a integracao das midias, que 
possibilitou a interatividade e que, por sua vez, impulsiona o 
desenvolvimento de infovias como o "proprio espaco de producao de bens 
imateriais nos quais producao e reproducao coincidem", e nao como infra- 
estruturas rodoviarias do tipo fordista (circulacao de produtos). Esse e um 
traco caracteristico da mass customization, ou seja, a producao de 
mercadoria depois da encomenda das massas, um processo de producao 
que nao se caracteriza pelas pequenas escalas de producao, mas pelo nivel 
de integracao produtiva com o consumo, cujo prototipo deixa de ser a 
fabrica para as redes interativas. A captura do valor da mercadoria se 
desloca para as relacoes de servicos, ou seja, para a relacao com o cliente. 

Os proprios softwares, como o Word e o Windows nao sao nem flexiveis - no 
sentido de personalizados - nem produzidos em pequenas series. O que os 
diferencia dos bens de consumo de massa do fordismo (e mesmo dos 
hardware eletronicos) e o fato de basear a rentabilidade deles, por um lado, 
na propriedade intelectual e, por outro, na capacidade de uso de um 
consumidor que nao os consuma, mas os valoriza. Essa capacidade de uso e 
uma capacidade comunicativa (Cocco, 1995, p. 08). 

Contudo, essa capacidade de consumo oculta um duplo processo social: a 
crise de comando do modo de producao e uma "nova" mistificacao do 
Capital. Quanto ao primeiro consiste na crise da producao de mercadorias 
por meio do comando. Isto porque aparece a possibilidade de trabalhadores 
interferirem na esfera do comando, seja pelo processo de producao, como 
tambem pelo processo de gerencia nao apenas da forca de trabalho, como 
da propria producao. "O comando - o capital, a ciencia e tecnologia do 
capital - nao constituem mais a condicao necessaria de producao, se desloca 
para a Administracao, da forma imediatamente politica do controle do ciclo 
de producao-reproducao" (Cocco, 1995, P-17). 



Esse mesmo autor exemplifica essa crise de comando a partir da analise da 
atuacao das empresas de multimfdia, que possuem uma margem de lucro 
dos seus produtos quase igual a zero, o que, a princfpio, contrariaria a logica 
de acumulacao. Mas essa e uma estrategia de lucratividade do capital, pois, 
diante da proliferacao social da criacao intelectual e da facilidade da 
imitacao dos seus produtos (e depois a difusao das copias), as empresas sao 
obrigadas a apoiar a difusao gratuita (ou quase) de seus produtos, porem, 
tentam se antecipar uma das outras para que sejam tornadas um elemento 
natural da cooperacao em rede. "Esse processo de naturalizacao nao e nada 
mais que o de mistificacao da figura imediatamente politica de um capital 
que produz comando - standards de extracao de valor nas relacoes sociais 
produtivas - por meio de comando - isto e, das redes infra-estruturais como 
bases das relacoes sociais produtivas" (idem, P-H)- 

Essa e uma mistificacao, pois as infovias sao tidas como estoques e nao 
como fluxo de cooperacao (que o capital tenta fragmentar e segmentar, 
tentando inserir a cooperacao nos mecanismos regulados do mercado). E, 
ao distribuir copias gratuitamente, oculta a sua intencao de se tornar um 
elemento incontornavel e fundador das relacoes sociais produtivas das 
redes interativas (baseadas em uma logica de producao fora das relacoes 
mercantilizadas). Em ambos os casos, o Capital busca tornar a comunicacao 
um elemento fundador da expropriacao e da exploracao, do controle dessas 
formas de cooperacao sociais da rede. 

Diante desse quadro, como pensar a cidadania na rede? A acao politica 
depende da comunicacao produtiva dos produtos gerados pela cooperacao 
social em rede, visto que esse consumo "fabrica" novas formas de usos da 
rede que escapam a logica da propriedade. Alem disso, esses usos sao 
determinados por novas formas de construcao da identidade, pois, paralela 
a identidade territorial e monolingiiistica (formadora da etnia, da nacao etc), 



ha aquela construido no interior do espaco socio-comunicacional 
transterritorializado das midias e das redes. Consumo das redes, portanto, 
torna-se um problema de pesquisa privilegiado para pensar as novas formas 
de acao social estabelecidas pelos homens. Uma delas ja esta em vigor: o 
cibercomunismo. 

Californianos versus cibercomunistas: a cristalizacao da comunicacao 
produtiva 

"Quern e dado por morto, vive mais" 
(Adagio Popular) 

Como bem disse Gramsci, a construcao do discurso que articula os sentidos 
da sociedade, gerando hegemonia de classe, depende da acao dos 
intelectuais organicos de determinado campo em disputa. No caso das redes 
interativas, embora os rumos sobre a sua identidade ainda esteja em 
aberto, ha duas interpretacoes vigentes sobre os atributos do medium, a 
corrente da new economy (e-business; e-commerce) e a abordagem da gift 
economy. Ambas compartilham a ideia que as redes sao o locus da 
formacao de uma identidade transterritorial, sao espacos de fluxos (de 
mercadoria e relacoes sociais) e nao de permanencia (fisica territorializada). 
Contudo, se para a primeira quern impulsiona a formacao dessa identidade 
e um agente exogeno a rede - o mercado, que forja uma financeirizacao da 
economia (capital produz capital) e consolida nas redes um espaco de trocas 
de mercadoria, subsumindo as relacoes sociais as mercantis; para a 
segunda, sao as especificidades do proprio meio (medium is message), ou 
seja, a cultura da doacao das redes que forja a elaboracao de "ambiente 
sociais socializados", logo, a mensagem (nao confundir com conteudo) das 
redes e proveniente da sua construcao socio-historica, caracterizadas como 
espacos onde opera a livre e gratuita circulacao de informacao. Veremos de 
perto os discursos dessas intelectualidades. 



Os cibercomunistas discordam absolutamente da construcao da hegemonia 
das ponto. corn's, ou da ideologia californiana - elaborada por um 
conglomerado de mfdia personificada por uma alianca de intelectuais, 
hackers, empresarios e artistas da Costa Oeste dos EUA. Para Barbrook, as 
redes estao produzindo a superacao do capitalismo, ao mesmo tempo que 
uma elite tecnocratica desenvolve nos EUA uma nova ideologia economica, 
a fim de conter o espirito libertario das redes socio-tecnicas. 

"A ideologia californiana e uma ortodoxia heterogenea, uma fe que emergiu 
de uma "estranha fusao entre a boemia cultural de San Francisco e a 
industria de tecnologia de ponta do Vale do Silicio", afirma o ingles Richard 
Barbrook (1999). E como essa ideologia e produzida? 

Promovida nos mais distintos ambientes das redes, a ideologia californiana 
combina, de forma promiscua, o espirito despreocupado dos hippies com o 
ardor empresa.rial dos yuppies. Em sintese, os ideais dos anos 60 se 
realizam mediante ao determinismo tecnologico e ao livre mercado. Na 
Utopia digital, todos seremos alegres e ricos. Quanto aos ideais hippies, sao 
oriundos da recusa das rigidas convencoes sociais impostas pelas estruturas 
sociais que davam configuracao ao "homem-organizacao". Duas respostas 
foram dadas a essa rigidez. A primeira recusa o progresso cientffico e se 
refugia na natureza. A segunda acredita que o desenvolvimento tecnologico 
inevitavelmente se espalharia nas praticas sociais, e que a convergencia das 
midias geraria uma agora virtual, um lugar em que todos poderiam 
expressar suas opinioes sem temor da censura, o que explica o ativismo dos 
meios comunitarios de informacao nos EUA. "Animados pelas prospeccoes 
de Mcluhan, os ativistas da Costa Oeste se implicaram a desenvolver novas 
tecnologias aplicando-as na imprensa alternativa, nas radios comunitarias, 
em espacos domesticos de fabricacao de produtos de informatica e nos 
videos comunitarios (Barbrook, 2000, p. 03)". Por meio de um pacto que Ihes 



assegura altos salarios, autonomia no ritmo e espaco de trabalho, esses 
ativistas foram elevados a "classe virtual". Em lugar de liberdade coletiva, a 
bandeira consiste na liberdade individual dentro do mercado. "A ideologia 
californiana e um hibrido das duas formas sem criticar nenhuma delas". De 
um lado, a fe nas comunidades virtuais, na agora eletronica. Do outro, a 
defesa do laissez faire. 

En esta version de la Ideologia Californiana, a cada miembro de la "clase 
virtual" se le promete la oportunidad de llegar a ser un empresario de 
tecnologia punta de exito. Las tecnologias de la informacion, sigue diciendo 
el argumento, capacitan al individuo, amplian la libertad personal y reducen 
radicalmente el poder del estado-nacion. Las estructuras de poder social, 
politico y legal existentes se iran debilitando para ser remplazadas por las 
interacciones libres entre individuos autonomos y su software. Estos 
mcluhanistas de nuevo tipo argumentan vigorosamente que el gran 
gobierno deberia dejar via libre a los empresarios con recursos, que son las 
unicas personas lo bastante serenas y audaces para correr riesgos. En lugar 
de regulaciones contraproducentes, los ingenieros visionarios estan 
inventando las herramientas necesarias para crear un "mercado libre" en el 
ciberespacio, como la criptografia, el dinero digital y procedimientos de 
verificacion (Barbrook, 1999, p.02). 

Dentro dessa ideologia, a era da informacao do seculo XXI sera a realizacao 
dos ideais liberais do seculo XVII, ou como chamam os californianos, no 
exito da "democracia jeffersoniana", que se sustenta em dois pilares: 
mercado livre e liberdade como escravidao, ou seja, a crenca que, ao 
eliminar as restricoes que regulam o funcionamento das empresas de 
tecnologias de informacao, ha progresso social. 

Apesar de sua retorica radical, o interesse maior desses eruditos 
conservadores era provar que as tecnologias da informacao obrigariam a 



privatizacao e a desregulamentacao de toda atividade economica. Quando a 
Internet se popularizou, esse fundamentalismo de livre mercado nao 
demorou a ser adaptado para adequar-se a nova realidade. Numa instancia 
que se tornou celebre, a revista "Wired" argumentou que o chamado "novo 
paradigma" da concorrencia nao regulamentada entre 
ciberempreendedores esta ampliando a liberdade individual e encorajando 
a inovacao tecnica nos EUA (idem, p. 02). 

Todavia, a ideologia californiana esconde a (forte) atuacao estatal que 
cooperou para seu desenvolvimento e a cultura do "faca voce mesmo" dos 
jovens dos anos 70, que gerou o microcomputador, por exemplo. No centro 
do sonho americano, ressalta o sociologo ingles, ha uma profunda 
contradicao: os individuos so prosperam gracas ao sofrimento dos outros. 
As liberdades politicas so sao exercidas atraves do direito a propriedade 
privada individual. "Em lugar de compartilhar a riqueza com seus vizinhos 
pobres, negros e latinos, os yuppies se refugiam em seus suburbios 
opulentos, protegidos por guardas armados, logo, satisfeitos com seus 
servicos privado de bem-estar. Os deserdados so participam na era da 
informacao proporcionando mao de obra barata e nao sindicalizada para as 
empresas dos produtores de chips do Vale do Silicio" (idem, p. 03). 

Portanto, ao final do seculo XX, na perspectiva dos californianos, as 
tecnologias da liberdade estao se transformando em maquinas de 
dominacao, de segregacao social. A ideologia californiana sustenta-se, pois, 
em uma fe excludente: nao e otimista nem emancipatoria, mas revela-se 
pessimista e repressiva do futuro. Interessante e alusao, desenvolvida por 
Barbrook, do modelo da ideologia californiana a economia sovietica de 
cunho estalinista, resumida nos seguintes itens: 

Partido de vanguarda/literatos digitais 
Piano quinquenal/o "novo paradigma" 



Garoto conhece trator/nerd conhece Internet 

Terceira Internacional/Terceira Onda 

Moscou/Vale do Silicio 

"Pravda"/"Wired" 

linha partidaria/pensamento unico 

democracia sovietica/"Camaras Municipais eletronicas" 

Sociedade-fabrica/sociedade-colmeia 

Novo homem sovietico/pos-humanos 

Quebra das regras stakhanovistas/profissionais temporarios, 

sobrecarregados de trabalho 

Expurgos/"downsizing" (demissoes em massa) 

Nacionalismo russo/chauvinismo californiano. (idem, p. 02) 

Quanto ao cibercomunismo, sustenta-se na "gift economy" (economia da 
doacao), em um trabalho cooperative gerador de reconhecimento publico, 
como na comunicacao cientifica. Esse trabalho so e possivel gracas a 
arquitetura das redes com base em protocolos iguais, que pressupoe que 
multiplas copias dos documentos podem ser facilmente capturados em toda 
rede. Cada um recebe da rede muito mais do que fornece ao outro. E, acima 
de tudo, doa tempo e ideias, produz relacao social, por meio da 
comunicacao mediada por computador. 

Durante los sesenta, la Nueva Izquierda creo una nueva forma de politica 
radical: el anarco-comunismo. Sobre todo los situacionistas y otros grupos 
parecidos creian que la economia tribal de donaciones probaba que los 
individuos podian vivir juntos satisfactoriamente sin necesidad del mercado 
o del estado. Desde mayo de 1968 hasta fines de los noventas, esta vision 
utopica del anarco-comunismo ha inspirado a la economia de la media y a 
los activistas culturales DIY. En las universidades, la economia de donacion 
era el metodo fundamental para socializar el trabajo. Desde sus primeros 
dias, la estructura tecnica y las costumbres sociales de la Red ha ignorado la 



propiedad intelectual. Aunque el sistema se ha expandido mucho mas alia 
de la universidad, el auto-interes de los usuarios de la Red perpetua esta 
economfa de donacion en la alta tecnologfa. Como una actividad cotidiana, 
los usuarios hacen circular la informacion gratuitamente, en e-mails, 
servicios de enlaces, newsgoups, en las conferencias en linea y a traves de 
los sitios en la Red. Como se demuestra con los programas Apache y Linux, 
la economfa de donacion en la tecnologfa esta a la vanguardia en el 
desarrollo de software. Contrariamente a la vision purista de la Nueva 
Izquierda, el anarco-comunismo en la Red solo puede existir en una forma 
consensual. El dinero-mercancia y las relaciones de donacion no solo estan 
en conflicto entre ellas, sino que tambien manejan una coexistencia en 
simbiosis. La "Nueva Economfa" del ciberespacio es una forma avanzada de 
social-democracia (Barbrook, 2000, p.03). 

O cibercomunismo e a fresta da contradicao destrutiva da logica do capital 
na "new economy". Por urn lado, as empresas da nova economia precisam 
acelerar a difusao dos seus produtos, pois quanto maior e a aceleracao do 
lancamento das mercadorias, maior e o seu valor no mercado. Mas para isto 
ocorrer a condicao e a desaceleracao da socializacao, ou seja, que a maioria 
das pessoas nao consuma o produto na mesma velocidade do seu up to 
date. Onde reside a brecha? Justamente na socializacao, pois imbuida por 
uma logica cooperativa publica, desrespeita-se a propriedade intelectual por 
meio da difusao de copias "ilegais" dos produtos, reduzindo valor dos 
produtos, mas nao sua riqueza, a medida que muitos desses produtos sao a 
base para se criarem outros, porem, gratuitos, por meio de urn metodo 
primario da socializacao do trabalho, marcado pela abundancia das trocas e 
doacoes (copyleft) e nao pela escassez do conhecimento (copyright). Uma 
triste contradicao porque quern financia isto tudo e o proprio capital. 
Explico. Conter os fluxos desses novos movimentos sociais - que nao so 
organizam a luta, mas produzem riqueza - eis o objetivo do capital. Logo, 
nao sao os movimentos sociais que fazem contra-informacao, mas o proprio 



capital, por meio de grandes fusoes. Um exemplo claro disto e a 
comunidade Napster, que por meio da tecnologia MP3 (construida por meio 
de cooperacao social) impos uma crise na industria fonografica, que, no ano 
de 2000, nao conseguindo proibir a acao em rede, fez uma alianca com o 
site, que ja atingiu um numero elevado de usuarios (5 milhoes), porem, com 
a submissao do site as "grandes" da musica (copyright) e a intervencao 
juridica da Corte Americana, boa parte do publico esta migrando para outras 
comunidades (a gnutella.com, criada a partir do dinheiro obtido com a 
venda do Napster). Depois da compra do Napster pela gravadora alema se 
intensificou o uso de novos sites na area da musica, gerando novos produtos 
baseado no copyleft. Um outro excelente exemplo e o conjunto de software 
denominado open source, cujo principal prototipo e o Linux, software de 
inovacao continua, elaborado por um processo de socializacao do trabalho, 
construido "fora" dos interesses mercantis. "A circulacao de saberes, a 
identificacao coletiva com uma etica da partilha cognitiva, as praticas 
coletivas de criacao em rede, as tentativas de 'moralizacao' da relacao 
mercantil, etc, sugerem que estejamos em presenca de sujeitos sociais 
hibridos, atores de uma formidavel decolagem produtiva, mas tambem 
atores de uma verdadeira mobilizacao pela conquista de novos direitos" 
(Moineau & Papatheodorou, 2000, p.117). 

Los fundadores de la Red nunca se preocuparon en proteger la propiedad 
intelectual en las comunicaciones mediadas por la computadora. Por el 
contrario, ellos estaban desarrollando estas nuevas tecnologias para 
desarrollar sus carreras en el seno de la economia de donacion de la 
academia. Lejos de querer reforzar la marca registrada, los pioneros de la 
Red trataron de eliminar todas las barreras a la distribution de la 
investigation cientifica. Tecnicamente, todo acto en el ciberespacio 
comprende la copia de materiales de un computador a otro. Cuando se 
coloca en la Red la primera copia de un trozo de informacion, el costo de 
cada copia extra es casi igual a cero (Barbrook, 2000, p. 13). 



Logo, novamente, o capitalismo se ve diante do comunismo, ou melhor, do 
cibercomunismo. Mas nao no comunismo de Lenin e Stalin, mas no de Marx. 
"O cibercomunismo que existe hoje e uma experiencia cotidiana nos EUA, 
algo que nao tern nada fora do comum. Os usuarios da Internet adotam 
espontaneamente maneiras mais prazerosas e eficientes de trabalhar em 
conjunto. Em lugar de destruir a economia de mercado, os americanos 
empreenderam o processo lento de superacao do capitalismo (Marx)" 
(idem, p. 05). 

Consideracoes Finais 

Esse trabalho consistiu na tentativa de descortinar algumas das "ideias- 
feitas" da "new economy", que, de alguma forma, esta ganhando forma e 
conteudo em setores academicos criticos, como na economia da 
conhecimento, ou da aprendizagem, como queiram. 

Minha intencao nao foi mostrar a impossibilidade das atividades comerciais 
no interior da rede, mas de sua absolutizacao como modelo de acumulacao 
do capital. Quis mostrar que o capital esta gerando controle na ansia de 
regular as relacoes sociais produtivas desses ambientes em rede. E a 
primeira vez que o controle midiatico inicia-se post-medium, quer dizer, a 
constituicao do medium e anterior a tentativa de controle do capital, por 
isso, que concluo afirmando que as dificuldades em se comercializar na rede 
nao tern explicates somente sobre o modo de comercializar, mas devido a 
estrutura e a natureza do medium. 

Sugestiva e a provocacao do pos-fordismo sobre a producao de 
subjetividade que resgata a informacao como produto do comportamento 
coletivo, excluindo a ideia de que o conhecimento seja acumulo de 
informacao mais classificacao. Essa abordagem nos possibilita uma entrada 
que possa mostrar como ocorre a dominacao vista sobre urn outro angulo: o 



consume Mas, ao mesmo tempo, identifica nessa mesma categoria a chave 
para a criacao de novos valores sociais, pois "a riqueza virtualmente separa- 
se dos ricos. Abrem-se as possibilidades de fundar um outro padrao de 
valores: nao na mensuracao do mundo, mas contra o mundo. No inferno da 
producao, nossa solidao nao e mais a das criaturas, mas a dos criadores" 
(Cocco, 1999, p.288). 

Pareceu-me, tambem, provocadora a postura da gift economy para 
pensarmos o modelo social que produziremos. Se o cibercomunismo existe 
no terreno do software, ainda nao no de hardware. Aqui reside o papel do 
Estado, logo da universidade. Pois cresce a necessidade de formulacao de 
politicas includentes e universais, precisamos fazer renascer a Modernidade. 
E seguir o exemplo relatado por Martin-Barbero: 

Num bairro pobre de Lima, um grupo de mulheres organizou um mercado. 
Nele havia um gravador e alto-falantes, que apenas o administrador 
utilizava. Com a colaboracao de um grupo de apresentadores, as mulheres 
do mercado comecaram a usar o gravador para saber o que os habitantes 
do bairro pensavam sobre o mercado, para tocar musica nas festas e para 
outros fins. Ate que a censura se apresentou, na figura de uma religiosa que 
ridicularizou o jeito de falar dessas mulheres e condenou a ousadia de 
pessoas que, "sem saber falar", atreviam-se a usar dos alto-falantes. 
Provocou-se assim uma crise; durante algumas semanas, as mulheres nao 
quiseram saber mais do caso. Algum tempo depois, porem, o grupo de 
mulheres procurou os apresentadores e afirmou: "Pessoal, a gente 
descobriu que a religiosa tern toda a razao; a gente nao sabe falar, e nesta 
sociedade quern nao sabe falar nao tern a menor possibilidade de se 
defender nem pode nada. Mas a gente tambem passou a entender que com 
a ajuda desse aparelhinho aqui - o gravador - a gente pode aprender a 
falar". Desde esse dia as mulheres do mercado decidiram comecar a narrar 
suas proprias vidas; deixando de usar o gravador apenas para escutar o que 



os outros diziam, elas passaram a usa-lo para aprender a falar por si proprias 
(Martin-Barbero, 1997, p. 257). 

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- conceitos antigos e inovacao teorica. In: Revista Lugar Comum. Rio de 



Fonte: INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da 
Comunicacao ( www.intercom.org.br ). 



TELECENTROS - A MARCHA DIGITAL DOS TRABALHADORES SEM 
TERRA 

Veronica Couto 



O Movimento dos Trabalhadores Rurais 
Sem Terra (MST) mantem uma rede de dez 
telecentros, em fase de expansao. E estuda 
o uso de voz sobre IP, ou seja, telefonia pela 
internet, para reduzir custos de 
telecomunicagoes do movimento. 




O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mantem dez 
telecentros em varios estados do pais, numa das iniciativas da equipe 
especializada em tecnologia da informacao - a Frente Digital - , que se 
dedica a construir uma sofisticada rede de comunicacao para seus 
militantes. O proximo passo, segundo Pascal Daniel Angst, da Frente Digital, 
e adotar tecnologias de voz sobre IP entre os escritorios estaduais, para 
reduzir os custos de telefonia. 



Assim, alem dos equipamentos instalados nas instancias administrativas, 
foram mapeados dez locais para receber os centros de acesso a internet, 
nos principals nucleos de formacao do movimento, como a Escola 
Agroecologica de Guararema, no estado de Sao Paulo. Hoje, eles estao 
sendo transformados, todos, em Pontos de Cultura, no programa Cultura 
Viva do Ministerio da Cultura, que vai equipa-los com equipamentos 
multimidia para producao de audio e video. 

Aberto a todo mundo 

Os telecentros estao localizados em Cantagalo (PR), Guararema e Ribeirao 
Preto (Sao Paulo), Palmeiras de Goias (GO), Quissama (SE), Sao Mateus (ES), 
Caruaru (PE) e em Igarape do Meio (MA). Foram abertos a partir de abril de 
2004, apos trabalhos de capacitacao e mobilizacao das comunidades. 
"Comecamos a levar, na base, a discussao sobre o uso e o sentido do 
conceito de inclusao digital. Para que as comunidade entendesse e 
manifestasse o seu interesse em assumir o dever e a obrigacao de manter os 
telecentros, sabendo para que eles servem", explica Pascal. "Urn aspecto 
que vale ser destacado", continua, "e a situacao da juventude do campo, 
que, em geral, nao tern acesso a nenhuma tecnologia. E a oferta de meios 
de comunicacao e de producao de conhecimento e importante para Ihes dar 
maiores perspectivas e mante-los no campo". 



O projeto de inclusao digital do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem 
Terra (MST) comecou em 2003, com cerca de 2 mil computadores obtidos 
em doacoes. Os equipamentos foram distribuidos por 23 estados, onde o 
movimento tern representacoes, a fim de permitir a criacao de uma rede 
nacional de comunicacao e informacao. De acordo com Pascal, decidiu-se 
pela abertura dos telecentros em estruturas ja existentes - cooperativas, 
escolas, centros de formacao. 



Os telecentros do MST tambem contribuem para melhorar a relacao do 
pessoal dos assentamentos com as comunidades em que estao inseridos. 
"Muitas vezes", ressalta Pascal, "o nosso e o unico acesso a internet da 
regiao. E esta aberto a todo mundo, nao so as pessoas do movimento". 
Houve lugares em que foram feitos projetos conjuntos com a administracao 
publica para receber, de forma organizada, professores e alunos das escolas 
das cidades. Alem de outros convenios com prefeituras, para atividades de 
interesse comunitario. 



Como em muitos assentamentos nao ha telefone, grande parte das 
conexoes a internet e provida por antenas Gesac - programa do Ministerio 
das Comunicacoes. Mas Pascal lamenta que, na gestao do atual ministro 
Helio Costa, ainda nao conseguiu novas antenas para ampliar a rede. 
"Vamos tentar uma conversa com o pessoal do Gesac, para apresentar o 
projeto", adianta. Porque, alem dos dez telecentros, o MST tern cerca de 30 
salas de informatica - estruturadas para uso de computadores, mas sem 
conexao a internet. O governo do estado do Parana tambem decidiu apoiar, 
por meio da Celepar (companhia de processamento de dados estadual), a 
criacao de cinco telecentros em assentamentos no estado - um deles com 
cabeamento em fibra optica. 



Formacao de quadros 

A Frente Digital desenvolveu uma apostila 
para usuarios e conseguiu, em convenio 
com a Secretaria da Pesca, realizar tres 
cursos de capacitacao de Pescadores nos centros de formacao do MST. 
Esses cursos para monitores e outros integrantes da rede se baseiam numa 
metodologia do movimento que inclui formacao politica, cultural e para 
autogestao. "Cria-se um coletivo com os educandos. Depois, eles trabalham 
com a comunidade o que aprenderam, e voltam para discutir e reforcar seus 
conhecimentos", detalha Pascal. O curso completo tern seis meses, 
desenvolvido pela Coordenacao Politico-Pedagogica do movimento. 




conselho gestor. Ou seja, cobre aspectos politicos, administrativos e 
tecnicos do projeto. Em geral, sao 40 educandos - 20 tecnicos e 20 
monitores. 

A Frente Digital e responsavel pela tecnologia da informacao do MST e esta 
inserida no setor de comunicacao, que pilota outras iniciativas, como radios 
comunitarias, o jornal Sem Terra, a Revista Sem Terra, o portal do MST e o 
da propria Frente na internet, e os programas de inclusao digital. "0 que 
vemos e que a base do movimento social nao esta incluida nas grandes 
discussoes sobre a Sociedade da Informacao. Essa inclusao requer, 
urgentemente, uma politica publica", defende Pascal. 

Links: Portal do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra 
( www.mst.org.br ). 

Portal da Frente Digital, responsavel pela area de tecnologia do movimento. 
Traz documentacao, manuais, as grades dos cursos e fotos dos telecentros 
( http://id.bsb.mst.org.br ). 

Fonte: A Rede ( www.arede.inf.br ). 



O trabalho de formacao tambem abrange dominio do software (a 
distribuicao MSTix e outras plataformas abertas), nocoes basicas para 
manutencao dos equipamentos, como dar cursos para os usuarios, como 
fazer projetos, como conseguir recursos, como criar e trabalhar com 



ACAO COMO EXPRESSAO DO PENSAMENTO 

Carolina Borges 



Pensamento como modo de vida. Acao como experimentacao. Corpo e 
espfrito, Apolo e Dionfsio. Fusoes, misturas e modificacoes. Nada a mais que 
tudo isso. Discursos, conceitos e verdades perdem sentido a cada 
movimento de fluxos intensos -herdeiros sublimes- das experimentacoes. 
Falar fazendo. As palavras so ganham significado se expressadas atraves de 
acoes. Fim do pensamento progressista , individualista e racional dominante 
da era moderna. Fadado a desintegracao, este tipo de razao ,geradora de 
uma morbidez social apatica e domesticada ,perde sentido. 



E o ciberespaco e a influencia avassaladora que esta exercendo nas relacoes 
humanas o grande responsavel por novos mecanismos de cognicoes, 
percepcoes e processos de relacoes. O imediatismo, a facilidade de 
comunicacao e interacao, a caotica conexao dos fluxos de ideias que 
circulam no universo virtual, sao as infinitas sementes de novas multiplas 
formas de relacoes. Com o surgimento do ciberespaco como uma superficie 
de afetos , fica evidente o nascimento de outra realidade de expressao de 
imanencias de carater telurico. Sendo assim , as morais - religiosas, 
sociais,institucionais, estatais- utilizadas como ferramenta de dominacao 
milenar se desintegram gradativamente. E atraves da multiplicidade de 
opcoes existentes no universo virtual , assim como a liberdade de expressao 
nas variadas formas de relacoes; que as morais e verdades sustentadoras de 
valores transcendente tornam-se vulneraveis como nunca antes foi 
pressentido ou calculado. 

O homem - animal racional das especies dos primatas - caminha rumo a 
universos desconhecidos na medida em que o campo de atuacao social se 



pluraliza atraves das relacoes existentes no caotico mundo do ciberespaco. 
Estamos diante de uma evolucao vital do planeta Gaia ? 

Caminhamos a zonas desconhecidas ,ambientes de fusoes e 
misturas. Pensamentos e atitudes tomam proporcoes simbioticas, na medida 
em que a velocidade e quantidade dos fluxos de informacao banalizam as 
atmosferas de carater "egoicos", enfatizando a importancia da acao como 
expressao do pensamento. Fica claro que o desejo pelo controle das acoes 
humanas, sejam elas de carater mental, psicologico, sexual, religioso, nao so 
permanece atuando, como busca estrategias de alcance para que os 
tentaculos de domesticacao do poder institucional se efetuem e 
mantenham as regras no caminho do rebanho. Neste ponto entram as 
questoes nietzschinianas de nobreza e baixeza das almas humanas, das 
distintas naturezas dos "peitos que suspiram e dos peitos que nao 
suspiram". 



O desejo pelo poder, pela tirania, pelo controle - caracteristicos das 
baixezas humanas - e instintivamente natural e dessa forma infinitamente 
atuante. Basta olhar para a formacao da civilizacao que este argumento 
ganha proporcoes concretas. Mas a questao em destaque, e da potencia do 
universo virtual de estabelecer relacoes que de alguma forma nao estao sob 
dominio ou controle de poderes institucionais de adestramento social. As 
novas geracoes de humanos terao outra percepcao da vida, uma vez que 
realidades - de carater distintos - coexistirao naturalmente , potencializando 
as multiplas facetas das relacoes humanas. Estamos diante de 
transformacoes profundas , onde talvez nem tenhamos como pensar sobre 
elas.Trilhamos caminhos onde a desmaterializacao ,a desvalorizacao do 
organico e a possibilidade do homem de obter o controle da vida planetaria 
,serao realidades que habitarao as relacoes teluricas dos futuros habitantes 
do planeta gaia. 



ARTE HACKTIVISTA 

Gerson Vitoriamario de Oliveira 



Nao se trata, portanto, de uma apologia da barbarie, nem de uma reedicao 
do velho debate sobre os limites entre a voz do dono e o dono da voz. 



Arte hacktivista contesta estatuto de propriedade intelectual e testa limites 
da privacidade. 



Enquanto juristas discutem o spam e hackers ocupam as paginas policiais, 
Taiwan se prepara para celebrar o reino da pirataria durante o ArtFuture 
2002, que acontece em marco, na Acar, galeria da Acer (fabricante de 
computadores), em um espaco de intervencao virtual. 

Com curadoria de Armin Medosch, editor da revista alema "Telepolis", Shu 
Lea Chang, diretora do filme cult "I.K.U." e do critico de arte digital japones 
Yukiko Shikata, "Kingdom of Piracy" (KOP) reune projetos artisticos e 
teoricos que problematizam o conceito de "propriedade intelectual". 

O objetivo e consolidar uma rede de trocas de programas, codigos e 
experiencias de trabalho que incentiva a pirataria em prol do 
desenvolvimento intelectual e da criacao artistica. 

Parece discurso politico e e. Nao por contestar a legalidade, mas porque 
parte do pressuposto que essa ilegalidade impera em todo lugar e, por isso, 
propoe-se a ser uma esfera publica desse reino, que se expande em trocas 
de MP3, deslacramento de DeCSS (DVD content encryption system) e 
infinitos copy & paste. 

que vale aqui nao e a contestacao pontual da propriedade Intelectual, 
mas a interrogacao do seu estatuto no bojo da imaterialidade da nova 
economia. 



Trata-se de um ato de arte hacktivismo ("art hacktivism"), e ate ai nada de 
novo, mas o fato de ser patrocinado por uma multinacional do ramo da 
informatica transforma todo o contexto em um panorama mais complexo, 
porem dificil ainda de avaliar, sob esse angulo, pois o que se tern e um site- 
piloto com algumas propostas. 

Enquanto marco nao chega e a exposicao nao comeca, vale pensar um 
pouco sobre o fenomeno do hacktivismo. Hackers e hacktivistas tern 
algumas semelhancas, contudo sao diferentes, pois o hacktivismo e uma 
forma de contestacao politica que discute as relacoes de (cyber) poder. 

Especie de filhos prodigos dos grupos de "tactical media" (midias taticas), 
chama a atencao que os hacktivistas comecam a ocupar espaco na midia e 
no circuito das exposicoes tradicionais e dos festivais de novas midias. 

Depois do lancamento do virus artistico da www.0100101110101101.org, na 
ultima edicao da Bienal de Veneza, os softwares criados por artistas 
ganharam atencao da critica especializada e dos curadores. 

Alem de KOP, ja pre-lancado, o museu da Universidade de Princeton 
prepara-se para receber, no fim de Janeiro, uma mostra artistica sobre 
vigilancia e controle on line que incopora essas questoes. 

A mostra e, na verdade, uma versao condensada de outra exposicao sobre o 
tema, realizada pelo ZKM (museu de novas midias da Alemanha), no ano de 
2001, e seu diferencial e que inclui agora o projeto "Carnivore". 

Colaborativo, o projeto e realizado por um grupo de seletos web artistas, 



como Joshua Davis, o web designer numero 1 do momento, Mark Napier, 
autor de "Riot", "Feed" e outras perolas, e Alex Galloway, diretor da 
Rhizome.org, a mais movimentada lista de discussao sobre webarte. 

Programa rastreador (sniffer), ele transforma o fluxo dos dados em 
representacoes visuais. Quando alguem acessa o servidor do "Carnivore", 
atualmente instalado na Rhizome, em Nova York, ele identifica o usuario e o 
tipo de dados que esta enviando (mandando e-mails, navegando etc.). 



da internet desenvolvida pelo FBI, o "Carnivore", de quern o projeto nao so 
decidiu incoporar os metodos, mas tambem o nome. 

Ironico, retoma o estilo "We Love Your Computer" dos hackers e afina a 
sensibilidade debochada que marcou a onda do Spam Art, hoje meio em 
baixa, mas que continua firme e forte. 

www.linux.ime.usp.br/~rcaetano/docs/hacker-howto-pt.html 



Depois de interpretar os dados, os reenvia, por IRC (o programa mais antigo 
de bate-papo da internet), aos artistas que participam do projeto, os quais, 
em seus computadores, que ai funcionam como maquinas clientes, 
reprocessam as informacoes em outros formatos (imagens, audio etc.) e as 
disponibilizam on line. 

Por motivos de seguranca, paradoxalmente, em Princeton, "Carnivore" 
funcionara dentro de uma sub-rede, a fim de impedir que os servidores da 
universidade sejam hackeados. Portanto, serao rastreados apenas os 
pacotes de dados que trafegarem no interior da exposicao. 

Ao que tudo indica, sera necessario aguardar ate fevereiro, quando 
acontece o "Transmediale" de Berlim, festival que vem se concentrando na 
proposta de ser o grande evento da criacao de softwares artisticos, para ver 
o programa fucando a todo vapor. 

Se KOP mexe com o estatuto da propriedade, "Carnivore" desafia os limites 
da privacidade on line, ja tao abalada pelos chatesimos spams, fazendo uma 
critica sutil aos grandes centros de producao de poder e coercao. 



E que esse programa foi inspirado numa polemica ferramenta de vigilancia 



A LIBERDADE NAS ONDAS - CI BERATI VISTAS E A WIRELESS-FIDELITY. 

Andre Lemos 



- e sera sem duvida o grande terreno de transformacoes do seculo XXI - 
comprovam esta hipotese. 




"Assim como Gibson e Sterling, acredito que a net oficial jamais conseguira 
confer a web ou a contra-net - a pirataria de dados, as transmissoes nao 
autorizadas e o fluxo livre de informacoes nao podem ser detidos". 
Hakim Bey 

A historia da cibercultura e marcada por uma forte sinergia entre as 
institutes de pesquisa, as universidades, os militares, as grandes empresas 
e a cultura popular. No entanto, desta sinergia,a maior parte das grandes 
revolucoes foram feitas pela cultura popular: artistas, designers, escritores, 
programadores, hackers e demais ciberativistas, foram fundamentals para a 
consolidacao da sociedade da informacao. A invencao da micro-informatica, 
que surge como uma especie de resistencia ao poder militar e da IBM nos 
anos 70; a apropriacao social da Internet que, criada por militares, se 
transformou no grande espaco de efervescencia social do final do seculo XX 



E esta cultura popular nao para. Desde o inicio do ano passado, uma nova 
Zona Autonoma Temporaria (TAZ) (1) esta sendo gestada: as comunidades 
sem fio (wireless communities), conhecidas como movimento Wi-Fi 
[wireless-fidelity ou wide-fidelity, que rima com Hi-Fi,e utiliza o padrao 
802.11b Ethernet sem fio).Mistura de radio pirata e web, o movimento tern 
o intuito de Ifberar largura de banda (bandwidth) ociosa (de usuarios e 
empresas), atraves de conexoes sem fio via ondas de radio, dando acesso 
gratuito aos usuarios. Esta zonas sao chamadas de wireless local area 
networks (WLAN). 

Em meio a debates crescentes sobre exclusao digital, democratizacao e 
acesso as novas tecnologias, os ativistas das comunidades sem fio estao 
construindo solucoes simples e criativas. Por exemplo, se voce esta no 
Tompkins Square Park em Manhattan,voce pode ligar seu /opfop(munido de 
um cartao de rede ethernet sem fio - U$ 100) e navegar na Internet debaixo 
de uma arvore, gratuitamente. No entanto, pequenos problemas existem, 
como a frequencia utilizada, que e a mesma de micro-ondas e outros 
equipamentos, sujando o espectro e diminuindo a velocidade da conexao, 
alem de chuva e paredes que dificultam o acesso. Segundo os defensores, 
esses pequenos bugs serao resolvidos com a maturidade do movimento. O 
que importa e colocar em pauta a democratizacao do acesso pelo espirito 
de compartilhamento que fez da Internet um fenomeno social. 

O grupo NYC Wireless ( http://www.nycwireless.net/ ) e um dos responsaveis 
pela disseminacao de zonas de conexao livres, pequenas TAZs sem fio, em 
Nova York. Outras experiencias estao em curso ao redor do globo(2).0 
grafico abaixo mostra o esquema de conexao e algumas zonas de acesso em 
NY(3). 



Em Strasbourg, na Franca, estudantes da Universite Louis Pasteur tambem 
se lancaram na onda do wireless (4) e a gigante France Telecom se 
interessou pela experiencia e emprestou laptops e palms para a recepcao. 
Em Seattle a coisa tambem pegou. Matt Westervelte alguns amigos subiram 
no telhado de suas casas, colocaram antenas e construfram uma rede sem 
fio de alta velocidade em junho de 2001. Eles conseguiram "acessar seus 
computadores de casa, jogar online enquanto assistem videos em seus 
assistentes pessoais - tudo na velocidade de 11 megabits por segundo, mais 
rapido do que qualquer operador de telefonia celular ou provedor sem fio 
podem oferecer" (5). 

Mas ha resistencias. Varios provedores profbem a retransmissao, como por 
exemplo a AOL que veta, em seu contrato, a disponibilizacao (eles 
consideram como sublocacao)da sua conexao a terceiros. No fundo os 
provedores nao querem nem saber se voce usa ou nao a totalidade da sua 
largura de banda. Alias o lucro deles vem tambem dai(6).Outros afirmam 
que a falta de seguranca e um limitador da ideia. Especialistas mostram que 
a rede nao e seguraja que vandalos ciberneticos (crackers) poderiam se 
apropriar da livre conexao para disseminar virus ou roubar cartoes de 
credito. Crackers e hackers, que dispoem do acesso das areas publicas 
destas redes podem, facilmente, invadir sistemas atraves da criacao de uma 
falsa mensagem de desconexao. No entanto, a falta de seguranca nao e 
exclusividade do wireless (7), como mostra a acao de hackers e crackers ao 
redordo mundo. 

O movimento de liberacao de banda larga pelas ondas de radio nao e tao 
novo assim e remete a pioneiros da Ethernet como Brewster Kahle, 
fundador da SFLan. Hoje os ativistas buscam construir redes sem fio em 
diversos pontos das cidades dentro do espirito da anarquia cooperativa e 
distributiva do sistema Linux, do Napster e outros sistemas abertos ou de 
conexao ponto a ponto. Os defensores do free wireless estao conclamando 



todos aqueles que possuem uma conexao de alta velocidade (cabo, DSL, Tl) 
a "emprestarem", gratuitamente, sua largura de banda para o publico. 

O compartilhamento de informacao ("a informacdo quer ser livre"), lema da 
contracultura digital, e enriquecido agora pelo compartilhamento de largura 
de banda, buscando democratizar o acesso ao ciberespaco. Os ciberativistas 
encorajam a confeccao de antenas rudimentares que transmitem ondas de 
radio para computadores reciclados rodando o sistema aberto Linux. A ideia 
e, como no mais nobre hacking, bancar o Robin Hood da informatica, tirar 
(sem roubar e sem privar) a bandwidth dos ricos para dar aos comuns dos 
mortais. Para Adam Shanddo Portland's Personal Telco Project, de Portland, 
"nos estamos tentando trazer a Internet de volta aos velhos tempos, antes 
que o interesse comercial a dominasse" (8). Espera-se ainda criar redes 
ponto a ponto ligando casas, escolas, cafeterias. Como afirma James 
Stevens, da London's Consumer em Londres, "a questao deve ser, como 
devemos distribuir esses recursos as pessoas que nao tem?.Se voce possui 
uma linha DSL de 2 megabits no seu trabalho e todos fecham as portas as 
cinco, esta linha esta disponivel. Ela pode ser ajustada para uso publico" (9). 



A ideia e criar uma forma de acesso paralelo a Internet ou mesmo uma 
Internet paralela. movimento Wi-Fi mostra que as zonas de libertacao do 
ciberespaco continuam a existir, apesar do pessimismo e do descredito 
atual. O sistema continua a evoluir no caos, criando novas TAZ. que 
chamei de "napsterizacao da rede", que consiste em compartilhar dados 
com outros, ponto a ponto, nao morreu com o Napster e so faz crescer, 
aumentando a capilarizacao das conexoes no ciberespaco. Agora, alem de 
compartilhar arquivos de texto, musica e videos, o movimento Wi-Fi quer 
compartilhar, gratuitamente, largura de banda. Como afirma uma ativista, 
"voce nao pode estocar largura de banda. Se voce nao a usa, ela e 
desperdicada "(10). A liberdade do ciberespaco podera esta vindo pelos 



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http:// http://www.personaltelco.net/ 

http:// http://www.nycwireless.net/ 

http:// http://www.wi-fi.org/ 

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http://www.nycwireless.net/press/newsday20011014.html 

http://www.nycwireless.net/press/nydailynews20011023.html 

http://www.nycwireless.net/press/pcmag20011127.html 

http://www.nycwireless.net/press/villagevoice20010815.html 

http://www.infoworld.com/ 

http://www.personaltelco.net/index.cgi/WirelessCommunities 

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7. De acordo com InfoWorld, urn novo padrao de seguranca para o Wi-Fi, 
denominado Protocolo do Codigo de Integridade Temporal (TKIP),ira 
modificar o codigo de criptografia das redes a cada 10.000 pacotes de dados 
transmitidos para torna-los mais seguros.Ver InforWorld, 14 fevereiro de 
2002. 



1. Bey, Hakin., TAZ. Zona Autonoma Temporaria.,sp., Conrad Livros., 2001., 
p.34. 

2. Veja o site 
http://www.personaltelco.net/index.cgi/WirelessCommunities, que traz 
uma relacao de comunidades no planeta. 

3. Nos Estados Unidos (Nova York, Portland, Sao Francisco[3], 
Seattle,Boston), Asia, Oceania, Europa e mesmo na America do Sul (ha uma 
experiencia no Chile) grupos de ciberativistas estao implementando redes 
de alta velocidade e gratuitas. Outras comunidades existem ao redor dos 
EUA como a Guerrilla.net of Cambridge, Mass., Consume.net de Londres e 
SFLan de San Francisco. Em Seattle, Westervelt criou o Seattle Wireless que 
ja conta com 30 participantes. 

4. Groison, David., LesEtudiants Strasbourgeois, pionniers du surf sans fils., 
in Liberation, in http://www.liberation.fr/quotidien/semaine/020306- 
045023034INTE.html 



8. Krane, Jim., op.cit. 

9. Krane, Jim, op.cit. 

10. Krane, Jim, op. cit. 
Fonte: 404nOtF0und 
( www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und/index.html ). 



BLOGS E ATIVISMO - Uma Politica de Codigo Aberto? 

Ricardo Rosas 



BLOGCERSGOnUGUiRRA] 

- 1 NAVIGATORI DEL WEB - ji. 



= B 



A relacao entre blogs e ativismo pode nao parecer muito clara, a primeira 
vista. Primeiro por que blogs passam a impressao de ser um tipo de 
ferramenta de publicacao particularmente individual (ou individualista), ou 
seja, pouco voltados a abordagens mais coletivas e, segundo por que, pelo 
menos no Brasil, a visao usual que deles se tern dado e a de uma especie de 
confessionario pessoal, quando nao um campo para novos exercicios 
literarios ou repositorio de opinioes sobre outros sites e fatos do cotidiano 
mais descartavel. Sem ignorar esse aspecto, mesmo por que os blogs nesse 
estilo de fato predominam em nossa paisagem virtual, o fato e que blogs 
tern igualmente servido para outros fins que nao o da simples expressao 
individual. Vale ressaltar, por outro lado, que esse mesmo aspecto mais 
cotidiano e proximo e um dos fatores que o tornam tao potente como 
ferramenta de comunicacao em se tratando de abordar uma questao como 
o seu uso politico e ativista. 

Para entender esse uso, seria interessante ver como esse fenomeno tern se 
dado tanto num nivel mais internacional, no caso, nos EUA, bem como no 
Brasil. Essa aproximacao se mostra interessante, se vermos como, de 



acordo, com o "censo blog" do NITLE (National Institute for Technology and 
Liberal Education) (1), havia, em Janeiro de 2005, 1.286.508 blogs em lingua 
inglesa, e, em terceiro lugar por lingua, 81.077 blogs em lingua portuguesa. 
Segundo o Technorati.com, um site voltado para o estudo dessa ferramenta 
de publicacao, um novo blog e criado a cada 5.3 segundos. 

Se estas estatisticas podem impressionar, mais ainda pode espantar o 
numero de leitores, pelo menos em termos dos EUA, onde, segundo uma 
pesquisa da Pew Internet and American Life Project em Janeiro de 2005, 
27% dos usuarios da Internet dizer que leem blogs, ou seja, 32 milhoes de 
norte-americanos (2). Um tal numero tern chegado a preocupar a area 
jornalistica mais convencional dos EUA. Devido tanto a uma informacao 
independente dos filtros de interesse dos grandes meios, quanto a 
possibilidade de informacao fresca e mesmo furos que poderiam passar 
desapercebidos nesses mesmos meios, os blogs tern sido cada vez mais 
utilizados como meio informativo por muitos leitores virtuais, o que no caso 
de blogs com teor politico mais acentuado chega a ser um fator crucial. Isso 
ficou muito claro no ambiente politico norte-americano, principalmente na 
ultima campanha eleitoral para presidente, quando ambos os partidos 
lancaram blogs para seu eleitorado, blogueiros foram convidados para 
convencoes nacionais dos partidos como membros da imprensa e o blog do 
democrata Howard Dean se tornou um modelo para o ativismo de base via 
internet. 

Em se tratando da influencia politica dos blogs, impressiona como o blog de 
esquerda de Joshua Micah Marshall, Talkingpointsmemo.com, chega ao 
numero de 500.000 visitas mensais, como a comunidade blogueira 
conseguiu desvelar o piano da Sinclair Broadcasting de forcar suas estacoes 
a transmitir um documentario anti-Kerry, ou mesmo formar um ambiente 
solidario para soldados norte-americanos insatisfeitos no Iraque e suas 
familias nos EUA. Significativo na questao da invasao do Iraque e o livro Blog 



de Bagda, publicado no Brasil pela Companhia das Letras no ano passado, 
onde o autor Salam Pax (nome fictfcio) relata suas experiencias cotidianas e 
subjetivas no Iraque invadido, tendo o blog se tornado uma fonte de 
informacao nao-oficial e um cult. 

Os exemplos sao inumeros e com certeza nao caberiam no escopo deste 
texto. Importa, no entanto, enxergar um pouco alem dos fatos mais a 
superffcie. Blogs tern uma vantagem grande de agregar informacao rapida e 
compacta, facil de ler na velocidade atual em que vivemos, alem da imensa 
proliferacao de links a acessar e, mais importante, a formacao de 
comunidades blogueiras e de leitores, um elemento comum em blogs de 
todos os tipos, nao necessariamente ativistas. Mas o interessante neste 
sentido e justamente o fato de que, pela formacao destas comunidades, se 
nota o surgimento de uma nova forma de atuacao politica que foge a velha 
forma da acao "de cima para baixo". Em tais comunidades, a forma 
colaborativa e decisoria segue as contributes gerais dos seus membros e 
nao uma instancia decisoria de um time editorial de um website. 

Como nos mostra Micah L. Sifry em "The Rise of Open-Source Politics" (3), e 
gritante, por exemplo, a diferenca entre um site ativista como o 
MoveOn.org e a comunidade blogueira DailyKos.com. MoveOn, um site ja 
celebre com seus atuais 2,8 milhoes de assinantes, tern sido muito bem 
sucedido em diversas campanhas, por exemplo, em divulgar filmes contra o 
presidente Bush, ou em arrecadar dinheiro para a campanha de seu 
adversario, entre outras acoes, mas cujos membros tern pouca possibilidade 
de falar entre si diretamente ou de agregar suas ideias independentemente 
das escolhas que seus lideres fazem por eles. DailyKos por sua vez formou 
uma comunidade cujas ideias surgem e se articulam de "baixo para cima". 
Administrada por um veterano da guerra do Vietna, Markos Moulitsas, o site 
pede o registro (gratuito) para que visitantes postern comentarios. Alem 
disso, e estimulada aos usuarios a criacao de seus proprios blogs dentro de 



seu blog central. Baseado na ferramenta "Scoop", DailyKos inclui moderacao 
pelos membros, com ranking dos posts e comentarios. Conforme a atencao 
dada, os posts aparecem na pagina principal onde ganham uma audiencia 
ainda maior. Em conseqiiencia, a comunidade virou uma otima ferramenta 
de colaboracao on-line, nao apenas para angariar fundos na eleicao 
(durante as quais chegou a ter meio milhao de visitas diarias), mas 
igualmente para checagem rapida de afirmacoes de politicos e noticias, 
disseminacao veloz de irregularidades de votos, entre outras acoes. 

Segundo Sifry, o que esta dinamica blogueira anuncia e o surgimento, ainda 
que incipiente, de uma politica de codigo aberto (open source), onde se 
abriria a comunidade a participacao no planejamento e em implantacoes de 
politicas, deixando agentes e membros avaliarem seus pianos e acoes, 
alterando o uso de recursos de pianos ruins para outros melhores e 
angariando mais participantes no processo. Ou seja, uma mudanca de 
organizacoes egocentricas para outras baseadas no formato das redes. 
que implicaria nao apenas no afrouxamento do controle "de cima para 
baixo" das organizacoes politicas tradicionais, como uma verdadeira 
mudanca de paradigma, segundo alguns mais otimistas. Se tais mudancas se 
darao com velocidade ou nao, e algo que so o futuro dira, mas impressiona 
como a geracao adolescente nos EUA tern se comportado em avaliar o 
desempenho de seus professores, por exemplo, num site como 
RateMyTeachers.com, onde mais de 6 milhoes de avaliacoes foram postadas 
por estudantes dando notas a mais de 900.000 professores em escolas 
norte-americanas e canadenses. A questao e imaginar quando eles 
chegarem a suas idades adultas e comecarem a avaliar outras autoridades, 
como politicos e patroes. 

Mas e no Brasil? Em que pese nossa comunidade de blogueiros ser bem 
menor - ainda que muito provavelmente a terceira no mundo - e suas vozes 
nao terem forca de atuacao como nos EUA, o impacto dos blogs tern sido 



propalado pelas mfdias e livros publicados sobre o tema ou coletando 
material publicado nestes. Em reportagem sobre a questao, na Folha de Sao 
Paulo, os blogueiros brasileiros afirmavam, em sua maioria, ser 
conservadores (4). Mas sera assim mesmo? Com certeza, aqui nao se repete 
o fenomeno massificado dos blogs de notfcias norte-americanos. Blogs de 
esquerda ou ativistas existem, e sao varios, de blogs marxistas, anarquistas, 
ecologicos, a cicloativistas. 

Nao e minha proposta aqui fazer um censo destes blogs, mas focar em 
certas nuances e formatos, que nao obrigatoriamente seriam locais, mas 
cujos aspectos ou desenrolares se dao de uma forma pouco usual em 
relacao a seus equivalentes, por exemplo, norte-americanos. Para tanto, me 
voltarei basicamente a dois destes blogs enquanto producao de conteudo e 
de acoes praticas-ativistas - que, embora excecoes a regra, mesmo no Brasil, 
apontam para novos horizontes de acao -, e a uma forma de publicacao 
coletiva por blog que tern sido particularmente favorecida por algumas 
comunidades ativistas ou desenvolvedoras de projetos que lutam contra a 
exclusao digital. 

Esclarecedor sobre as relacoes entre ativismo e blogs no Brasil, seja mesmo 
pelo ineditismo no relatar e abordar acoes supostamente "ativistas", em 
que de certa forma inaugurou um modo inusitado de disseminar sua pratica, 
seja pelo seu humor escrachado e por vezes adolescente ou gratuito, o blog 
"Deliquente, Inconsequente e Demente" do enigmatico Ari Almeida (5), 
pode muito bem figurar como um modelo (ou anti-modelo?) de acao bem- 
sucedida tanto como formacao de uma comunidade quanto como fonte de 
inspiracao para uma serie de epigonos que Ihe seguem o exemplo. Mas o 
que torna o blog de Ari Almeida diferente de outros blogs de vies ativista? 

Ari, primeiramente, e uma incognita. Nao se sabe ao certo se esse e mesmo 
um nome real ou de um coletivo. Em segundo lugar, Ari faz o que tenho 



chamado de "ativismo gonzo". Gonzo e a expressao criada pelo jornalista 
Hunter S. Thompson, recentemente falecido, que traduzia o seu estilo de 
escrita onde fazia reportagens vivenciando in loco as situacoes e 
normalmente narrando em primeira pessoa, o que dava a impressao vivida, 
a quern o lia, de estar participando do acontecimento. Entre outras 
peripecias, Thompson escreveria sobre suas jornadas com um grupo de 
Hell's Angels nos idos dos anos 1960, viagens com acido e outros 
estupefacientes em situacoes as mais inusitadas e hilarias, como uma 
passagem pelos cassinos de Las Vegas ou a participacao num congresso de 
policiais sobre narcoticos(l) na mesma cidade, nos quais sempre 
transparecia a mais absoluta anarquia, a ironia sarcastica e o exagero. Numa 
linguagem direta e sem concessoes ao "bom gosto", o estilo de Thompson 
era marcadamente confessional (o que nao excluia igualmente o uso da 
ficcao num texto a priori jornalistico) e isso foi o que deu de certa forma um 
sabor absolutamente original a este filho bastardo do new journalism. 

Pois bem, Ari Almeida comecou a chamar atencao com seus relatos sobre 
aventuras e desventuras (algumas as mais estapafurdias) com postagens no 
site do Centro de Midia Independente ( www.midiaindependente.org ). Entre 
investidas como invadir casas burguesas para trocar os quadros nas paredes, 
levar garotos de rua para passear num shopping center ou reproduzir, com 
mini toca-fitas, sons de matadouro de bois dentro de uma churrascaria, Ari 
conta todas essas traquinagens num torn confessional e divertido que chega 
a parecer um conto ou uma conversa de bar, mas que no final reproduz toda 
a sensacao da aventura (ou acao) com o sabor de quern estava presente no 
momento. Se por um lado, seus relatos inspiraram inimigos ferozes que 
criticavam a suposta gratuidade ou inutilidade dos atos, bem como o torn 
adolescente ("deliquente") das acoes e dos proprios relatos, por outro 
angariou (e angaria) fas e admiradores que Ihe aplaudem a coragem e 
originalidade de ideias. Fato e que, se escrevendo no blog, Ari realiza um 
"ativismo gonzo", e tambem inegavel que suas acoes, por mais distantes 



que estejam de um ativismo tout court como conhecemos usualmente, mais 
proximo esta por outro lado, da intervencao na vida cotidiana, aquela 
mesma tao valorizada pelos situacionistas e por um de seus grandes 
inspiradores, o pensador marxista Henry Lefebvre. Alem disso, nao se pode 
negar igualmente que Ari inventou um modo interessante de estimular um 
ativismo cotidiano pelo seu uso da ferramenta narrativa no blog, gerando, 
no processo, uma comunidade de blogueiros (e personalidades virtuais) que 
inventam suas proprias estripulias "contra o tedio burgues" , como Timoteo 
Pinto ou Daniel Maceduss (6). E quanto as acusacoes de gratuidade, e o 
proprio Ari quern afirma, numa entrevista: "Apesar de nao passarmos de um 
bando de delinquentes, gostamos de acreditar que estamos em luta contra 
um sistema opressor, e para isso usamos conceitos libertarios e 'causas' que 
nos atraem de um jeito ou de outro para justificar nossos ataques" (7). 

Um outro caso bastante peculiar de uso de blog com propostas ativistas se 
encontra, por sua vez, em outra ponta do espectro, se comparado ao caso 
de Ari Almeida. O blog "Cartas ao Sistema de Arte" (8), da artista Ana 
Amorim, subverte de certa forma a propria ferramenta blog, 
transformando-o em outra coisa. Em parte devido ao proprio metodo de 
trabalho e criacao de sua autora, "Cartas..." nao e um blog convencional no 
sentido em que conhecemos. Como diz seu titulo, o blog armazena as varias 
cartas, mensagens, e-mails enviados pela artista a institutes, fundacoes, 
museus, outros artistas, criticos, curadores, veiculos de comunicacao, entre 
outros, nos quais questiona a logica por tras dos financiamentos e fundos 
que sao destinados ao meio artistico e suas institutes, bem como as 
origens, nao raro corporativas ou vinculadas a interesses desconhecidos, 
certas vezes escusos. Nao a toa, nestas ela indagara sobre os primordios, 
por exemplo, de fundacoes como a Vitae (onde mapeia a historia financeira 
que Ihe deu origem, tendo sido este projeto investigativo submetido a bolsa 
de artes que, no caso, foi recusado), bem como tenta deixar as claras os 



apoios de corporacoes a certas mostras, algumas das quais se recusou a 
participar justamente por tais apoios. 

Dessa forma, o blog hospeda as cartas, lista links a institutes e grupos 
ativistas e anti-corporacoes os mais diversos, expoe uma serie de 
questionamentos normalmente evitados pela imensa maioria dos artistas do 
"mercado das artes", deslindando todo um processo de fluxo financeiro por 
tras do sistema de arte, mas ao mesmo tempo, forma ele proprio, como 
processo e, de certa forma, peca conceitual, uma obra (de arte) em si 
mesma. Nele tambem mapeara projetos e outras cartografias inconclusas, 
realizadas ou por fazer. Como tal, se faz como obra em fluxo e assim, claro, 
tambem um blog. A subversao do formato blog enquanto diario ou noticioso 
efetua-se em si por uma meta-publicacao (ou meta-criacao) que transforma 
o blog em arte, e, por que nao, num dispositivo conceitual ativista e anti- 
corporativo. Nao por acaso, suas cartas ja geraram certas polemicas pela 
internet afora, e, nada surpreendente, tern propiciado pouco espaco para 
uma maior receptividade de seu trabalho, por razoes que o "sistema de 
arte" com certeza sabera melhor que os vis mortais. 

Por fim, mudamos aqui o foco do conteudo para a interface. Um 
desenvolvimento interessante que esta se dando no Brasil e a producao de 
ferramentas de publicacao coletiva usando blogs, principalmente em 
comunidades ativistas, de desenvolvedores de software livre ou defensores 
da inclusao digital. 

Blogs coletivos nao sao nenhuma novidade, e um procedimento corriqueiro, 
por exemplo, em grupos de artistas na formatacao de projetos 
colaborativos. Caso paradigmatico de um blog coletivo de teor ativista foi o 
ja extinto "Ministerio do Caos", que reuniu muitos jornalistas, teoricos e 
ativistas brasileiros e cujo conteudo, em sua epoca aurea, era de uma 
riqueza de analise pouco vista na comunidade blogueira nacional. 



Mas o caso em questao nao e exatamente de blogs coletivos e muito mais 
de ferramentas de gestao de conteudo com multiplos usos e tarefas, com a 
participacao de diversos membros e metodos de avaliacao colaborativa, 
que, no caso especffico que analisaremos, funcionam igualmente como 
"blogs". Particularmente favorecido por comunidades open source e 
ativistas brasileiras tern sido a ferramenta CMS (Content Management 
System, ou Sistema de Gerenciamento de Conteudo), da qual as mais usadas 
no Brasil sao o Drupal, Xoops e Mambo, todas em codigo aberto. 

O Drupal, por exemplo, nao e um blog, mas tambem pode ser. Tendo sido 
criado em 2000 por Dries Buytaert, o grande destaque do Drupal e seu foco 
na colaboracao e na comunidade. Sendo basicamente uma ferramenta de 
discussao e comunicacao, ele estimula a interacao do usuario atraves de 
foruns, blogs, filas de moderacao abertas, comentarios, chats, notificacao de 
e-mail, relatorio de acessos, assim como a estruturacao de atividades em 
rede, como agregacao de noticias e distribuicao de conteudo via RSS, 
permitindo igualmente um feedback social com o uso de sistema de 
pontuacao por karmas (como no Salshdot) para avaliar comentarios e um 
sistema de moderacao que permite aos usuarios selecionarem as postagens 
que devem aparecer na pagina inicial. Alem disso, o Drupal forma tambem 
uma rede social como o Orkut ou Friendster, fornecendo ID e perfis dos 
usuarios, entre outras possibilidades, a seus membros. Dessa forma, o 
Drupal (como alguns outros CMS's open source) se configura como uma 
autentica tecnologia ou software social, tornando possivel uma comunidade 
colaborativa e auto-gerida por seus membros integrantes. 

Isso pode ser visto, por exemplo, no projeto dos Autolabs, realizado pela 
rede ativista Midiatatica.org, em que foram dadas aulas e oficinas de 
reciclagem de computadores, sua manutencao, criacao sonora e para radio, 
criacao de conteudo, narrativas digitais e criacao grafica, todos via 
programas em software livre, para trezentos jovens na periferia de Sao 



Paulo, em Itaquera, Sao Miguel Paulista e Ermelindo Matarazzo. Entre 
outras ferramentas usadas no processo, um CMS semelhante ao Drupal, o 
Xoops (9), foi utilizado durante o periodo das oficinas, de cerca de seis 
meses, para publicar imagens, textos, manuais das oficinas, entre outras 
producoes e contributes dos participantes, tanto oficineiros como alunos, 
e outros membros da rede, tendo no blog (coletivo) a via principal de 
disseminacao de noticias, comentarios, notas, diario de aula, reclamacoes, 
entre outras coisas. Uma das espinhas dorsais do projeto, o CMS uniu todos 
os participantes num so ambiente de integracao. 

Mas os usos de uma ferramenta como o Drupal ou o Xoops podem ser 
infinitos. Imagine, por exemplo, um acampamento de ativistas num espaco 
publico de alguma cidade grande para alguma acao, digamos, para protestar 
contra a situacao dos sem-teto na cidade. Suponha-se que tal acampamento 
duraria uma semana. Durante o periodo, para complementa-lo, se poderia 
usar um Drupal (ou um Xoops, um Mambo) para atualizar noticias, incluir 
videos, clips de gravacoes in loco, entrevistas, artigos na imprensa, ensaios, 
comentarios e depoimentos de participantes, fotos do acampamento, 
planejamentos de acoes (com a devida senha), necessidades, etc. O uso do 
CMS poderia auxiliar uma comunidade ativista temporaria numa acao ou 
projeto como esse, interagindo seus atores e possibilitando trocas entre si e 
com aqueles que estao fora. 

Acima de tudo, e como uma plataforma de comunicacao colaborativa e 
ambiente de publicacao (entre outros, via blog) que podemos entender 
melhor ferramentas como o Xoops ou o Drupal. 

Logo, como vimos pelo que fica desses exemplos, blogs e ativismo nao sao 
nada incompativeis, mas podem pelo contrario se complementar tanto na 
realizacao de acoes quanto na divulgacao de fatos e informacoes, assim 
como na formacao de comunidades colaborativas. Em sua multidao de 



vozes as mais dfspares, quern sabe nao serao os blogs e suas novas [Postado em 15 de junho de 2005] 

ferramentas coletivas de publicacao, juntamente com as novas praticas 
ativistas que estao surgindo, que abrirao o codigo-fo.nte da polftica para a 
participacao de todos? 

Notas: 

1. www.blogcensus.net e www.nitle.org . 

2. http://www.pewinternet.Org/PPF/r/144/report display.asp 

3. Sifry, Micah L. "The Rise of Open-Source Politics". Em: The Nation, 
http://www.thenation.com/docprint. mhtml?i=20041122&s=sifry, acessado 
em 07/06/05. 

4. "Blogueiros dizem nao ser 'de direita'", Em: Folha de Sao Paulo, 
http://wwwl.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u45604.shtml, acessado 
em 07/06/05. 

5. www.delinquente.blogger.com.br . 

6. www.timoteop.weblogger.terra.com.br e http://maceduss.cjb.net 

7. Ibelli, Julio. "Curitiba: socialmente insegura". Em B*Scene, 
http://www.gardenal.org/bscene/qualquer/deliquentes.htm, acessado em 
08/06/05. 

8. http://questoes.blogs.com/cartas ao sistema de arte/ 

9. http://www.midiatatica.org/autolabs/blog/ 



Ciberespaco: Moradia do Pensamento 

Carolina Borges 

E atraves da inteligencia da nossa especie e do seu incessante desejo por 
respostas que chegamos no infcio de uma grande transformacao social. 
Entramos na era da informacao. Grandes questoes sendo resolvidas com 
simples respostas. Novos valores, novas formas de relacoes, a virtualidade 
povoando existencias, a efetivacao de um universo paralelo, da vida 
artificial, atomos de silicio gerando bits. 

O ciberespaco como territorio do pensamento, sendo assim 
desterritorializado, rizomatico, caotico; como se cada link fosse uma sinapse 
realizada e cada site um neuronio conectado. Encantados com a nossa mais 
nova moradia - afinal sempre fomos e vamos ser assim; seres pensantes - 
vamos nos sentindo confortaveis na medida em que o espaco se dilui e o 
tempo ganha novas referencias: a velocidade dos pensamentos. 

Nao existe distancia na moradia do pensamento, tudo ocorre 
simultaneamente, uma grande rede conectada atraves de fluxos de 
informacoes. Seres humanos conquistam seu espaco, a unica especie 
pensante do planeta conquista seu territorio; o ciberespaco. A tecnologia 
sendo utilizada em todos dominios do conhecimento, do biologico ao 
filosofico. Nao mais consideramos ficcao cientifica a ideia de uma vida de 
200 anos. 

Em um processo lento , a tendencia e que todo ser pensante do planeta 
tenha acesso ao ciberespaco. Considerando o preconceito entre outras 
tantas mediocridades inerentes a nossa especie - isto me remete a 
Nietzsche e a superacao da especie para alem do bem e do mal , o 
nascimento do super homem - certamente ele (preconceito) existira em 
uma humanidade conectada. Que tal pensarmos em preconceitos 
ideologicos, criativos? Com outros valores povoando as relacoes, nao mais a 



raca, genero, condicao social, opcao sexual, religiao, serao motivos de 
preconceitos e sim, algo mesmo relacionado a capacidade criativa e 
inteligivel dos habitantes deste "desterritorio rizomatico". Humanidade 
conectada em rede, outras desigualdades. Uma vez seres pensantes, tera 
valor o pensamento. Pensamentos belos, pensamentos feios, pensamentos 
mediocres, pensamentos altruistas, ideias criativas, ideias reacionarias. 
Sendo pensamento modo vida ; vidas belas, vidas feias, vidas mediocres, 
vidas altruistas.. .( Modos de pensar criam maneiras de viver; maneiras de 
viver inspiram modos de pensar. Nietzsche.) 

Valores de beleza relacionados ao corpo organico, serao substituidos por 
valores de beleza relacionados a bons textos, bons links, boas criacoes 
artisticas. Havera espaco para o mass media? E a sociedade do espetaculo 
que rumo tomara? Outros valores surgirao com menor importancia para a 
materia, para o organico em favor de uma valorizacao dos fluxos 
informacoes, outras formas de consumo e relacoes com a vida surgirao. 

Chegara um momento onde nao havera mais limitacoes para a velocidade 
do pensamento; tempo e espaco em uma mesma categoria. Tudo se dara 
por fluxos. E a materia? Atomos? O Organico? Coexistira em meios a bits e 
fluxos de informacoes. 

Evolucao da especie humana; resultado das novas relacoes (homem X silicio) 
gerando novas formas de homem, de humanidade... Com chpis instalados 
pelo corpo para controlar a temperatura organica e sua relacao com o meio; 
a nossa "curiosa" especie nao mais necessitara de roupas para aquecer. Ao 
natural nos tornarmos mais naturais, mais bichos mesmo. A inteligencia 
levara a especie humana a habitos arcaicos, a uma proximidade e 
experimentacao real com a natureza que habita o planeta. Alucinados e 
maravilhados com o poder dos fluxos das informacoes, talvez nem 
perceberemos. Ficcao cientifica? Voces sabem que nao! 



CRITICA RADICAL PARA MICREIROS 

Daniel Cunha 



dinheiro. O objetivo de toda atividade profissional, direta ou indiretamente, 
reduz-se a isso. 



NovaSenha 
Confirma 

J 



ifc 



Uma das mistificacoes da sociedade capitalista e o conceito de "profissao". 
Este conceito surgiu com a necessidade da divisao de trabalho na sociedade 
capitalista, no inicio da historia das fabricas, visando ao aumento de lucros. 
E teve sua justificacao teologica no conceito de "vocacao" desenvolvido por 
Lutero, que hoje ja rompeu as fronteiras do protestantismo. Logo apos 
saber o nome de alguem, a curiosidade seguinte e "o que voce faz?", como 
se isso dissesse tudo sobre uma pessoa, seus sentimentos, seus desejos, 
suas aspiracoes. 

Este conceito de "profissao", produto de urn tipo de sociedade especifica e 
de uma era especifica, e de tal forma interiorizado nos "homens capitalistas" 
que muitos realmente creem que nasceram para passar toda a sua vida 
desempenhando apenas urn tipo de atividade, como se isto estivesse 
gravado em seus genes. O que acaba, por sua vez, tendo reflexos em seu 
desenvolvimento intelectual: o "profissional" e aquele que entende tudo de 
sua "profissao", e pouco ou nada sobre outras areas do conhecimento 
humano, especialmente se nao Ihe servir de modo utilitarista. O capitalismo 
reduz o homem a uma mera maquina de transformar dinheiro em mais 



O proposito deste artigo e mostrar a uma classe especifica, a dos "micreiros" 
(engenheiros e cientistas em geral que fazem uso extensivo de 
computadores, inclusive programacao e simulacao computacional), que ela 
possui todo o ferramental intelectual necessario para uma critica radical da 
sociedade em que vive. 

O que e radical? 

Primeiramente, um esclarecimento. Em nossa sociedade muitas vezes a 
palavra "radical" e utilizada com acepcao errada, como sinonimo de 
"fanatico", "inflexivel", "histerico". Cumpre aqui desfazer este mal- 
entendido. "Radical" deriva de "raiz"; radical e aquele que vai a raiz. A critica 
social radical e aquela que vai a raiz dos problemas sociais. Dito isto, vamos 
ao que interessa. 

"loop" computacional 

Todo micreiro sabe o que e um "loop". Esta tecnica de programacao e 
utilizada quando uma mesma operacao ou conjunto de operacoes deve ser 
realizado varias vezes, de forma que seria um estorvo escrever o mesmo 
codigo varias vezes. Todas as linguagens de programacao que se prezem 
possuem esse tipo de estrutura. Em pseudo-codigo, seria algo, com 
possiveis variacoes, do tipo: 

Inicializacao 

se a condicao C for verdadeira, 



realize a operacao O e volte ao infcio. 

fim 



Na linguagem Matlab, um exemplo de loop seria o seguinte: 



disp(i); 
end 



disp(i); 

end 

Como o leitor micreiro ja deve saber, este e um algoritmo banal que 
imprime na tela os numeros de 1 a 10. 

"Bug"\ O "loop" infinito 

Algumas vezes ocorrem enganos na codificacao, ou no proprio algoritmo, de 
forma que o ciclo (o "loop") que deveria ocorrer um numero limitado de 
vezes, acaba ocorrendo infinitamente; em outras palavras, a conditio de 
finalizacao do "loop" nao acontece nunca. As razoes do erro sao variadas, 
podendo ser de um simples erro de digitacao a um erro de concepcao do 
algoritmo. Por exemplo, imagine se o codigo anteriormente apresentado 
tivesse sido escrito da seguinte forma: 



= 0; 



O programador se enganou e trocou o sinal "+" pelo sinal "-". O resultado, 
computacionalmente falando, e desastroso: ao inves de imprimir na tela os 
numeros de 1 a 10, o programa imprime -1, -2, -3... indefinidamente, ate 
que interrompamos artificialmente a sua execucao. 

Durante essa execucao desastrosa, o programa consome os recursos do 
computador, que fica servindo inutilmente a uma tarefa infinita sem 
sentido. O "loop" infinito e um erro de programacao, um "bug". 

O capitalismo como "bug" 

Se o capitalismo, o sistema social dominante, fosse escrito na forma de 
pseudo-codigo, ele seria algo do tipo: 



2. use o *dinheiro* para fabricar * mercadorias* ', explorando *trabalho*, em 
troca de um *saldrio* 



3. venda as mercadorias por um preco maior do que o custo, conseguindo 
ma is *dinheiro* 



4. pague ao *Estado* os impostos devidos no passo 3 



5. volte ao passo 2. 

O leitor micreiro deve perceber que trata-se de um ciclo sem condicao de 
parada, ou seja, de um "loop" infinito, de um "bug". *0 verdadeiro bug do 
milenio e o capitalismo*. 

Assim como um "bug" computacional consome os recursos do computador 
de forma sem sentido, o "bug" social do capitalismo consome a energia vital 
dos seres humanos de forma completamente irracional, como o vampiro da 
humanidade. Sob o dominio deste "bug", dinheiro, mercadoria e trabalho se 
transformam em fins em si mesmos: o que importa e que o ciclo continue 
girando, nao importa como. 

As conseqiiencias disso nao sao dificeis de inferir. O trabalho torna-se um 
fim em si mesmo: temos que trabalhar oito horas por dia, cinco dias por 
semana, mesmo que nao haja nada para ser feito, ou somente coisas 
estupidas. E com a tecnologia, a automacao, o "bug" revela toda a sua 
irracionalidade: pois a automacao, que deveria ser fonte de *libertagao* do 
trabalho, acaba se tornando fonte de * desemprego* para uns, e horas 
extras para outros. Conceito este, "desemprego", que so pode existir na 
*sociedade do trabalho*, e reduz a pessoa a um sub-humano: "quern nao 
trabalha nao deve comer!". Essa frase dita hoje, quando o trabalho se torna 
superfluo, eterrorista. 

O capitalismo e um *codigo cibernetico fetichista*; temos que prestar-lhe 
culto, assim como os indios prestavam culto aos seus totens. O programador 
torna-se escravo de seu proprio codigo. 

"bug" do "bug" 



Mas algo de inesperado aconteceu. Com o desenvolvimento da tecnologia 
microeletronica, do computador e da automacao, o algoritmo defeituoso 
capitalista comecou a ranger e soltar fumaca. Pois o passo 2 do algoritmo 
("use o *dinheiro* para fabricar *mercadorias*, explorando *trabalho*, em 
troca de um *salario*") cada vez mais e executado por maquinas 
automaticas, robos e malhas "feedback", que "trabalham" sem ganhar 
salario. Desta forma, o passo 3 ("venda as mercadorias por um preco maior 
do que o custo, conseguindo mais *dinheiro*") se realiza cada vez menos, 
pois, se as mercadorias sao feitas por robos, e nao mais por pessoas, quern 
vai comprar as mercadorias? E a dificuldade de realizar o passo 4 ("pague ao 
Estado os impostos devidos no passo 3"), resulta na crise do Estado, que 
alias so existe para ser o sindico e o cao de guarda do algoritmo capitalista. 

"bug" capitalista revela possuir um "bug" do "bug", que corroi a sua 
propria base. algoritmo capitalista esta entrando em colapso. 

Simulacao 

Uma interessante tecnica utilizada pelos micreiros e a *simulacao*. A 
simulacao computacional consiste em simular processos reais em um 
computador, fazendo uso de um modelo matematico que representa o 
sistema estudado, e que pode ser expresso em um algoritmo 
computacional. Assim, por exemplo, um engenheiro quimico pode inferir o 
efeito do aumento de temperatura na conversao de um reator 
instantaneamente, praticamente sem custo e sem gasto de recursos 
naturais, em seu computador pessoal. 

O interessante e que o capitalismo, no momento em que seu algoritmo 
comeca a entrar em colapso, tenta prolongar a sua miseravel existencia 
*simulando* a si mesmo. Um exemplo e a especulacao financeira. Uma vez 
que a criacao real de valor, pelo "loop" capitalista, revela-se enferrujada, o 



capitalismo tenta criar valor fictfcio, *valor simulado*: fazer dinheiro sem 
trabalho, sem substantia, na especulacao dos mercados globalizados. Criam- 
se bolhas financeiras sem nenhum lastro na atividade real, que ao 
explodirem geram catastrofes sociais. 

Outra forma de simulacao, de tentar manter viva uma quimera, e feita pela 
intervencao estatal. Trabalho, de acordo com o algoritmo capitalista, deve 
gerar riqueza social, nao consumi-la. Mas veja o caso do programa Primeiro 
Emprego, do estado do RS, e que possivelmente seja ampliado 
nacionalmente (com todas as suas boas intencoes, etc.) Por este programa, 
o Estado paga o salario de um jovem por seis meses para que este trabalhe. 
Isto mesmo, o *Estado paga* para que se trabalhe: e a *simulacao de 
trabalho*. A suposta razao disto e a aquisicao de experiencia por parte do 
jovem, para que no futuro ele possa ocupar um "emprego"; so que esse 
emprego nunca existira, pois a velocidade de racionalizacao de trabalho pela 
tecnologia e muito mais rapida do que a de qualquer "crescimento 
economico". "Crescimento economico" este que nao passa, por assim dizer, 
da velocidade de rotacao da roda capitalista, da velocidade de execucao dos 
"loops", ou seja, tambem ele transformou-se em um fim em si mesmo. No 
capitalismo, as pessoas se assemelham aqueles ratinhos adestrados que 
ficam correndo sobre uma roda giratoria; eles devem correr cada vez mais 
rapido, sem saber por que, sem nenhuma reflexao sobre as razoes de sua 
atividade irracional incessante. 

No momento em que o "bug" capitalista agoniza, os seus defensores tentam 
manter o espetaculo amarrando cordas em seus bracos e pernas, como uma 
marionete, e fazendo-o dancar. Em vao. Trabalho e um conceito obsoleto, e 
sera cada vez mais; e nao ha motivo para lamentos. Se soubermos utilizar de 
forma consciente e emancipatoria as forcas produtivas que temos hoje, 
podemos nos *libertar* dele. 



Hackers! 

"Hacker" e aquele micreiro especialmente habil, que consegue quebrar 
codigos, burlar sistemas de seguranca, etc. Neste momento, precisamos de 
"hackers" que "hackeiem" a sociedade como um todo, nao somente os 
sistemas computacionais, que combatam o codigo social central, o codigo 
fetichista do capitalismo. Esse ataque comeca pela critica radical do 
algoritmo dominante, que em ultima instancia nao passa de um desprezivel 
"bug". 

Mas o "hacker" nao quer somente destruir. O "hacker" quer construir um 
novo codigo, um codigo que seja conscientemente escrito por todos, que 
nao sera objeto de culto totemista, mas que estara *subordinado* aos 
programadores, as pessoas. O "hacker" quer construir um codigo em que a 
atividade humana produtiva nao seja um fim em si mesmo (o "trabalho"), 
mas que ela seja um *meio* para a satisfacao das necessidades. E se, 
fazendo uso das forcas produtivas, o tempo necessario de atividade for de 
duas horas por semana, otimo; ela nao sera mais um fim em si mesmo, nao 
iremos mais trabalhar simplesmente "porque temos que trabalhar", como 
dispendio abstrato de energia humana, como um fim em si mesmo 
desvinculado de qualquer necessidade concreta. 

De certa forma, os micreiros ja sao "hackers" naturalmente, pois sao eles 
mesmos que projetam aquelas malhas "feedback", aquelas automatizacoes 
que desestabilizam o algoritmo capitalista. Mas isto nao basta, e preciso ser 
"hacker" de forma * consciente* . O "hacker" deve praticar a *subversao 
cibernetica* combatendo conscientemente o codigo social central, o codigo 
capitalista; so assim ele sera um "hacker" radical. O seu objetivo e *resetar o 
capitalismo e criar um novo codigo para um novo tempo*. 



"Hackers" de todo o mundo, uni-vos! 



CYBER-ATIVISMO NAO-VIOLENTO 

Felix Brann 

A nao-violencia, de forma alguma, limita-se a protestos ffsicos. Apesar da 
histeria da mfdia sobre as taticas agressivas usadas pelos hackers e crackers, 
ela esta muito viva na web. 

Um exemplo bem documentado de desobediencia civil nao-violenta e 
eletronica e o caso da etoy.com e da etoys.com. Em 1995, um grupo de 
artistas conceituais europeus criou um website no endereco www.etoy.com. 
Em outubro de 1997, o www.etoys.com, uma loja de brinquedos online, 
abriu seus negocios — dois anos apos a etoy.com ter registrado seu dominio 
e comecado a colocar seu conteudo no site. Em 1999, a www.etoys.com 
tornou-se publico e um dos sites mais valiosos da internet, avaliado em 6 
bilhoes de dolares. Eles tambem 
comunicaram a www.etoy.com e 
reclamaram que a semelhanca dos 
dominios estava confundindo os 
clientes e comprometendo a marca. 
Mais tarde, solicitaram aos clientes que 
haviam acessado o site dos artistas por 
engano que reclamassem da linguagem 
grafica e das imagens la. A essa altura, 
a www.etoys.com ofereceu comprar e 
nome "etoy", mas seus proprietaries se 
recusaram a vender. Assim, em 
setembro de 1999, a www. etoys.com 
moveu um processo contra a 
www.etoy.com. 

O argumento era de que a 




www.etoy.com deveria desaparecer por haver um dominio similar, apesar 
do fato de ele ter sido registrado dois anos antes que a www.etoys. com. 
Uma corte da California sentenciou os operadores da www.etoy.com a 
pagarem uma multa de 10 mil dolares a cada dia que o website continuasse 
a operar com esse dominio. 

Protesto online 

Muitas pessoas da comunidade online ficaram ultrajadas pelo fato do 
dinheiro e dos negocios importarem mais do que os direitos na internet. 

A comunidade organizou (entre outros protestos) o que foi efetivamente um 
protesto digital. Eles lancaram um programa que, uma vez iniciado, fazia 
com que o computador acessasse repetidamente o site da www.etoys.com. 
Eles entao encorajaram os que estavam a favor da www.etoy.com que 
baixassem o programa e o rodassem uma semana antes do Natal. 
Essencialmente, esse programa permitia que os usuarios participassem de 
um "protesto virtual" nao-violento, pois o ataque nao danificava o site da 
www.etoys.com, ele simplesmente impedia as pessoas de acessa- lo 
enquanto continuasse o protesto. Se muitos manifestantes tentassem 
acessar a pagina, os clientes nao poderiam acessar a pagina ao mesmo 
tempo e nao poderiam fazer suas compras de Natal na www.etoys.com. 

Com alguns dias de protesto virtual, as acoes da www.etoys.com 
comecaram a cair. A www.etoys.com apresentou entao uma ordem judicial 
contra um dos sites organizadores do protesto, mas sem sucesso. 
Finalmente, em 25 de Janeiro de 2000, a www.etoys.com cedeu todos os 
direitos a www.etoy.com, apos suas acoes cairem 70%. 




Um grupo de ativistas organizou-se 
eletronicamente e protestou com 
sucesso na internet sem causar um 
dano permanente (apesar da queda 
das acoes). E importante observar que, 
embora eles tivessem a habilidade 
tecnica de causarem mais dano, 
escolheram nao faze-lo, mas confiar num senso de justica maior e no amplo 
desejo de apoiar o "protesto virtual". 



comecam a se conformar com o poder do ativismo popular pela internet e 
com um numero cada vez maior de cyber-residentes. 



Felix Brann e estudante de Ciencias da Computagao em Londres. 

Soka Gakkai 



Fonte: SGI Quaterly - Associacao Brasil SGI 
( http://www.bsgi.org.br/publicacoes quarterly.htm ). 



Liberdade de expressao 

O grande apoio a essa causa nao foi propriamente devido a popularidade da 
www.etoy.com. Foi, sim, a reacao da comunidade da internet a supressao 
da liberdade de expressao pela www.etoys. com. Foi tambem uma 
mensagem de indignacao diante da ideia de um grande negocio dominando 
a cultura global. 



Um elevado nivel de motivacao sociopolitica e uma caracteristica comum 
nos protestos online e sao questoes parecidas que atraem a atencao dos 
ativistas online. Essas questoes incluem o consenso quanto ao baixo nivel de 
compensacao pago as vitimas do desastre de Bhopal, o comercio de armas e 
a pena de morte. 

caso www.etoy.com nao foi o primeiro exemplo desse tipo e certamente 
nao sera o ultimo; as corporacoes e as organizacoes politicas agora 



CYBERPUNK 

APROPRIACAO, DESVIO E DESPESA NA CIBERCULTURA (1) 

Andre Lemos 



O imaginario cyberpunk marca toda a cibercultura. O termo tern suas 
origens no movimento homonimo de ficcao-cientifica que associa 
tecnologias digitals, psicodelismo, tecno-marginais, ciberespaco, cyborgs e 
poderes midiatico, politico e economico dos grandes conglomerados 
multinacionais. Alem da ficcao, todo o imaginario da cibercultura vai ser 
alimentado pela acao dos cyberpunks reais, o underground da informatica 
com os phreakers, hackers, crackers, ravers, zippies, cypherpunks e otakus 
(2). 

Vejamos algumas definicoes do conceito: 

"Uma emergente sub-cultura jovem, fusionando anti-autoritarismo punk 
com amor pelas tecnologias de ponta". "os soldados pioneiros do seculo XXI. 
Embarcando na nova fronteira eletronica" (3). 

"Urn modo de vida centrado nas tecnologias computacionais, musica 
hardcore e agressividade adolescente. O cyberpunk nos da a habilidade de 
ser livre. A tecnologia pertence ao jovem e deve ser explorada em seu 
proveito. Esta e a nova era... " (4). 

A ficcao cientifica cyberpunk aparece com um reflexo do que ja acontecia no 
quotidiano. Por isso, seus expoentes dizem nao falar do futuro, mas fazer 
uma parodia do presente. No entanto, fora da ficcao-cientifica, o imaginario 



cyberpunk aparece em varios formatos da cultura contemporanea (5), sendo 
o hacking a acao comum a todos eles. Para R.U.Sirius, editor da revista 
californiana Mondo 2000, o hacking (como veremos, acao emblematica da 
cibercultura) e uma forma de "controlar nosso destino" (6). Podemos 
colocar nessa perspectiva, a atuacao de artistas eletronicos, os ativistas da 
fronteira eletronica, os hackers e crackers. O underground high-tech e uma 
atitude contra a tecnocracia que criou a informatica. Para Sirius, ele e a 
expressao (7) "de uma nova formacao social configurada eletronicamente 
chamada cibercultura (...) e gue nos convida a cruzar o espaco de dados, 
cavalgar a onda eletronica, hip hop os seus laptops, passear na realidade 
virtual, projetar comidas e plugar em sincroenergeticos e drogas inteligentes 
garantindo ampliar nossa potencia cerebral e nossa vida sexual" (8). 

O cyberpunk tenta nos convencer de que estamos frente a uma revolucao 
cultural sem precedentes que une, de modo inedito, a jovem cultura urbana 
e as tecnologias digitais: a cultura do caos e as novas tecnologias [Ruskoff 
(9)]. A cibercultura, da qual o cyberpunk e um dos timoneiros, e o resultado 
de uma revolucao sem slogans, sem ideologias e sem emblemas historicos; 
uma rebeliao intersticial na fronteira eletronica, a New Edge. A cibercultura 
permite, assim, a fusao entre a New Edge high-tech e a New Age naturalista, 
espiritualista e hedonista. O cyberpunk e filho direto da contracultura. 

A contracultura de anos 60, que fundia liberalismo e tecnologia (rock, video 
e cinema experimentais...) rejeita, no piano global, o alargamento dos 
impactos da tecnologia na vida quotidiana. Embora a cultura cyberpunk 
possa ser vista como herdeira da contracultura, ela nao e mais 
antitecnologica, nostalgica. Na realidade, a celebracao das novas 



possibilidades abertas pelas tecnologias eletronicas pode ser vista como 
uma "alienagao levada ao m'vel de extase" (10). O imaginario cyberpunk 
impoe, assim, uma visao ao mesmo tempo cfnica e distopica em relacao as 
possibilidades abertas pelas novas tecnologias. Aqui, o futuro nao faz mais 
sentido e as grandes meta-narrativas desabaram. O lema dos cyberpunks e: 
a informacao deve ser livre; o acesso aos computadores deve ser ilimitado e 
total. Desconfie das autoridades, lute contra o poder; coloque barulho no 
sistema, surfe essa fronteira, faca voce mesmo. 

A primeira expressao da cultura cyberpunk surge na ficcao-cientifica, 
caracterizando-se por uma visao negra ou distopica do futuro. Dentro de 
uma visao conspiratoria, que deve muito a literatura americana do pos- 
guerra, a sociedade e dominada por grandes corporacoes que controlam a 
politica e a economia mundial. As redes de computadores sao o centro 
nervoso da vida social neste futuro parodia do presente. 

Para o que nos interessa aqui, o termo cyberpunk e usado para designar a 
corrente ou movimento da ficcao-cientifica dos anos 80, proposto por 
Gardner Dozois, editor da Isaac Asimov Magazine, a partir de uma historia 
homonima de Bruce Bethke ai publicada. Antes de ser conhecido como 
cyberpunk, o Movimento, como tambem e chamado, e herdeiro da New 
Wave dos anos 60. Escritores como Bruce Sterling, Rudy Rucker, John 
Shirley, Pat Cadigan, entre outros, sao os principais expoentes do genero, 
influenciados pela literatura fantastica, policial e a ficcao-cientifica high- 
tech. tema da tecnologia e sua relacao estreita com o quotidiano sao 
recorrentes, perpassando todas as obras e unindo seus autores. 



O ambiente tecno-urbano, caotico, unindo visao distopica do futuro e altas 
tecnologias caracteriza o imaginario cyberpunk. A tecnologia torna-se o 
dispositivo pelo qual os "piratas de dados" atingem seus objetivos (penetrar 
sistemas, colocar virus, destruir dados sensiveis). Nas suas historias existe 
sempre um "sistema" que domina a sociedade, grandes corporacoes 
atuando como imperios religiosos (11) que vao ampliando, atraves de redes 
telematicas, seus dominios. O ultimo passo realizado na distopia cyberpunk 
e a penetracao ou colonizacao do corpo humano. Surge, aqui, a banalizacao 
dos cyborgs, hibridos com proteses as mais diversas, como Case ou Molly, 
personagens centrais de Neuromancer. 

A ficcao cyberpunk retrata as sociedades pos-industriais avancadas, onde a 
economia, a cultura, o saber ja foram, ha muito, traduzidos em informacoes 
binarias. O ambiente retratado mostra como "o poder e de agora em diante 
aguele do saber, da Informacao: redes interligadas gue tecem uma teia de 
aranha telemdtica ao redor do globo" (12). O estilo cyberpunk e visto por 
criticos como a apoteose do pos-moderno, um representante central do 
imaginario da cibercultura dos anos 80 (13). 

O prefixo ciber vem de cibernetica, a ciencia do estudo do controle de 
processos de comunicacao entre homens e maquinas, homens e homens, e 
maquinas e maquinas. O punk revela a atitude, a forca da rua no que nela ha 
de mais tragico, imediato e violento. Os cyberpunks sao outsiders, 
criminosos, visionarios da tecnologia. Eles encarnam, na ficcao e na vida 
real, uma atitude de apropriacao vitalista da tecnologia. O universo de sua 
ficcao esta, justamente, na conjuncao social do reino da tecnologia de 
ponta, da racionalidade, da hard-science, com o lado subterraneo, 
hedonista, tribal da sociedade de hoje. Como parte da cibercultura, o estilo 



cyberpunk aponta para uma sinergia entre as tecnologias digitals do 
ciberespaco e a socialidade contemporanea. 

Sendo assim, se nao ha mais Utopia possivel, isto nao implica, entretanto, 
uma homogeneizacao e um controle total da vida social. Se a modernidade 
criou o imaginario da tecnica infalivel e positiva, apontando para o futuro, a 
cibercultura esta ancorada no presente. A maca mordida do Macintosh e o 
simbolo do fracasso do homem individualista, emancipado, racional e 
objetivo. Em lugar de ser o momento do desencanto radical do mundo 
esbocado por Orwell, o verdadeiro ano de 1984 parece ser uma especie de 
re-encantamento da tecnologia contemporanea. Neuromancer de William 
Gibson (14) e, assim, o trabalho que melhor reflete a cultura tecno-urbana 
dos anos 80. O livro populariza o movimento cyberpunk na ficcao-cientifica. 
E, o mais importante, ele vai formar e ampliar o imaginario da cibercultura. 
Nao vou me alongar muito, pois essa tematica foi desenvolvida em um outro 
trabalho. O objetivo aqui e relacionar o cyberpunk as nocoes de apropriacao, 
despesa improdutiva desvios de comportamento. 

A RUA E A TECNOLOGIA. OS CYBERPUNKS REAIS 

A formacao do underground high-tech e diretamente influenciada pela 
contracultura americana e pela consolidacao da sociedade dos meios de 
comunicacao de massa. O desenvolvimento das tecnologias de comunicacao 
micro-eletronicas, assim com a atitude sociocultural dos anos 60-70, 
contribuem para a emergencia de dois fenomenos muito importantes para a 
consolidacao da cultura cyberpunk: os phreakers e os hackers, os primeiros e 
verdadeiros cyberpunks da rua. R.U.Sirius explica: "as primeiras pessoas a se 
identificarem como cyberpunks foram hackers adolescentes relacionados aos 



personagens dos mundos criados nos livros de William Gibson, Bruce 
Sterling, John Shirley, e outros" (15). 

Os ultimos ataques contra os gigantes do e-business, no comeco de 2000, e 
o crescimento exponencial de ataque de hackers brasileiros, ja em 2001, 
com os recentes ataques a Nasdaq, Dell, Ministerio da Defesa e Nike, sao 
exemplares. Importa aqui a compreensao de que os verdadeiros hackers, ao 
contrario dos marginais ou vandalos, buscam desmascarar a falta de 
seguranca de sistemas e revelar o papel das novas tecnologias de 
informacao na sociedade globalizada. A ideia basica e nao recusar, mas 
dispor da tecnologia para combater, em pequenas guerrilhas, as 
derrapagens do sistema global. 

A atitude cyberpunk e, assim, negativa em dois niveis: o pessimismo (em 
relacao ao futuro, as ideologias) e o descontentamento para com a tecno- 
estrutura. Ela nao e, contudo antitecnologica. O tecno-anarquismo (grupos 
como Legion of Doom, Hacktic, CCC, LOft, entre outros) e uma forma de 
negacao do poder da tecnocracia e uma maneira de afirmar, de forma 
positiva, a vitalidade social atraves das novas tecnologias. O intenso e 
imediato prazer em tempo real, o desprezo pelo futuro, a aventura e a 
conquista de novos territorios simbolicos, a anarquia do ciberespaco, as 
agregacoes sociais, todas caracteristicas da cibercultura, mostram o 
vitalismo social contemporaneo no coracao da tecnologia digital. Vejamos 
algumas definicoes sobre cyberpunks no newsgroup alt.cyberpunk: 

Tue, 21 Dec 1993 18:39:20 GMT 

alt.cyberpunk 



> You cannot be a cyberpunk and at the same time agree that 

> certain information should be banned, censored or outlawed. 
Date: Mon, 10 Jan 1994 05:44:16 GMT 

>l totally disagree. I think cyberpunks truly enjoy the idea of living 

>in a 'Blade-runnerish' future, but they know that in reality, its not 

>going to largely happen. However, in Blade-runner & the like, we really 

>nevergot to see what the rest of the world was like. The cyberpunkers of 
course will >choose to live in the cities, (LA, Tokyo, NY etc.) 

Your cpunk may live in a fictional world, mine doesn't, and I'm sure that 
many out there will say that there life is not fictional. It is more like the ideas 
of the hackers of California and Berkeley. To bring tech to the people, and 
put the power in the hands of the masses thru technology. 

Tue, 21 Dec 1993 18:45:11 GMT 

alt.cyberpunk 

Flux 1 parmi 10 

Article 794 Re: A Call to Arms 



shroom@theporch.raider.net 

sHrOom at The Maclnteresteds of Nashville, Tn. 

> Well what's your definition ? Come on, put it out on the street. Or isn 't 

> that information free? 

My belief is that information should be free 

If you have to break the law to learn, then do it. 

Os cyberpunks reais nao sao homogeneos. O nucleo comum das tribos 
eletronicas e a mistura de fascinacao, de apropriacao, de diversao e de 
impertinencia em relacao as tecnologias do ciberespaco. Segundo afirmam 
os proprios cyberpunks, eles procuram o prazer, o conhecimento e a 
comunicacao atraves do uso intensivo das tecnologias do ciberespaco e de 
uma crftica feroz ao desenvolvimento tecnologico. O discurso parece ser: 
queremos o ciberespaco, mas nao o Rwindow$, queremos Internet, mas nao 
vigilancia eletronica e spams, queremos informacao livre, mas nao sites 
inseguros que possam ferir a nossa privacidade, etc... 

Podemos ver o fenomeno como urn processo social onde a socialidade (16) 
se da atraves da apropriacao destas novas tecnologias. E isto para o melhor 
(a efervescencia comunal, o compartilhar de sentimentos, a informacao 
altruista, etc.) ou para o pior (criminalidade, ausencia de contato fisico, 
terrorismo, virus, pedofilia, etc.). A geracao dos anos 80 ira popularizar o 



conceito atraves dos media de massa (jornais, revistas, TV), definindo-os 
como os "piratas das redes de computadores". A percepcao social sera 
elaborada de tal forma, que os hackers nao serao mais vistos como 
exploradores do ciberespaco, mas como intrusos maliciosos e perversos 
(17). 

O filme War Games (1983) ajuda na formacao desta cultura dos hackers dos 
anos 80. Pela primeira vez, o grande publico via o phone phreaking, o 
hacking, a social engineering e outras praticas que ja estavam nas ruas. 
Antes, em 1982, o filme Blade Runner da a estetica do movimento. Vejamos 
alguns depoimentos de hackers conhecidos: 

- Michael Synergie (hacker): "Eu sou um dependente, urn junkie sensorio. Eu 
guero incentivos, e imediatamente. Quando eu penetro os sistemas de 
computador eu nao olho nada: correio pessoal, artigos, notas, programas, 
etc. Eu preciso aprender. Eu sou um 'o pesguisador de cabeca e eu preciso 
saber tudo gue eu posso". 

- The Mentor (membro do Legion of Doom)., "Esse e o nosso mundo. 
mundo de eletrons, beleza e baud. Usamos os servidores existentes sem 
pagar e eles nos identificam como criminosos. Nos exploramos... e voce diz 
gue nos somos os criminosos. Nos existimos sem distinguir a cor da pele, a 
nacionalidade, a religiao... e voce diz gue nos somos os criminosos. Voce 
constroi algumas bombas atomicas, voce faz a guerra, voce mata, voce 
mente e voce tenta nos convencer gue e para nossa felicidade, novamente, 
nos e gue somos os criminosos. Meu crime e a curiosidade. Meu crime e 
julgar as pessoas pelo o gue elas dizem ou pensam (...). Eu sou um hacker e 



esse e meu manifesto. Voce pode parar um de nos, mas voce nao nos pode 
parartudo". 

- Emmanuel Goldstein (Editor da Revista 2600): "os hackers sao agueles gue 
fazem muitas perguntas e agueles gue nao acreditam na obediencia as 
regras todo o tempo. Se alguem dissesse: nuncafaca isso, eles nao aceitam e 
vaofazer o gue e proibido fazer" . 

- Rop Gonggrijp (membro do Grupo tecnoanarquista holandes HACKTIC) - "o 
verdadeiro papel dos hackers e politico, guer dizer sao as pessoas gue fazem 
progredir a informatica. Os hackers estao lutando para conectar gualguer 
pessoa fora da tecnocracia. Eles sao os atores da passagem da tecnocultura 
a cibercultura". 

O ESPIRITO DA CIBERCULTURA. ENTRE APROPRIACAO. DESVIO E DESPESA 
IMPRODUTIVA 

O hacking e o simbolo maior da cibercultura, podendo ser visto pela otica da 
astucia dos usos (Perriault), do desvio (Becker) e da despesa improdutiva 
(Bataille). Neste sentido, as novas tecnologias da cibercultura estao em 
relacao estreita com a dinamica social contemporanea. Vamos mostrar que 
esta dinamica estabelece-se quando a micro-informatica e apropriada pela 
vida social, alimentando as industrias do virtual. Esta apropriacao se da 
como um metodo de improvisacao, onde os desvios do uso sao responsaveis 
pelos desenvolvimentos na industria da informatica e por sua popularizacao. 
Assim, a sociedade da informacao entra numa fase de excesso e de profusao 
desenfreada de informacoes. 



A forma como os media tradicionais tratam o fenomeno do hacking reforca 
a infantilizacao desta cultura, como urn modo torna-la trivial e com isso 
neutraliza-la. Como vimos, o hacker pode ser visto como urn ativista que 
mistura negligencia e interesse, marcado por uma nova relacao entre a 
contracultura e as tecnologias micro-eletronicas. Se a contracultura de anos 
70 foi baseada, como mostra Ross, numa tecnologia do folclore 
(orientalismo, misticismo, ideias antitecnologicas, natureza) a cibercultura 
seria uma cultura baseada numa especie de folclore da tecnologia (realidade 
virtual, ciberespaco, pos-humanismo). Para Ross, a cultura contemporanea 
deve ser capaz "de re-escrever os programas culturais e reprogramar os 
valores sociais guefazem o terreno das novas tecnologias; um conhecimento 
hacker, capaz de gerar novas narrativas populares ao redor de usos 
alternativos da ingenuidade humana" (18). 

E a partir da ideia do hacking que se forma o imaginario da cibercultura. 
Notamos a popularizacao e ate mesmo a trivializacao deste imaginario onde 
a maxima e: tudo pode na Internet, a Rede e livre, a informacao deve ser 
livre, a privacidade e um direito inalienavel, etc. O acesso as redes de 
computadores, a realidade virtual, aos jogos eletronicos, as imagens de 
sintese, as manipulates digitais na musica eletronica, vao exprimir este 
espirito transgressor e desviante como forma de apropriacao, chegando a 
sua disseminacao pelo corpo social, atingindo, mesmo indiretamente, todas 
as pessoas que tern acesso as novas tecnologias. A cibercultura e a 
popularizacao da atitude dos cyberpunks, tendo no hacking seu emblema 
fundamental. Este e a expressao de uma astucia do quotidiano, permitindo 
a apropriacao social da tecnologia em um contexto de desvios e excessos. 



Apropriacao 

Podemos dizer que a cibercultura nasce pela apropriacao tecnologica. Como 
afirma Castells, a cibercultura, ou a sociedade informacional, e fruto da 
sinergia da Big Science, dos militares e do underground (19). A cibercultura 
e, diferentemente da atmosfera eletro-mecanica do comeco do seculo XX, 
favoravel a novas formas de apropriacao social dos objetos tecnologicos. O 
quotidiano e o terreno onde se desenvolve uma maneira, senao 
inteiramente nova, ao menos inusitada, de relacao entre os homens e a 
tecnologia: a atitude cyberpunk (raiz da cibercultura) e expressao desta 
batalha contraditoria entre os homens e seus artefatos. 

Estamos no coracao da sociedade pos-industrial, associando assepsia 
cientifica e tecnologica ao caos urbano e ao lado dionisiaco da socialidade 
contemporanea. Assim sendo, o imaginario tecnologico da cibercultura 
parece estar em ruptura com os paradigmas que legitimaram o imaginario 
da modernidade. Para os principals expoentes da cibercultura, como vimos, 
o hacking mostra a apropriacao quotidiana da tecnica no presente, sem 
engajamento perene ou ideia de Utopia tecnologica. 

As novas possibilidades oferecidas pela revolucao da informatica permitem 
que a rua possa influenciar os destinos da tecnologia. Podemos dizer que ha 
um processo de diferenciacao social produzido por micropoderes, por acoes 
de grupos ativistas (hackers, cypherpunks, zippies, ravers, etc.) que vao 
compor o mosaico de forcas entre a tecnologia e a vida social. Ao 
desencantamento do mundo (Max Weber), os cyberpunks propoem a 
seguinte solucao: "sobreviver gracas a trugues (hacks), piratarias, trafico de 
signos, de linguagens, de conexoes" (20). A analise da logica dos usos, 



desenvolvida por Jacques Perriault, sera util aqui para entendermos a 
cibercultura e, mais especificamente, a real participacao dos cyberpunks. 

De acordo com Perriault, o uso dos objetos tecnologicos nao e apenas 
tributario das estrategias de empreendimentos de acordo com a 
objetividade da funcao do objeto, ou de acordo com uma racionalidade 
tecnica intrfnseca aos modos de usar (manuais tecnicos). Sua hipotese e de 
que os "usuarios tern uma estrategia de utilizacao dessas maquinas de 
comunicacao" (21). A sociologia dos usos visa, assim, entender o modo pelo 
qual usamos os objetos tecnicos no quotidiano, descrevendo uma 
perspectiva que flutua entre a etnometodologia e a psicologia. Talvez seja 
mais apropriado falar em astucia dos usos, ja que este termo, mais aberto 
ao imprevisto, escapa a ideia de "logica", como sustenta Perriault. Sabemos, 
com De Certeau (22), como os usuarios inventam o quotidiano, como eles 
investem conteudos simbolicos, imprimindo seus tracos na mais banal acao 
do dia a dia. Nao ha uma logica, mas antes uma dialogica complexa (Morin) 
entre os objetos, os usos e as obrigacoes funcionais destes mesmos objetos. 

A apropriacao tern sempre uma dimensao tecnica (o treinamento tecnico, a 
destreza na utilizacao do objeto) e uma outra simbolica (uma descarga 
subjetiva, o imaginario). A apropriacao e assim, ao mesmo tempo, forma de 
utilizacao, aprendizagem e dominio tecnico, mas tambem forma de desvio 
(deviance) em relacao as instrucoes de uso, urn espaco completado pelo 
usuario na lacuna nao programada pelo produtor/inventor, ou mesmo pelas 
finalidades previstas inicialmente pelas instituicoes (23). 

Pela apropriacao esta em jogo um certo esvaziamento do totalitarismo do 



objeto. Como mostra Schwach (24), a sociologia do uso tern por objetivo 
descortinar o usuario sob o ponto de vista psicologico e sociologico, com o 
merito de ter retirado desses estudos os preconceitos anti-tecnologicos. 
Sabemos que o uso de um objeto tecnologico, do mais simples aos mais 
complexos, nunca esta dado, sendo, tambem, determinado por suas 
utilizacoes. Os sociologos do uso trabalham com "ideais tipo" weberianos, 
estando mais interessados em descricoes ancoradas, em geral, sobre a vida 
social e psiquica de cada usuario. As categorias socio-economicas rigidas 
identificam os usos de acordo com velhos diagramas que nao consideram 
nem a subjetividade, nem as influencias psicologicas, nem as mudancas 
culturais mais sutis. De acordo com Schwach, e necessario deixar as portas 
abertas a um transdisciplinaridade em tres niveis: a funcionalidade tecnica, 
os mecanismos psicologicos de apropriacao, e o fazer coletivo, sociologico. 

Segundo Perriault haveria uma linhagem que uniria as maquinas de 
comunicacao aos seus respectivos usos. Esta linhagem e marcada, em toda a 
historia dos media, por um desejo de simulacao. A cibercultura estaria, 
dessa forma, marcada pelas tecnologias da simulacao, proporcionando o 
sentimento de descolamento do aqui e agora, do espaco e do tempo. As 
tecnologias do virtual seriam entao um resultado desse desejo onde "o uso 
das maquinas de comunicacao favorece a criacdo de redes de sociabilidade 
(...)". (25) Sendo assim, ao analisar os usuarios, devemos superar a 
perspectiva do uso correto ou nao das maquinas de comunicacao, marcados 
para sempre pelo estigma do consumidor passivo e envolvido por uma rede 
de estrategias dos produtores. Devemos ve-lo como agente. Hoje, se 
observarmos a dinamica social da Internet, poderemos identificar, na 
evolucao do uso das maquinas de comunicar, uma certa busca de 



tactilidade, reforcando ainda mais a apropriacao social destas. 

Como descrevemos em outro trabalho (26), a tactilidade social 
potencializada pela micro-eletronica pode ser comprovada pelas inumeras 
agregacoes sociais. Ela e fruto de uma utilizacao nao programada das novas 
tecnologias, e nao um projeto de instancias superiores. Varias ferramentas 
disponiveis na Internet foram criadas por usuarios de forma a potencializar 
o lado tactil das novas tecnologias. Assim, o expoente da racionalidade 
cientifico-militar transforma-se numa busca planetaria por informacao e 
contato. Parece que a afirmacao dos processos irracionais (a festa, a 
violencia, a paixao) encontra-se potencializada pelos novos recursos 
tecnologicos. 

Desvio e Outsiders 

Podemos considerar os expoentes da cibercultura sob o prisma do desvio 
social, pela otica do outsider ou, como propoe Howard Becker (27), pela 
logica da deviance ("desvio"). Os outsiders da cibercultura vao operar um 
desvio na logica da producao e consumo das novas tecnologias 
contemporaneas. Embora minoritarios, sua influencia nao e menor, sendo 
mesmo dominante no uso dos internautas hoje: de certa forma, todos 
encarnamos o espirito do hacking, ao lutarmos contra os spams, contra a 
invasao de privacidade, pela liberdade de expressao no ciberespaco, contra 
a censura, etc. 

Becker lanca a hipotese segundo a qual os cientistas (sociais e bio-medicos) 
criariam uma concepcao artificialista e, ao mesmo tempo, elitista do desvio 
social. Esta e a maneira de enquandra-los como outsiders ou desviantes, ja 



que estes pensam o desvio a partir das seguintes premissas: os desviantes 
sao aqueles que nao fazem parte da media, da normalidade social. Assim, os 
desviantes sao "doentes" (portadores de uma patologia) que nao se 
integram as regras gerais da normalidade social. Mas esta normalidade nao 
e, por assim dizer, natural. Ela nao e, necessariamente, patologica neste 
sentido, nem produto de uma enfermidade mental, mas um constructo, 
uma teoria. 

A funcao de um grupo social, ou de uma organizacao, e definida em um 
contexto historico-politico e nao pela natureza intrfnseca do grupo. 
Entender o fenomeno da deviance, de acordo com Becker, requer aceitar 
que a visao funcional e inoperante, limitando a compreensao do fenomeno. 
A deviance e produto da sociedade, e uma falha na obediencia as regras 
impostas. Os grupos sociais criam a deviance, fazendo suas proprias regras. 
Nesse sentido, a deviance nao e uma qualidade do ato, mas a conseqiiencia 
da aplicacao de regras comuns a grupos tidos como tal. Ai estao os 
outsiders. 

Um ato e considerado como anticonvencional em relacao a outros de 
acordo com a reacao, tendo por parametro as regras gerais da moral e dos 
bons costumes. No entanto, variacoes desta percepcao se dao em funcao do 
tempo (a ocorrencia e a freqiiencia de atos), do grau do ato (a relacao entre 
quern comete o ato e o que e suposto de ser um ato anticonvencional), e 
das conseqiiencias sociais do ato. A deviance e um processo de interacao 
entre pessoas (ou grupos), entre aqueles que cometem um ato e os outros 
que os julgam, nao sendo, assim, um problema "natural" ou patologico, mas 
um conflito politico-social. 



Becker propoe entao algumas categorias para os atos de desvios. Ha o 
anticonvencional que e visto como tal, mas, em verdade, obedece a regras 
do grupo. Estes sao os conformados anticonvencionais (por exemplo, 
criminosos que sao vistos como tal, mas nao se importam). O desviante puro 
e aquele que realmente esta fora das regras impostas, mas que mantem, de 
forma conveniente, seu desvio no segredo (fumadores de maconha, por 
exemplo) (28). 

Podemos aplicar a analise de Becker aos desviantes da cibercultura, aos 
hackers e outros outsiders da era da informacao, aos cyberpunks em geral. 
Estes sao anticonvencionais em relacao aos analistas profissionais. Mais 
ainda, hackers ou crackers tambem sao considerados como desviantes por 
seus pares. Um hacker considera um cracker desviante, mas nao se 
enquadra enquanto tal. Alguns atos sao levados em conta sem que a pessoa 
saiba que tal ato e proibido ou anticonvencional. Os primeiros hackers 
afirmam que suas acoes foram realizadas na pura legalidade, que nao fazem 
nada de doloso e que, em uma sociedade cientifica, tecnologica e de 
informacao, o desejo de saber (os sistemas de computador), de liberdade 
(de informacao) e de apropriacao (da tecnica) nao podem ser vistos como 
ilegais ou anticonvencionais. 

De acordo com Becker, um anticonvencional e alguem que nao vive de 
acordo com as regras da maioria do seu grupo social. Os hackers estao nesta 
categoria de desviantes, estranhos aos programadores profissionais, 
legisladores e politicos. Eles nao se vem como criminosos mas "como 
exploradores em um mundo eletronico cujas regras nao sao claras" (29). Os 
cyberpunks nao compartilham posicoes do grupo dominante (a tecnocracia) 
e a imagem que Ihes oferece os mass media. 



De fato, o desenvolvimento do viver em sociedade e instituido por um jogo 
progressive de atos pros e contra as normas e institutes. As leis e as regras 
morais evoluem neste embate e, por isso, caracterizam-se como um 
processo aberto, sendo fruto de lutas e processos sociais complexos. No 
caso de hackers, suas acoes sao atos de diferenciacao, de destaque, para 
uma elite de infonautas (e assim que um hacker e admitido e, sendo 
brilhante, adquire um status de mestre). A deviance cibernetica tern um 
valor simbolico. De acordo com Becker, esse curso iniciatico e realizado 
dentro de um grupo organizado, como os BBSS piratas, por exemplo. Os 
grupos ou tribos tendem a reforcar a deviance porque isto os une. Ao 
mesmo tempo, o discurso dos paladinos da era da informacao mostra como 
esses grupos tendem, tambem, a racionalizar as suas praticas e a encontrar 
justificativas plausiveis, tentando escapar do rotulo de outsider. Becker 
chama isto de razao ego-justificada ou ideologia. 

Despesa e Excesso 

Uma outra nocao importante para compreendermos a cibercultura e a 
nocao de despesa (depense) e de excesso, particularmente com respeito aos 
cyberpunks. Trata-se aqui do excesso de informacao, tao falado, causado 
pela popularizacao global da Internet. A sociedade contemporanea institui- 
se como uma disseminacao virotica de dados binarios sob diversas formas: 
samplings musicais, virus, pirataria, colagens digitais, etc. 

G. Bataille (30) vai mostrar que uma sociedade so existe se deixar um espaco 
reservado para despesas improdutivas, para perdas e excessos. Esta nocao 
de excesso esta na contramao do moralismo moderno, ja que a acumulacao 
capitalista e produtivista e a norma. Segundo Bataille, nao ha nada que nos 



permita definir o que e util aos homens, ja que os julgamentos, em geral, 
repousam sobre a produtividade social que, por sua vez, baseia-se no 
princfpio em que todos os esforcos e atividades devem ser redutfveis as 
necessidades materials de producao e de conservacao. Os prazeres furtivos, 
como a arte ou os jogos, sao entao concessoes, tendo um papel subsidiario 
na vida social. Como mostra Bataille, "nesse sentido e triste dizer que a 
humanidade consciente continua sendo minoria: ela reconhece o direito a 
adquirir, a conservar, ou a consumir racionalmente, mas ela exclui, em 
princfpio, a despesa improdutiva" (31). 

Para Bataille, ha duas formas de consumo: uma primeira, considerada util, 
direcionada para a continuacao da vida e das atividades de producao, e uma 
segunda, representada pelas atividades improdutivas, festivas, orgiasticas, 
excessivas. Esse autor propoe, entao, que esta atividade improdutiva 
assuma seu carater nobre e seja vista, como mostram sociologos e 
antropologos em estudos sobre as mais diversas sociedades primitivas, 
como um excesso que garante o verdadeiro cimento social (32). 

A nocao de despesa como perda e ligada, aqui, a nocao de sacrificio e 
destruicao, e das coisas sagradas, dos jogos agonisticos e da arte em geral. 
Podemos ver no Potlatch essa caracteristica do sacrificio, do dom e da 
destruicao, ja que a festa das ilhas polinesias "e o contrario do principio de 
conservacao: ela coloca um fim a estabilidade das fortunas tal qual existia 
no interior da economia totemica, onde a posse era hereditaria" (33). 

Bataille usa o termo consumacao para fazer referenda ao ato de consumir a 
historia e a vida. E no excesso que encontramos vida no planeta, ja que 
vivemos gracas as energias emanadas do Sol, aquele que da sem nada 



receber, permitindo a efervescencia e a multiplicacao das formas de vida em 
toda a sua diversidade. As nocoes de despesa e sacrificio estao na 
contramao das concepcoes racionalistas e economicas do seculo XVII, sendo 
que, no limiar do seculo XXI, a cibercultura parece crescer nesse excesso. 
Nao e a toa que Bataille vai afirmar "o odio a despesa e a razao de ser e a 
justificacao da burguesia: ele e, ao mesmo tempo, o principio de sua 
assustadora hipocrisia" (34). 

A cibercultura fornece varios exemplos de uma despesa excessiva, nao 
acumulativa e irracional de bits. Por isso a atual febre dos Portais que 
tentam, desesperadamente, filtrar a informacao e retirar o usuario do 
excesso (35). Assim, dancar por horas em festas tecno, viajar por vinculos 
banais e efemeros do ciberespaco, produzir virus, penetrar sistemas de 
computador, trocar informacao frivola em bate papos e grupos tematicos, 
etc., refletem essa orgia de signos que preenchem nossa realidade 
quotidiana desse fim de seculo. Muitos intelectuais contemporaneos 
criticam a Internet justamente por esse carater frivolo, de despesa e excesso 
improdutivo. Esse espirito conservador esta na contramao das praticas 
sociais da cibercultura. 

A despesa e, como propoe Baudrillard, aquilo que vai evitar, por introduzir 
pequenos desastres, o desastre total de uma racionalizacao da vida social, o 
deserto tecnologico do real. A despesa eletronica da cibercultura e a 
possibilidade final de resistencia a ditadura da tecnocracia, a prisao e a 
logica da utilidade e da acumulacao eficaz. Nesse sentido, nao e a falta, nem 
o excesso, mas a abundancia preservada e sem distribuicao que representa 
problemas para o homem e para o planeta. 



No que concerne a cibercultura, toda a acao de cyberpunks consiste em 
gastar o maximo de informacao e colocar excessos no sistema. Contra o 
segredo e a acumulacao da informacao, os cyberpunks propoem a orgia de 
dados, a danca de bits pelo ciberespaco, a contaminacao improdutiva de 
vfrus, o transe, a colagem, as piratarias. Como afirma Bataille, a consumacao 
inutil "e o que me agrega (...). A consumacao e a via pela qual seres 
separados comunicam" (36). 

Conclusao. Do Cybernanthrope ao Cyberpunk 

Segundo Henri Lefebvre (37), a vida social caracteriza-se por um conjunto de 
instancias diferentes, em que os poderes constituidos como a igreja, o 
Estado, a familia, o exercito sempre tentaram combater elementos residuais 
que causam resistencia ao sistema homogeneizante. Se utilizarmos essa 
perspectiva de analise, podemos dizer que a cibercultura foi criada por uma 
especie de resistencia ao poder da tecnocracia, tratando-se mesmo de uma 
diferenciacao em relacao a utilizacao da tecnologia. Aqui, as acoes dos 
cyberpunks sao exemplares e vao lutar contra o que Lefebvre chama de 
cybernanthrope. 

Usando a terminologia de Lefebvre, a grande figura da modernidade foi o 
cybernanthrope, que nao e um robo, mas o humano robotizado. O 
cybernanthrope e, para o sociologo frances, o tecnocrata preso a uma 
fascinacao cega pela tecnica e a sua correlata racionalidade instrumental. O 
robo e, como em um jogo de espelho, o trabalho do cybernanthrope, nao o 
proprio cybernanthrope. 



As tecnologias modernas reforcam a requisicao energetica da natureza, o 
controle da vida social pela administracao racional a cargo de especialistas 
tecnicos, a padronizacao dos costumes, a conviccao em ideologias 
progressistas e a percepcao do destino historico. A figura que comanda esse 
espetaculo e o cybernanthrope. Filho da tecnologia moderna, nao sendo o 
automata, mas o homem automatizado que, cego, so ve o mundo pelo 
prisma autocentrado de sua razao onipotente. O cybernanthrope e entao o 
oposto da figura que poderiamos identificar como a mais emblematica da 
cibercultura, o cyberpunk. 

O cybernanthrope quer o controle, a restricao, a estabilidade. Ele e 
asseptico, austero, objetivo, racional. Como explica Lefebvre, "o 
cybernanthrope ignora o desejo. Se ele o reconhece e para eludi-lo. O 
dionisiaco Ihe e estranho" (38). Em oposicao, o cyberpunk parece mais preso 
a uma certa magia da informatica do que a rigidez racionalista, mais 
dionisiaco do que apolineo. Um hacker, embora seja um viciado em 
artefatos tecnicos complexos, nao esta muito preocupado em seguir as 
regras do sistema. O cyberpunk aceita a cultura tecnica do cybernanthropes 
no que ela tern de mais radical. O desespero e obvio: se nao podemos 
escapar ao mundo tecnologico, devemos tornar as tecnologias ferramentas 
de prazer, de comunicacao e de conhecimento. E esta a mensagem dos 
cyberpunks contra os robotizados cybernanthropes. 

As novas tecnologias da cibercultura devem nos ajudar a fazer diariamente 
de nossa vida uma obra de arte, aqui e agora; a tecnologia deve tornar-se 
um instrumento fundamental de compartilhamento de experiencias, de 
prazer estetico e de busca de informacao multimodal e multidirecional. Os 
cybernanthropes, ao contrario, tern uma missao historica, enquanto que os 



cyberpunks navegam no presente mais urgente. Podemos dizer que a 
estrategia do cyberpunk, atraves das suas diversas acoes, sera assim 
"fundada sobre as perturbacoes da ordem e dos equilibrios 
cybemanthropicos. Ele deverd perpetualmente inventor, se inventor, se re- 
inventar, queimar as pistas e os mapas do cybernanthrope, decepciond-lo e 
surpreende-lo. Para veneer, e mesmo para engajar-se na batalha, ele so 
pode valorizar suas imperfeicoes: desequilibrios, problemas, esquecimentos, 
lacunas, excessos, desejos, paixao, ironia..." (39). 

A cibercultura, com o arquetipo do hacker-cyberpunk, substitui a 
tecnocultura moderna com o seu espeaaUsta-cybernanthrope. E a rua que 
vai dar formas ao novo sistema tecnico da cibercultura. Esta e a expressao 
do uso subversivo da tecnologia e, conseqiientemente, produto de uma 
atitude ativa em relacao aos dispositivos tecnicos. Este fenomeno esta 
presente em todas as acoes da vida diaria, marcando a falencia dos 
cybernanthropes, superado pela despesa improdutiva de dados, pela 
apropriacao social e pelos desvios. Este e o estilo atual da cibercultura. 



NOTAS 

1. Este artigo faz parte da pesquisa A Cibercultura no Brasil, Aspectos da 
Cultura Cyberpunk, coordenada pelo autor com o apoio do CNPq. As 
citacoes foram traduzidas pelo autor. 

2. Para descricao ver Lemos, Andre., Cultura Cyberpunk., in Textos, n. 29, 
Facom/UFBa, 1993. 



3. Em e-mail para o newsgroup alt.cyberpunk (ragedy@cup.potal.com). 

4. Em e-mail para o newsgroup alt.cyberpunk (bfundak@andy.bsgu.edu). 

5. Alem dos livros de ficcao cientifica, as revistas sao responsaveis pela 
disseminacao desse imaginario tecnologico, principalmente as pioneiras 
Boing Boing, Hactick, 2600, Reality Hackers e depois Mondo 2000, Ice ou a 
brasileira Barata Eletrica. Uma das mais expressivas do movimento e a 
californiana Mondo 2000, criada em 1989 por Queen Mu e R. U. Sirius, 
descendente direta das antigas High Frontiers e Reality Hackers. Mondo 
2000 e a biblia dos cyberpunks e uma das primeiras a mostrar os vinculos da 
ficcao cientifica e a vida real. 

6. Rucker, R., Sirius, R. U. , Mu, Q. (Ed), Mondo 2000., A User's Guide to the 
New Edge., N.Y., HarperCollins publishers, 1992., p. 13. 

7. O numero especial Mondo 2000., A User's Guide to the New Edge e uma 
especie de biblia da cibercultura, uma enciclopedia produzida em 1992, com 
todos os temas caros a esse estilo tecnologico atual: cyberpunk, ficcao 
cientifica, realidade virtual, tecno-paganismo, smart drugs, virus, 
ciberespaco, nanotecnologias, multimidia, cibersexo, ciencia pos-moderna 
(fractal, complexidade, caos), moda, etc. 

8. Sobchack, Vivian., New Age Mutant Ninja Hackers: Reading Mondo 2000., 
in Dery, M., Flame Wars. The Discourse of Cyberculture., The South Atlantic 
Quarterly., 92:4, Fall 1993., op. cit., p. 570. 

9. Rushkoff, D., Um Jogo Chamado Future Como a Cultura dos Garotos pode 



nos ensinar a sobreviver na era do caos., RJ, Editora Revan, 1999. 



Leopoldo, 



10. Sobchack, Vivian., New Age Mutant Ninja Hackers: Reading Mondo 
2000., in Dery, M. Flame Wars, op.cit., p. 576. 

11. Schneider, Eric, in FAQ Cyberpunk de 04/02/94. Veja versoes atualizadas 
da FAQ via ftp em bush.cs.tamu.edu/pub/misc/erich/alt.cp.faq . 



17. Hafner, K.; Makoff, J. Cyberpunk. Outlaws and Hackers on the Computer 
Frontier., N.Y., Touchstone, 1991., p.ll. 

18. Ross, A. Hacking Away at the Counterculture., in Penley, C, Ross, A., 
Technoculture. Minneapolis, University of Minneapolis Press, 1992,. p. 132. 



12. Bonnefoy, Jean., Cyberpunk m'etait Compte., Prefacio em Sterling, B., 
Les Mailles Du Reseaux 1., Paris, Denoel, 1990., p.13. 

13. The Boston Globe, 24th November 1992, Living Arts, pp. 29-32. 

14. Em Agrippa (o livro dos Mortos), Gibson faz urn livro que seria 
emblematico da cibercultura: virus, imediatismo, destruicao de dados. O seu 
conteudo esta em cartas codificadas. Nas ultimas paginas ha um disquete 
que contem um texto de William Gibson, assim que o disco e ativado, quer 
dizer, lido por um computador, um virus causa a destruicao do texto. A ideia 
do livro e, assim, a mesma do desaparecimento, do efemero, do 
instantaneo. Assim, "the book's nonappearence is linked to the 
disappearence of the world", Schwenger, Peter., Agrippa, or, The 
Apocalyptc Book., in Dery M., op. cit., p. 620. 

15. Sirius, R. U., Mu, Queen., Mondo 2000. A users..., op.cit., p. 64. 

16. Sobre a cibersocialidade ver Lemos, Andre. Clber-Socialidade. Tecnologia 
e Vida Social na Cultura Contemporanea., in Bentz, I., Rubim, A., Pinto, J. M. 
(org). Praticas Discursivas na Cultura Contemporanea., Ed. Unisinos, Sao 



19. Castels, M. The Information Age: Economy, Society and Culture. Volume 
I. The Rise of the Network Society., Massachussets, well, 1996. 

20. Ciccone, A. Mouvement Cyberpunk., in Actuel, n^ 15, Paris, MARS 1992., 
P.94. 

21. Perriault, J., La Logique de L'Usage., Essai sur les Machines a 
Comuniquer., Paris, Flammarion, 1989., p. 13. 

22. Podemos ver o Minitel como fruto dessa apropriacao social. O Minitel foi 
concebido como um anuario eletronico. A partir de varias utilizacoes nao 
previstas, como a comunicacao entre usuarios e o predominio do uso 
erotico (no que ficou conhecido como Minitel Rose), o Minitel, de 
instrumento apolineo transformou-se em ferramenta de agregacao social e 
de praticas hedonistas. Ver Lemos, A., The Labirinth of Minitel., in Shield, R. 
(ed), "Cultures of Internet". Sage, Londres, 1996. 

23. A antropologia e a sociologia comecam a se interessar pelos usos da 
tecnologia no pos-guerra. Em 1965, P. Bordieu mostra que o uso da maquina 
fotografica nao so era determinado atraves de sua possibilidades tecnicas 



(maqufnicas) mas tambem pelo meio de imersao. No mesmo sentido, Dell 
Hymes analisa o uso do computador (numa visao antropologica) notando 
que o dispositivo e muito mais um "symbole de forces ulterieures" do que 
um instrumento racional seguindo uma logica simples. De acordo com 
Perriault, a compreensao desta logica de usos dos objetos tecnicos poe o 
homem, e nao a maquina, no centro da investigacao. 



34. Idem, p.38. 



35. Sobre excesso ver o Manifesto "Morte aos Portais". Lemos, A. Morte aos 
Portais in www.pilula.com.br/morteaosportais . 



24. Ver Schwach., V., Micropsychologie des rapports homme/machine dans 
la vie quotidienne. These d'Etat, Universite de Strasbourg, 1995. 



37. Lefebrve, H. La Vie Quotidienne dans Le Monde Moderne., Paris, 
Gallimard, 1968. 



25. Perriault, J., La Logique..., op. cit., p.197-198. 

26. Ver Lemos, A. Ciber-Socialidade..., op. Cit 

27. Becker, Howard S., Outsiders, Studies in the Sociology of Deviance., 
Macmillan, 1996. 

28. Becker, Howard S., Outsiders., op. cit., p.10. 

29. Hafner, K., Markoff, J., Cyberpunk..., op. cit., p. 12. 

30. Bataille, Georges., La Part Maudit, Paris, Editions de Minuit, 1967. 

31. Idem, p.25. 

32. Idem, p. 27. 

33. Idem, p. 34. 



38. Lefebrve, H., op. cit., p. 197. 

39. Lefebrve, H., op. cit., p.212-3. 



Sobre o autor: 

Andre Lemos e doutor em sociologia pela Universite Paris V, Sorbonne, 
Professor da Faculdade de Comunicacao da UFBa. Atualmente desenvolve a 
pesquisa "A Cibercultura no Brasil. Aspectos da Cultura Cyberpunk" com 
apoio do CNPq. Tern varios artigos publicados no Brasil e no exterior sobre a 
tematica da cibercultura e prepara o livro "Cibercultura. Tecnologia e Vida 
Social na Cultura Contemporanea", atualmente em producao na Editora 
Sulina, Porto Alegre. E atual coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa 
em Cibercultura, Ciberpesquisa ( www.facom.ufba.br/ciberpesquisa ). 

Texto extraido da pagina de Andre 

Lemos( www.facom. ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/ ), com muitos textos 
e links sobre cibercultura. 



DECLARACAO DE INDEPENDENCE DO CIBERESPACO 

Por John Perry Barlow 

Governos do Mundo Industrial, voces gigantes aborrecidos de carne e aco, 
eu venho do espaco cibernetico, o novo lar da Mente. Em nome do futuro, 
eu peco a voces do passado que nos deixem em paz. Voces nao sao bem 
vindos entre nos. Voces nao tern a independencia que nos une. 

Os governos derivam seu justo poder a partir do consenso dos governados. 
Voces nao solicitaram ou receberam os nossos. Nao convidamos voces. 
Voces nao vem do espaco cibernetico, o novo lar da Mente. 

Nao temos governos eleitos, nem mesmo e provavel que tenhamos um, 
entao eu me dirijo a voces sem autoridade maior do que aquela com a qual 
a liberdade por si so sempre se manifesta. 

Eu declaro o espaco social global aquele que estamos construindo para ser 
naturalmente independente das tiranias que voces tentam nos impor. Voces 
nao tern direito moral de nos impor regras, nem ao menos de possuir 
metodos de coacao a que tenhamos real razao para temer. 

Voces nao nos conhecem, muito menos conhecem nosso mundo. O espaco 
cibernetico nao se limita a suas fronteiras. Nao pensem que voces podem 
construi-lo, como se fosse um projeto de construcao publica. Voces nao 
podem. Isso e um ato da natureza e cresce por si proprio por meio de nossas 
acoes coletivas. 

Voces nao se engajaram em nossa grande e aglomerada conversa, e 
tambem nao criaram a riqueza de nossa reuniao de mercados. Voces nao 



conhecem nossa cultura, nossos codigos eticos ou falados que ja proveram 
nossa sociedade com mais ordem do que se fosse obtido por meio de 
qualquer das suas imposicoes. 

Voces alegam que existem problemas entre nos que somente voces podem 
solucionar. Voces usam essa alegacao como uma desculpa para invadir 
nossos distritos. Muitos desses problemas nao existem. Onde existirem 
conflitos reais, onde existirem erros, iremos identifica-los e resolve-los por 
nossos proprios meios. 

Estamos formando nosso proprio Contrato Social. Essa maneira de governar 
surgira de acordo com as condicoes do nosso mundo, nao do seu. Nosso 
mundo e diferente. 

O espaco cibernetico consiste em ideias, transacoes e relacionamentos 
proprios, tabelados como uma onda parada na rede das nossas 
comunicacoes. 

Nosso e um mundo que esta ao mesmo tempo em todos os lugares e em 
nenhum lugar, mas nao e onde pessoas vivem. 

Estamos criando um mundo que todos poderao entrar sem privileges ou 
preconceitos de acordo com a raca, poder economico, forca militar ou lugar 
de nascimento. 

Estamos criando um mundo onde qualquer um em qualquer lugar podera 
expressar suas opinioes, nao importando quao singular, sem temer que seja 
coagido ao silencio ou conformidade. 



Seus conceitos legais sobre propriedade, expressao, identidade, movimento 
e contexto nao se aplicam a nos. Eles sao baseados na materia. Nao ha 
nenhuma materia aqui. 

Nossas identidades nao possuem corpos, entao, diferente de voces, nao 
podemos obter ordem por meio da coercao fisica. Acreditamos que a partir 
da etica, compreensivelmente interesse proprio de nossa comunidade, 
nossa maneira de governar surgira. Nossas identidades poderao ser 
distribuidas atraves de muitas de suas jurisdicoes. 

A unica lei que todas as nossas culturas constituidas iriam reconhecer e o 
Codigo Dourado. Esperamos que sejamos capazes de construir nossas 
proprias solucoes sobre este fundamento. Mas nao podemos aceitar 
solucoes que voces estao tentando nos impor. 

Nos Estados Unidos voces estao criando uma lei, o Ato de Reforma das 
Telecomunicacoes, que repudia sua propria Constituicao e insulta os sonhos 
de Jefferson, Washington, Mill, Madison, deTocqueville and Brandeis. Esses 
sonhos precisam nascer agora de novo dentro de nos. 

Voces estao apavorados com suas proprias criancas, ja que elas nasceram 
num mundo onde voces serao sempre imigrantes. Porque tern medo delas, 
voces incumbem suas burocracias com responsabilidades paternais, ja que 
sao covardes demais para se confrontarem consigo mesmos. 

Em nosso mundo, todos os sentimentos e expressoes de humanidade, desde 
os mais humilhantes ate os mais angelicais, sao parte de um todo 
descosturado; a conversa global de bits. Nao podemos separar o ar que 
sufoca daquele no qual as asas batem. 



Na China, Alemanha, Franca, Russia, Singapura, Italia e Estados Unidos, 
voces estao tentando repelir o virus da liberdade, erguendo postos de 
guarda nas fronteiras do espaco cibernetico. Isso pode manter afastado o 
contagio por um curto espaco de tempo, mas nao ira funcionar num mundo 
que brevemente sera coberto pela midia baseada em bits. 

Sua industria da informacao cada vez mais obsoleta poderia perpetuar por 
meio de proposicoes de leis na America e em qualquer outro lugar que 
clamam por nosso proprio discurso pelo mundo. 

Essas leis iriam declarar ideias para serem um outro tipo de produto 
industrial, nao mais nobre do que um porco de ferro. Em nosso mundo, 
qualquer coisa que a mente humana crie, pode ser reproduzida e distribuida 
infinitamente sem nenhum custo. meio de transporte global do 
pensamento nao mais exige suas fabricas para se consumar. 

Essas medidas cada vez mais coloniais e hostis os colocam na mesma 
posicao daqueles antigos amantes da liberdade e auto- determinacao que 
tiveram de rejeitar a autoridade dos poderes distantes e desinformados. 

Precisamos nos declarar virtualmente imunes de sua soberania, mesmo se 
continuarmos a consentir suas regras sobre nos. Nos espalharemos pelo 
mundo para que ninguem consiga aprisionar nossos pensamentos. 

Criaremos a civilizacao da Mente no espaco cibernetico. Ela podera ser mais 
humana e justa do que o mundo que voces governantes fizeram antes. 

Davos, Suica, 8 de fevereiro de 1996. 



John Perry Barlow e um fazendeiro de rebanho aposentado, um Ifrico do 
Grateful Dead e co-fundador da Eletronic Frontier Foundation (Fundacjao da 
Fronteira Eletronica). 

Texto extraido do site da Rede de Direitos Humanos e Cultura - Dhnet 
( www.dhnet.org.br ) 



DESMATERIAUZACAO EMBRIAGADA DE DIONIZIO COMO FORMA 
APOLINEA DE REALIDADE. 

Carolina Borges 



Seculo XXI, era tecnologica, todos os domfnios do intelecto humano 
voltados a imprevisibilidade da nova era. O tempo nao mais reflete a 
linearidade - antiga referenda dos processos de transformacao - agora esta 
a service dos fluxos de informacoes, das redes e das conexoes. 

A sociedade conhece novas relacoes, se depara com o movimento e as 
interminaveis misturas onde todas as coisas se complementam e se 
embelezam. O tao esperado encontro de Apolo com Dionfzfo, profetizado ha 
cem anos atraves dos delfrios inspiradores de Nietzsche. A forma apolinea 
da sociedade tecnologica e cibernetica se da atraves das manifestacoes 
dioniziacas das desmaterializacoes, do caos, da desvalorizacao do organico, 
dos fluxos de informacoes em rede como ordem das relacoes. A musica 
ganha outras referencias, volta ao arcaico na medida em que a cada batida 
sampleada pela maquina, urn som tribal de percussao nos leva a outras 
possibilidades de realidades. 

As regras sociais a partir de agora ficam sob comando do acaso. Se no seculo 
XX as relacoes sociais estavam ligadas as institutes - familiar, religiosa, 
estatal - onde morais e bons costumes ditavam modos de sociabilidade, 
hoje em dia e o acaso o comandante dos encontros. Nao mais se aproxima 
de uma pessoa por se trabalhar na mesma instituicao, por ser da mesma 
familia, ou por ter mesmas crencas religiosas; e sim pela capacidade de 
sermos afetados por intensidades emanadas de seres com semelhancas 
essenciais. 



A convivencia entre os seres humanos e potencializada pelo virtual , um 
universo de possibilidades e novas formas de atuacao social torna-se 
realidade. A simulacao , a multiplicidade de papeis desempenhados , a 
fragmentacao do ego estampado em diversas relacoes que se manifestam 
simultaneamente no ciberespaco , leva a sociedade ao gozo de se poder 
experimentar multiplas realidades. 

Temos estampados diante de nossos olhos o novo, e desde que o novo e 
novo grande questoes sao geradas. 

Durante os seculos do milenio passado todos os tipos de movimentos que 
impulsionaram transformacoes sociais tinham bases teoricas, onde 
intelectuais e artistas buscavam justificar o novo com criticas ao passado. 
Atualmente no que se refere a questoes teoricas vivemos algo contraditorio 
em relacao as transformacoes sociais deste inicio de milenio; uma vez que 
producoes teoricas sobre a nova sociedade cibernetica pos moderna esta 
voltada para a tentativa de se explicar o inexplicavel, de se compreender o 
incompreensivel, ou seja de se conceituar o caos inerente aos novos 
tempos. Nao ha tempo para formulacoes de criticas ao passado como 
recurso de justificativas do dominio da tecnologia, ja que nao estamos 
diante de um movimento e sim de uma transformacao de nivel evolutivo da 
propria especie humana. O curioso disto tudo e que formulacoes teoricas 
com embasamento critico existem tambem,mas nao em relacao ao passado, 
e sim aos novos valores que comecam a povoar as relacoes ,as novas 
maneiras de se situar na realidade, ao inicio do dominio do desmaterializado 
territorio chamado ciberespaco no que diz respeito as relacoes e suas 
multiplas formas de expressoes. 

A situacao apresentada pelo cenario atual no contexto das producoes 
teoricas de aspectos criticos em relacao a sociedade pos -moderna, traz 
com ela ventos do receio, atmosfera de carater medroso , uma vez que , ao 



nos depararmos com o domfnio da tecnologia em todos os aspectos da vida 
planetaria,fica claro que estamos diante de uma evolucao da tecnica - 
inerente a especie humana - e que nao ha fundamento em se produzir 
conteudos crfticos utilizando referencias passadas ,como meio de justificar 
as transformacoes que povoam os universos das relacoes sociais sob o 
impacto da tecnologia. Dessa vez e a natureza humana que se manifesta, 
expressando a desmaterializacao embriagada de Dionfzio como forma 
apolfnea de realidade. 



WIKIPEDIA PARA UMA SOCIEDADE LIVRE E ABERTA - ENTREVISTA 
COM JIMMY WALES 

IHU-On-Line 




Ha um imaginario de sociedade que esta por tras de obras coletivas como a 
Wikipedia. Nas palavras do seu fundador, Jimmy Wales, a Wikipedia foi 
criada para uma sociedade livre, uma sociedade aberta. O fundador da 
Wikipedia, a mais famosa enciclopedia livre da internet, e diretor da 
Wikimedia Foundation, o americano Jimmy Wales, concedeu entrevista a 
IHU On-Line, por telefone, na semana passada. A Wikipedia e uma 
enciclopedia livre e gratuita, feita por pessoas do mundo todo, em quase 80 
idiomas. O seu conteudo pode ser modificado e distribuido livremente. A 
versao da Wikipedia em lingua portuguesa pode ser acessada no endereco 
http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina principal . A Wikimedia 



Foundation ( http://wikimediafoundation.org/wiki/Home ) e uma 
organizacao que engloba diferentes projetos dentro da linha "free 
knowledge", conhecimento livre, entre eles a Wikipedia, o Wiktionary, um 
dicionario multilingual; o Wikibooks, uma colecao de livros gratuitos na 
internet; e o Wikinews, um site gratuito de noticias. Wales graduou-se pelas 
universidades de Auburn e Alabama e cursou a pos-graduacao nos 
programas de financas das universidades de Alabama e de Indiana. Ensinou 
em ambas as universidades durante seus estudos, mas nao escreveu a tese 
doutoral requerida para ganhar o doutorado nestas institutes. Tornou-se 
comerciante em Chicago, e em poucos anos, tinha ganhado o suficiente para 
o sustento seu e de sua esposa para o resto de suas vidas. Atualmente, se 
dedica exclusivamente aos projetos da Wikimedia Foundation. 

IHU On-Line - Como surgiu a ideia de criar a Wikipedia? 

Jimmy Wales - Observando o crescimento do movimento do software livre, 
que e um grupo de voluntarios que cria todos os softwares que realmente 
fazem a Internet rodar (1) , percebi que as pessoas podem colaborar em 
varios tipos de trabalho. Tenho orgulho do site, mas tenho interesse em 
desenvolver nosso trabalho em paises menos desenvolvidos. Creio que 
tornar o conhecimento livre muda a forma como o mundo funciona. Enfim, 
nosso trabalho e acabar com a exclusao digital 

IHU On-Line - Qual e o principal desafio da Wikipedia? 

Jimmy Wales - O desafio maior e lidar com o crescimento. O projeto ficou 
muito popular cedo demais, e nos sempre tivemos mais pessoas navegando 
no site do que podiamos imaginar, sem podermos dedicar-lhe a atencao 
devida. Entao, tern sido um desafio comprar computadores em quantidade 
suficiente para suprir todas as demandas. 




IHU On-Line - Quais sao os assuntos favoritos dos co-autores da Wikipedia? 

Jimmy Wales - Os topicos favoritos para contribuicao sao geralmente 
eventos/fatos atuais, que sao muito populares. Sempre que ha algo 
importante acontecendo no mundo, como, por exemplo, o Tsunami, ou o 
terremoto no Paquistao, e tambem topicos sobre tecnologia, que sao muito 
populares, muito bem-vindos. 

IHU On-Line - Quando e hora de parar de acumular informacoes sobre urn 
assunto especifico? 

Jimmy Wales - Nunca e hora de parar, porque ha sempre a oportunidade de 
editar novas informacoes, novos fatos descobertos, mas depende muito de 
os editores voluntaries discutirem o que escrever e quando devem parar o 
trabalho. 



IHU On-Line - O que garante a credibilidade das informacoes nesse 
ambiente virtual? 

Jimmy Wales - A qualidade de nosso trabalho, na media e muito bom. Uma 
das razoes disso e que e revisado por centenas (duzias de centenas) de 
pessoas. Mas e um metodo nao tradicional de criar conteudo e, portanto, as 
pessoas se questionam sobre a confiabilidade. A melhor resposta e que na 
media e muito bom, mas e claro que e preciso olhar cada caso, pensar muito 
a respeito da origem da informacao. Toda mudanca no site vai para uma 
"pagina de pesquisa das mudancas" (research changes page), que e revisada 
pela comunidade de colaboradores. Cada mudanca e revisada por varias 
pessoas que determinam se e uma boa mudanca ou nao. 



IHU On-Line - 
obra... 



Alguns membros da Academia tern feito duras criticas a 



Jimmy Wales - A maioria dos academicos esta bem empolgada com a ideia 
da Wikipedia. Para qualquer um envolvido com conhecimento, com ensino, 
e uma coisa realmente fantastica este esforco global para o 
compartilhamento de informacoes. Claro que ha gente cetica com relacao 
aos nossos metodos, mas e preciso que entendam o que estamos tentando 
fazer. 

IHU On-Line - Seu trabalho declara o fim dos direitos autorais? 

Jimmy Wales - Tudo o que fazemos esta baseado em licencas livres. As 
pessoas sao livres para copiar, modificar e redistrnosso trabalho, o que e 
uma abordagem diferente dos copyrights tradicionais, que tentam controlar 
informacoes confidenciais/restritas. Nossa missao toda e compartilhar 
informacoes. Todas as pessoas que contribuem para o site com seu trabalho 
o fazem sob licenca livre, entao a motivacao delas para isso e 



especificamente contribuir com o conhecimento que elas tern. Tudo o que 
usamos no site e software livre, somos grandes apoiadores do software 
livre, nos fazemos isso porque respeitamos sua liberdade, e tambem por ser 
o melhor software disponfvel para rodar no site. 



IHU On-Line 
Wikipedia? 



Como caracterizaria a sociedade que esta por tras da 



Jimmy Wales - Para uma sociedade livre, uma sociedade aberta. E o 
objetivo da Fundacao Wikimedia. Queremos que as pessoas tenham acesso 
as informacoes, que tenham habilidade de usar os programas para que 
possam usar as informacoes, porque esta e a base para a cultura crescer a 
partir dai. Acho que o sucesso da Wikipedia vem da pureza e da simplicidade 
do conceito. Quando as pessoas comecaram a ouvir sobre a Internet, todos 
pensaram: "Uau, isso e fantastico, a Internet e uma grande ferramenta para 
que individuos de todo o mundo compartilhem informacoes!". Ai entramos 
em todo esse "ponto com", e parecia que a Internet estava mais para pop 
ups, spam e coisas do tipo. A Wikipedia retorna as raizes do que deveria se 
tratar a Internet: um lugar onde as pessoas se unem para compartilhar 
informacoes. Isso e muito empolgante. 

IHU On-Line - Qual e o perfil das pessoas que trabalham na Wikipedia? 



IHU On-Line - Como as novas tecnologias transformaram o mundo do 
trabalho, na sua percepcao? 

Jimmy Wales - Eu diria que, quando as pessoas tern acesso ao 
conhecimento, e a uma maneira de se auto-educar, se tornam muito mais 
habeis para o trabalho produtivo, o que ajudaria a acabar com o 
desemprego. Se elas tiverem acesso a educacao e ao conhecimento, 
poderao aprender habilidades ou aquilo que as ajude a ser mais produtivas, 
qualquer que seja a area de trabalho que tenham escolhido. Na economia 
moderna, as pessoas devem aprender o maximo que podem sobre as mais 
diferentes areas do mundo, porque existem muitas coisas que demandam 
muito conhecimento. Tentamos nos concentrar em tornar nosso trabalho 
acessivel para qualquer individuo que queira aprender. As pessoas podem 
aprender sobre tecnologia, historia, politica, sobre o que quer seja para se 
tornarem mais qualificadas em suas vidas. 

1. GNU/Linux e Apache, por exemplo (Nota do Tradutor) 

Fonte: Boletim IHU-Online 

( http://www.unisinos.br/ihu online/index.php?option=com content&task= 
view&id=56&ltemid=146&menu ativo=active menu sub&tmarcador=146 ). 



Jimmy Wales - Nesta area, o principal e que as pessoas sejam amigaveis e 
que reflitam. Na Wikipedia, estas duas caracteristicas tern maior 
importancia, porque estamos tentando trabalhar juntos, colaborativamente, 
nao estamos apenas tentando gastar tempo discutindo, nao estamos 
exatamente tentando ter um trabalho produtivo-lucrativo. Entao as 
caracteristicas pessoais sao ser gentil, solicito e reflexivo com os outros. 



EUROMAYDAY 2004 - ATIVISMO POLITICO PELA REDE 

Francisco Jose Paoliello Pimenta e Letfcia Perani Soares 



ruas e na Internet, no dia l 9 de maio de 2004, a partir de quatro cidades 
europeias. Seus desenvolvimentos teoricos tern como base a Semiotica de 
Charles S. Peirce (Peirce, 1931-1958). 



1ETPARADE 




Euromayday: o real e o virtual 

O foco central da Euromayday foi a precarizacao das relacoes de trabalho no 
atual cenario capitalista. Movidos pela "fe" em um santo imaginario, San 
Precario, idealizado a partir da critica a influencia religiosa na sociedade 
italiana, os mais de 100 mil manifestantes que foram as ruas de Napoles, 
Dublin, Barcelona, Milao e outras cidades europeias, utilizaram-se de 
musica, arte e ate mesmo da depredacao de "simbolos" do trabalho 
precario, como caixas eletronicos, lojas de redes de fast-food e agendas de 
trabalhos temporarios para passar sua mensagem de que "um outro mundo 
e possivel". 



fsre trabalho estuda as possiveis relagoes entre a utilizagao de suportes 
hipermidia como instruments de estimulo a agoes politicas diretas de 
dmbito global, e a formagao de hdbitos de conduta ligados a democracia 
participativa e a um intemacionalismo renovado. Os autores analisam o site 
Euromayday 2004, com enfase nas novas possibilidades de utilizagao da 
linguagem hipermidia, articulando o ativismo global com os processos 
semioticos multicodigos, com propostas baseadas na semiotica de Peirce. 



O intuito deste artigo e o de apresentar pesquisa de campo relacionada a 
hipotese que preve que "o estimulo a participacao politica direta de ambito 
global por meio de processos signicos hipermidia, quando explora suas 
capacidades multicodigos, gera habitos de conduta que promovem a 
democracia participativa e o novo universalismo". Tal pesquisa se deteve, 
especialmente, sobre a manifestacao intitulada Euromayday, realizada nas 



O site criado pelos organizadores da parada ( www.euromavday.org ), reuniu 
irreverencia e ativismo midiatico ao propor protestos como o Precariopoli 
( www.euromavday.org/milano/precariopoli.html ). Era uma satira do famoso 
jogo de tabuleiro Banco Imobiliario, reunindo informacoes uteis para os 
manifestantes, ao mostrar links para as paginas das paradas em cada cidade 
participante e montar um centro de midia para a divulgacao de audios, 
videos e fotos gerados durante o Euromayday. 

Este protesto foi, em grande parte, organizado e divulgado pela Internet, 
seguindo uma tendencia que vem se firmando entre os movimentos sociais. 
Como escreve Denis de Morais: "As ONGs convenceram-se de que, em um 
mundo interdependente com economia globalizada e instantaneidade de 
fluxos eletronicos, os agentes sociais devem interconectar-se. Problemas, 
conflitos, negociacoes e encaminhamentos adquirem proporcoes 
imprevistas, nao raro planetarias, requerendo respostas de igual amplitude. 



O que pressupoe articular reacoes e propostas numa velocidade e numa 
dimensao compatfveis com as sucessivas demandas. Daf porque a 
organizacao em redes, dentro e fora da Internet, se revela inovadora. Elas 
facilitam a intercomunicacao de indivfduos e agrupamentos heterogeneos 
que compartilham visoes de mundo, sentimentos e desejos" (Morais, 2001). 

Os organizadores do Euromayday demonstraram criatividade ao explorar 
uma ferramenta ainda nao utilizada pelos militantes antiglobalizacao: a 
possibilidade da participacao de ativistas domundointeiro,por meio de uma 
manifestacao virtual. Esta parada, denominada Euromayday Netparade 
( www.euromayday.org/netparade ), contou com a presenca de 17.116 
pessoas. Baseada na linguagem do software Macromedia Flash, a 
manifestacao virtual permitia uma interacao, mesmo que limitada, com os 
demais protestos de l 9 de maio, ja que qualquer usuario da rede,em 
qualquer parte do mundo, poderia estar presente por meio de seu avatar, 
ou seja, de uma persona virtual criada a partir das caracteristicas desejadas 
pelo usuario. 

Os organizadores da Netparade definiram esta estrategia como "Uma 
demonstracao virtual que marcha por uma cidade altamente vigiada e cheia 
de marcas [de lojas famosas] cercada por legioes de insurrectos 
trabalhadores cognitivos + flexibilizados + temporarios e varios anarquistas, 
comunistas, gays e ecologistas"(EuroMayday, 2004). 

A pagina da parada virtual foi diagramada segundo o modelo verticalizado, 
com destaque para a animacao em Flash que constituia a Netparade. Havia 
textos em italiano, catalao (lingua oficial da Catalunha, regiao espanhola 
onde se localiza Barcelona, um dos epicentros do protesto), espanhol e 
ingles, para que o maior numero de pessoas pudesse entender os objetivos 
do protesto e participar. As explicates necessarias para a inscricao no 
evento, na animacao, estavam somente em italiano ou ingles. 



Para participar, era necessario responder um questionario sobre a 
nacionalidade, sexo, profissao, sindicalizacao, ganhos mensais, e condicoes 
gerais de trabalho. A consolidacao destes dados foi sendo apresentada, no 
decorrer das inscricoes, em uma das paginas do site, por meio de 
infograficos. 




Por eles, foi possfvel constatar que: 

1. A maioria dos inscritos, cerca de 60%, afirmou ser de nacionalidade 
italiana, o que seria explicado pelo fato de a mobilizacao ter se concentrado 
na Italia e pela ausencia de maiores informacoes em outras Ifnguas que nao 
o italiano. 

2. Grande parte dos manifestantes, 70%, era do sexo masculino, com 
presenca feminina de aproximadamente 20%. Os demais 10%, declararam- 
se como sendo de outro sexo. 

3. Cerca de % dos militantes alegou ser estudante, mesma quantidade 
daqueles que afirmaram estarem desempregados ou em empregos 
"flexfveis". 

4. Aproximadamente 75% afirmaram nao serem sindicalizados. 

A parada virtual foi construida pela "fabrica de animacoes" LaMolleindustria 
( www.molleindustria.it ), que desenvolve jogos "engajados", com mensagens 
contra a precarizacao ou flexibilizacao do trabalho, entre outros temas 
politicos e sociais. Porem, os proprios organizadores da parada virtual 
classificaram a sua acao como"uma peca coletiva de net art' e nao como urn 
jogo.Assim sendo, pode-se considerar a Netparade herdeira das 
manifestacoes de contracultura surgidos na Europa na decada de 1960, urn 
happening semelhante as experiencias dos Provos,de Amsterdam, que 
defendiam urn novo tipo de revolucao,que integrasse a politica e a arte 
(Guarnaccia, 2001; Internacional Situacionista, 2002; Vaneigem,2002). Alem 
de ser uma experiencia "comoda" para os seus participantes, ja que nao 
envolvia a participacao fisica direta, consistiu numa forma simples de 
divulgar os ideais dos organizadores por todo o mundo, com baixos custos e 
com boas possibilidades de circulacao entre usuarios jovens e intelectuais. 



De fato, a Netparade despertou reacoes variadas em diversos publicos. O 
jornal conservador Sunday Independent, da Irlanda, ironizou a parada 
virtual, saudando-a como uma alternativa "melhor" para os cidadaos 
irlandeses do que as manifestacoes "reais", ligadas ao Euromayday, que 
aconteceriam no pais no dia l g de maio (Kenny, 2004). Ja comunidades de 
Netart divulgaram a manifestacao como um happening contra a 
precarizacao do trabalho na Europa. Sites dedicados aos jogos viram a 
Netparade como um game conscientizador, destacando a qualidade da 
programacao em Flash. E os ativistas, defendendo diferentes causas, 
participaram da parada e propagaram o seu endereco pelas paginas dos 
Centros de Midia Independente ( www.indymedia.org ) de todo o mundo. 

A Netparade foi uma mobilizacao diferente daquelas que geralmente sao 
organizadas pelos grupos de ativismo global, por utilizar as ferramentas da 
hipermidia de uma maneira ativa, nao so para organizar e chamar 
manifestantes para protestos"reais", mas tambem por abrir um novo campo 
de acao, ja que, no ciberespaco/'podemos estar sos sem estarmos isolados" 
(Lemos, 2002: 113). Ou seja, por meio da rede, e possivel a uniao de 
diversas pessoas, com mentalidades diferentes, em torno de uma causa 
comum, levantando temas para discussao publica e conscientizacao dos 
individuos,sem a necessidade da convergencia fisica. Susana Nascimento 
nos mostra que: "Com as devidas diferencas entre si, estes movimentos 
professam, essencialmente, uma capacitacao de grupos socialmente 
desfavorecidos ou de exposicao de problemas sociais 'invisiveis' nos media 
tradicionais, atraves de novos meios de comunicacao que criam condicoes 
para a acao politica coletiva em moldes mais rapidos, organizados e menos 
dispendiosos, estimulando assim o desaparecimento de intermediaries que 
distorcem a informacao, como os jornalistas e os politicos"(Nascimento, 
2002). 



De fato, neste processo de construir uma mobilizacao virtual, como o 
Euromayday Netparade, o objetivo de levantar a questao da precarizacao do 
trabalho no capitalismo contemporaneo por meio de um processo interativo 
sem passar pelos filtros ideologicos da mfdia e algo bastante claro. 

Porem, ainda assim, a participacao a distancia ainda esta restrita a um 
publico que ja tern certo conhecimento das questoes sociais tratadas, nao 
exercendo, portanto, grande impacto social, conforme podemos verificar 
pelo numero de participantes do Euromayday, ou seja, 17.116 ativistas. Os 
motivos para isso vao desde a ausencia de uma maior democratizacao do 
veiculo internet, ja que, especialmente nos chamados "paises em 
desenvolvimento", poucos sao os que tern acesso a linhas telefonicas, 
computadores ou ate mesmo conexao a grande rede mundial, ate a falta de 
"tempo livre" e, ainda, certa "incapacidade intelectual" para acompanhar 
discussoes virtuais (Nascimento, 2002). 

Algo que tambem pode explicar o baixo interesse pelo ativismo digital esta 
no fato de que o processo de identificacao com a internet acontece de 
forma diferente em relacao as outras midias. Neste caso, nao e suficiente 
que a pessoa ligue o computador e espere para ver o que acontece, numa 
atitude passiva. E imperativo que o individuo tenha contato, primeiramente, 
com a tecnologia, com o funcionamento da maquina, do mouse, com o 
sistema operacional (Windows, Linux), com programas e aplicativos 
(Netscape, Microsoft Internet Explorer, Mozilla, entre outros), para, so 
entao, conseguir usufruir dos beneficios que a rede pode proporcionar. A 
partir dai, e preciso, tambem, assumir uma postura pro-ativa, ou seja, os 
sites constituem campos abertos de interatividade a serem explorados. 

Esta necessidade da pro-atividade pode ate afastar potenciais usuarios da 
rede (Soares, 2004), inibindo sua participacao em manifestacoes virtuais. 
Entretanto, e somente a partir dai que ha um processo de identificacao, que 



se da nao so por meio da busca, pelo usuario, de areas de seu interesse, 
como tambem pela descoberta de novos interesses, ou seja, de 
possibilidades ate entao nao pensadas. Os "avatares" animados em Flash,da 
Netparade, propiciaram certa imersao do publico, uma vez que os 
participantes podiam escolher a roupa e a face com a qual iriam aparecer na 
parada, mesmo que dentro de modelos propostos e definidos 
automaticamente pelo software de programacao da animacao. Apesar 
disso, a Netparade ainda ficou bem longe de fazer o"internauta" se sentir na 
parada "real". 

Semiotica e interatividade 

Nos interessa, aqui, particularmente, a construcao de um novo espaco de 
participacao politica, constituido pelas interacoes promovidas pela rede, e 
esta e uma questao marcadamente signica, para a qual, portanto, a 
semiotica pode fornecer instrumentos de analise. Naturalmente, o 
problema da relacao dos meios de comunicacao com a participacao politica 
e social e um campo complexo e da margem a diferentes abordagens, entre 
elas as de fundo sociologico, como ocorre nas obras de autores como 
Sennett, Castells, Bauman, Steven Johnson e Certeau, entre outros. A partir 
disto, contudo, o que se propoe e avancar na compreensao de como se dao 
tais processos de recepcao de signos, como base para uma consciencia 
voltada a pro-atividade e, mais do que isso, para a participacao e a 
intervencao social. 

Compreende-se, em primeiro lugar, que processos signicos podem gerar 
mudancas de habitos mentais e, dai, de conduta, desde que sejam do 
mesmo tipo daqueles que formam nossos habitos e crencas,ou seja, 
constituam processos signicos genuinos. Estes sao caracterizados por uma 
articulacao entre signos, objetos e interpretantes, todos eles de carater 
mental: "Se esta relacao tripla (signo, objeto e interpretante) nao e do tipo 



degenerado,o signo so e relacionado a seu objeto em conseqtiencia de uma 
associacao mental e depende de um habito. Tais signos sao sempre 
abstratos e gerais, porque habitos sao regras gerais as quais o organismo se 
tornou sujeito". (Peirce,1931-58: 3.360). 



termos de roupas, tipos de cabelos, e slogans pessoais.Alem disso, tais 
relates existenciais se assentavam sobre qualidades compartilhadas entre 
signo e objeto, considerando-se que os "avatares" podiam ser analogicos a 
seus criadores, em termos de cores, formas e estilos. 



Tais interpretantes logicos devem estar, porem, necessariamente 
articulados a processos representatives de carater degenerado, ou seja, que 
se constituam nas esferas da existencia fisica e remetam ao universo iconico 
do compartilhamento de qualidades. E a hipermidia e, hoje, o suporte de 
linguagem mais desenvolvido no sentido de possibilitar representacoes com 
fortes relacoes existenciais com seus objetos, alem de se abrir para o 
compartilhamento de qualidades entre signo e objeto, seja na forma de 
sons, imagens ou mesmo pela interatividade que cria a sensacao de 
pertencimento caracteristico da rede. Isto se da pelo fato de a linguagem 
hipermidia ser marcadamente multicodigos (Pimenta, 2003 § , 2003B, 2003C, 
2004). 

No caso do Euromayday, e claro o avanco em relacao a iniciativas anteriores 
de mobilizacoes internacionais via rede, tanto em termos de 
aprofundamento de relacoes existenciais quanto de compartilhamento de 
qualidades entre signos e objetos. Foi possivel, por exemplo, a qualquer 
habitante do planeta com acesso a internet participar dos protestos de l 9 
de maio por meio de um signo que o representava existencialmente e em 
suas qualidades, na forma de uma figura humana, ou seja, de seu "avatar", 
desfilando em uma avenida virtual. 

A relacao existencial ocorria tendo em vista que cada "avatar" precisava ser 
construido pelo proprio manifestante, ainda que este criasse varios deles. 
Neste caso, de fraude, perdia-se a veracidade da conexao de um"avatar" 
para cada manifestante,porem permanecia a relacao entre o signo e seu 
criador. Outras singularidades existenciais podiam ser representadas, em 



Ate entao, a participacao nas mobilizacoes de ativismo global limitava-se ao 
envio de textos, falas, fotos ou videos. A presenca, por meio do "avatar", 
contribuiu, assim, para um aperfeicoamento do processo signico, uma vez 
que estas semioses degeneradas,ao serem articuladas pela cognicao aos 
respectivos processos genuinos, transmitiram a estes ultimos uma forca 
existencial e iconica. Ou seja, o fato de existir na pagina um simbolo da 
pessoa reforcava seu envolvimento com o protesto. 

Ja a ausencia de edicao que caracteriza os sites de mobilizacao global, 
principalmente os centros de midia independente - Indymedia, nos quais e 
possivel, a qualquer um, inserir informacoes livremente, foi reforcada com 
os novos recursos usados no Euromayday. Neste caso, a expressao pessoal 
por meio de uma opiniao ou slogan, nao editado, ampliava o grau de 
espontaneidade da representacao signica. Conforme se afirma acima, isto e 
relevante tendo em vista que os processos degenerados reforcam os 
processos genuinos a eles articulados, ampliando a perspectiva de que esta 
configuracao signica conduza a mudancas de habitos mentais e, dai, de 
conduta. 

Contudo, de acordo com Peirce, para que se faca a passagem da postura de 
apatia para a de predisposicao para a acao nao basta a mera exposicao a 
representacoes que estimulem a mudanca de habitos. E certo que este e um 
primeiro passo.Mas, alem disso, e preciso que haja auto-consciencia e 
autocontrole dos processos signicos, ou seja, o receptor deve se voltar para 
a compreensao de seu proprio processo interpretative 



Nao foi isto o que se observou no site do Euromayday, considerando-se as 
escolhas dos participantes da parada virtual. A espontaneidade permitida 
acabou conduzindo a uma despreocupacao com o significado do evento e 
pouquissimos dos slogans colocados pelos participantes tinham relacoes 
diretas com o ativismo global, servindo muito mais como uma expressao 
ludica do que politica. 




MILANO ■ BARCELONA 



PRECAEU COCHITARIE 

PER 



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Nao se esta, aqui, diminuindo a importancia do ludico nestes casos. Ao 
contrario, considera-se ser este um dos fatores fundamentals para se criar 
um maior envolvimento de adolescentes e adultos jovens, a partir da longa 
tradicao anarquista de vinculacao das atividades politicas a vida cotidiana. 
Esta era a postura dos Dadaistas, dos Provos de Amsterdam, e dos 
Situacionistas, entre outros [Guarnaccia, 2001; Internacional Situacionista, 
2002; Vaneigem, 2002]. E possivel ate mesmo considerar que a 
incorporacao do ludico a politica seja uma estrategia que precisa ser mais 
explorada no atual ativismo global, incluindo suas versoes em rede. 

Contudo, o resultado de mobilizacoes virtuais como a da Netparade, apesar 
de plasticamente atraente, e quase nulo. Em vez de utilizarem a tecnologia 
disponivel para se organizar em prol de questoes sociais relevantes, ate 
mesmo para as suas proprias vidas, essas 17 mil pessoas procuraram apenas 
se divertir, sem gerar impacto social. Deixou-se de lado, assim, a postura 
critica que seria construida a partir da consciencia de se estar numa rede 
semiotica voltada para o tema da precarizacao do trabalho, no atual 
contexto do capitalismo. 

Cognicao e autoconsciencia 

Na realidade, nao e tarefa simples chegar a autoconsciencia e ao 
autocontrole dos processos interpretativos relacionados a tal questao, de 
forma a construir habitos mentais e de conduta que sejam pro-ativos e que 
caminhem no sentido de superar a apatia que vem caracterizando o cenario 
politico nos ultimos anos. Autores pos-marxistas italianos como Negri, 
Lazzarato, Berardi, e, no Brasil, Cocco, sao alguns dos que tern se 
dedicado,na ultima decada, ao estudo deste processo de tomada de 
consciencia da precarizacao do trabalho, no atual estagio de 
desenvolvimento do capitalismo, sobre a base de conceitos inovadores, 



como o de"trabalho imateriaTe de"capitalismo cognitivo" (Cocco, 2002, 
2003; Lazzarato & Negri, 2001). 

Embora ainda bastante vinculados a uma perspectiva estruturalista quando 
abordam processos semioticos (Negri chega a usar as antigas epistemes de 
Foucault), estes autores defendem, criativamente, que "o ciclo do trabalho 
imaterial e pre-constituido por uma forca de trabalho social e autonoma, 
capaz de organizar o proprio trabalho e as proprias relacoes com a empresa" 
(Lazzarato & Negri, 2001: 26-27). Esta nova "intelectualidade de massa" 
estaria, assim, criando as condicoes para o surgimento de uma"nova 
subjetividade", a partir de seu "poder constituinte", autonomo em relacao a 
organizacao do trabalho capitalista. 

Ja a hipotese do "capitalismo cognitivo"decorre de consideracoes como 
esta, de Corsiani: "Cada vez mais, o que se consome sao servicos, 
tecnologias informaticas e comunicacionais e os conteudos informacionais, 
culturais, artisticos intimamente associados a ferramenta, cuja 
especificidade repousa justamente na indissociabilidade dos conteudos que 
ela veicula. O tempo do consumo (de servicos, de bens informaticos e 
culturais) e do lazer sao, portanto, tempos de aquisicao e de producao de 
novos conhecimentos, produzidos individual e coletivamente no ambito das 
redes" (In Cocco, 2003: 25-26). 

A partir destes e de varios outros conceitos derivados desta nova visada 
teorica, autores como Berardi chegam bem proximos da questao que 
propomos neste trabalho e ajudam a apontar possiveis saidas. No artigo 
"Auto-organizacao da inteligencia coletiva global" ele afirma: "De repente, 
os trabalhadores cognitivos descobrem que os seus salarios so dao para 
administrar o ritmo, descobrem a miseria existencial e sexual da vida de net- 
slaves, descobrem as conseqiiencias do estresse da competicao. Nessa crise 
cultural, e liberada enorme quantidade de tempo inteligente. A medida que 



a ilusao se dissolve, um numero crescente de proletaries cognitivos comeca 
a investir nas suas competencias em um processo de solidariedade e de 
coletividade criativa" (In Cocco, 2002: 109). 

Ou seja, na medida em que se tornem conscientes dos processos semioticos 
aos quais estao submetidos, os "trabalhadores cognitivos" podem investir 
suas competencias em acoes coletivas e solidarias, exatamente o que seria o 
objetivo de iniciativas como o Euromayday. Berardi prossegue sua 
argumentacao constatando que, embora a "consciencia teorica e 
estrategica" nao esteja "a altura das potencialidades produtivas do 
movimento e da riqueza de sua composicao social. O movimento precisa sair 
da espiral repetitiva das manifestacoes de reacao antiglobalista" e que a 
"auto-organizacao do trabalho cognitivo deve ser o seu programa" para 
"sabotar os pianos das corporations que dominam a semioesfera" (In 
Cocco,2002: 110-112). Dai, conclui:"Agora o movimento deve tornar-se 
forca politica que possibilite a autonomia da inteligencia coletiva da regra do 
semiocapital". 

Isto, contudo, e algo que o site dedicado ao Euromayday nao realiza. 
Conforme afirmamos acima, foi interessante o estimulo a participacao pela 
rede, por meio da Netparade, com boa exploracao dos recursos atuais de 
interatividade. Contudo, nao houve, conforme defende Berardi, um 
programa de auto-organizacao do trabalho cognitivo. Resta saber como se 
daria tal programa, pois o diagnostico destes autores avanca no que fazer, 
porem pouco fala no como isto pode ser realizado, especialmente na esfera 
dos meios de comunicacao. 

Conforme afirmamos acima, um dos problemas desta contribuicao teorica e 
sua fragil sustentacao semiotica, bastante vaga e ainda fundada no 
estruturalismo e na lingufstica. E possivel, no entanto, recorrer mais uma vez 
a semiotica de Peirce, que se apoia numa logica bem mais ampla do que a 



do verbal e, a partir dela, mostrar que o controle consciente dos processos 
interpretativos envolve a compreensao dos padroes de inferencias 
adotados. Segundo Peirce: "Dizer que uma operacao da mente e controlada 
e dizer que e,num sentido especial, uma operacao consciente; e isso, sem 
duvida, e consciencia do raciocinio. Pois esta teoria exige que, ao raciocinar, 
estejamos conscientes, nao somente da conclusao, e de nossa aprovacao 
deliberada a seu respeito, mas tambem de ela ser o resultado da premissa a 
partir da qual ela resulta, e, alem disso, de que a inferencia e uma da 
possivel classe de inferencias que se conformam a um principio-guia. (...) So 
elas merecem ser chamadas raciocinios; e se quern raciocina e consciente, 
mesmo vagamente,de qual e seu principio-guia, seu raciocinio deve ser 
chamado de argumentacao logica (Peirce: 1934-58,5.441). 

No caso em questao, do Euromayday, nao ocorreu nada desse tipo, ou seja, 
prevaleceram os mesmos tipos de raciocinio habituais das "corporations que 
dominam a semioesfera". As enfases foram dadas a questoes particulares, 
no maximo regionais. A mobilizacao em rede mais uma vez, esteve 
centralizada apenas em algumas cidades europeias, sem que houvesse um 
pensamento abrangente, voltado para mobilizacoes internacionais, que 
deveriam fundamentar o ativismo global. Com isso, os participantes da 
Netparade, em sua maioria, colocaram no site os slogans que Ihes vieram a 
cabeca, sem sequer considerarem o tema principal, ou seja, a precarizacao 
do trabalho,e muito menos conceitos complexos como os de "trabalho 
imaterial"ou "capitalismo cognitivo", deixando, assim, mais uma vez, de 
colaborar criticamente para a construcao de um possivel "outro" mundo. 

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INTERNACIONAL SITUACIONISTA (2002) SITUACIONISTA. SP: Conrad. 

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.(2001) O ativismo digital, [online]. Corvilha: Univ. da 

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NASCIMENTO, Susana. (2002) Mediaticamente 'homem publico': sobre a 
dimensao electronica dos espacos publicos [online]. Corvilha: Univ. da Beira 



Interior, 2002. [cit. 10/07/2002]. 

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Trabalho apresentado no NP 12 - Comunicacao para a Cidadania, no XXVII 
Intercom. 



SOARES, Leticia Perani. (2004) Internet e o paradigma da veracidade das 
informacoes. JF: FACOM/UFJF (Monografia PET/SESU). 



PEIRCE, Charles Sanders (1931 1958) Collected Papers. 8 vols. Cambridge: 
Harvard Univ. Press. 



PIMENTA, Francisco J. P. (2003A) "Hipermidia, Ativismo e Novos Habitos", in 
Anais do I Enrecom. JF: Ed FACOM/UFJF. 



Fonte: Revista Libero 

( http://www.facasper.com.br/pos/mestrado nota.php?posgraduacao=&id= 
5) 

[Postado em 05 de Fevereiro de 2006] 



_(2003B) Possibilidades da Hipermidia no Ativismo 



Global In: Anais do XXVI INTERCOM. SP: INTERCOM. 



_(2003C) Semiotica, Contexto Multicodigos e o Design 



in: Anais do I Congresso de Semiotica Aplicada ao Design. Rio: EDPUC. 



_(2004) "Redes Multicodigos: Possibilidades Semioticas 



para o Ativismo Global" In: Anais do XIII Compos. SP: UMESP. 



VANEIGEM, Raoul. (2002). A arte de viver para as novas geracoes. SP: 
Conrad. 

Francisco Jose Paoliello Pimento e doutor em Comunicacao e Semiotica 
(PUC/SP - TSOA/NYU) e professor adjunto da Faculdade de Comunicacao da 
Universidade Federal de Juiz de Fora. 



Leticia Perani Soares e bolsista de Iniciacao Cientifica (PET/SESU) e 
graduanda da Faculdade de Comunicacao da UFJF. 



EXPRESSOES CAOTICAS DA NATUREZA DA VIDA 

Carolina Borges 



Pensar o mundo substantivamente, pensar o mundo verbalmente. Eis o 
grande abismo entre rigidez e movimento... Substantivo, nos remete a 
substancia, algo fixo, um conjunto de substantias fixas para se formar um 
caminho. Verbo nos remete a acao, algo movel, processo, movimento. Uma 
substancia em movimento formando o caminho. 

A questao e cognitiva, modo de pensar e perceber o mundo. Pensar o 
mundo, a vida, os individuos como um conjunto de substantivos que, lado a 
lado, estaticos e rigidos, dao a forma estetica para o movimento. 

Pensar o mundo, a vida, os individuos como verbos, como acoes, eternos 
movimentos, infinitos processos, tempo e espaco ocupando a mesma 
dimensao. 

Ao falar em acao, em movimento, em processo, falamos em caos, ja que a 
eternidade dos movimentos e seus processos expressam caoticamente a 
natureza da vida. Tudo esta em movimento, do organico ao virtual, na 
natureza ao artificial. O que fez do homem moderno um ser rigido, fixado, 
controlador, incapaz de agir de acordo com a natureza dos movimentos e 
seus fluxos foi toda uma complexidade de ideias filosoficas, religiosas que ha 
2000 anos condicionaram o pensamento ocidental. Platonismo, catolicismo, 
judaismo, preenchidos por metafisicas, por valores transcendentais, por 
deuses estaticos, inibindo a humanidade de se expressar imanentemente. 
Segundo Nietzsche, o pior, o mais persistente, o mais perigoso de todos os 
erros foi um erro de dogmaticos: a invencao por Platao do espirito puro e do 
Bern em si. 



Trata-se de imanencia e de transcendencia. Ao se falar em valores 
transcendentes coloca-se poder em algo distante da capacidade humana , 
impedindo esta de se expressar de acordo com a propria natureza. Ao se 
falar de imanencia, dirigimos este poder a humanidade , criando um 
universo de possibilidades de expressoes e criacoes a partir da capacidade 
inteligivel de cada um. Na transcendencia permanecemos imoveis, 
incapazes de agir sem o aval do "tal" valor transcendental, desta maneira 
nos tornamos como substantivos, rigidos na forma de apreender a realidade 
da vida. Na imanencia o poder de atuacao esta em nossas maos, passamos 
de substantivos a verbos, passamos da rigidez ao movimento, da nao acao a 
acao. 

A vida como obra de arte: individuos criando suas proprias condicoes na 
existencia, habitando o desejo e, a partir dai, agindo para expressa-lo. 

Mudamos de seculo, mudamos de milenio, da era industrial de producao em 
serie seguimos para a era tecnologica, onde a informacao ganha o poder 
que ja foi da producao. Ao se falar de informacao, falamos de ideias, de 
criatividade, de tecnica, de pensamento. Digamos que a humanidade esta se 
tornando mais inteligente, para felicidade de uns e infelicidade de outros. 
controle das informacoes e do conhecimento perdem sentido. De nada 
adianta a tentativa de controle na rede planetaria de interatividade e 
informacao .0 campo virtual de expressao humana :o ciberespaco, universo 
de infinitas possibilidades de expressoes, tende cada vez mais a ser habitado 
pela humanidade, e uma vez presente no cotidiano , eis um grande recurso 
para que imanencias sejam expressadas. A decadencia de valores 
transcendentais, seja em um deus, em morais estabelecidas, em verdades 
inquestionaveis tendem a se afirmarem, na medida em que com o passar 
dos anos a humanidade for tendo acesso ao ciberespaco e dessa forma 
libertando-se do controle estabelecido ha mais de mil anos. 



Conhecimento gera liberdade de escolhas e e no conhecimento que 
caminhamos nesta nova era que se inicia. Dentre outras tantas 
mediocridades e situacoes bizarras que a natureza humana e capaz de 
realizar, existe uma nova realidade a ser conquistada: a realidade virtual, e 
com ela infinitas possibilidades de perceber e viver a vida. Para os 
pessimistas, amedrontados com a "desmaterializacao organica" que se 
sujeita a humanidade do planeta Gaia, nao ha como voltar atras, entramos 
em um novo movimento, o tao esperado encontro do tempo e do espaco, 
eis a fusao espaco/tempo, eis o caos sendo reconhecido nas intensidades do 
acaso. 



ZAPATISTAS, GUERREIROS DA INFORMACAO 

ENTREVISTA COM RICARDO DOMINGUEZ, UM DOS FUNDADORES 

DO MOVIMENTO ZAPATISTA NO CIBERESPACO. 

Por Juliano Spyer 

Quando encontrei Ricardo Dominguez, numa tarde ensolarada de sabado 
em Nova York, estava determinado a fazer uma entrevista curta, de no 
maximo 15 minutos, para escrever uma cronica de duas paginas sobre 
personagens novaiorquinos. 

Ricardo parece um personagem de revista em quadrinhos. Veste roupas 
escuras - mesmo em tardes de sabado ensolaradas -, usa um oculos meio 
quadrado e de aro grosso que tern um ar antipatico de algumas professoras 
primarias que eu tive. E 'xicano', filho de mexicanos nascido nos EUA, mas 
nao tern caracterfsticas particularmente indfgenas. 

O cabelo dele, escurfssimo, e engomado no estilo anos 50 e sua franja e 
moldada num discreto espiral do lado direito da testa. E diffcil, pela 
aparencia, acreditar que ele seja um dos militantes mais ativos do 
movimento internacional de apoio aos Zapatistas de Chiapas, no Mexico. 

Apesar desse look estranho, Ricardo e muito cordial e bem humorado. Tern 
uma voz funda que - denunciando sua formacao de ator - ele explora 
dramaticamente enquanto conversa. 

Antes de comecar a gravar, expliquei a ele que eu - e provavelmente a 
maioria dos possiveis leitores da entrevista - sabiamos o que adultos de 
classe media com formacao universitaria no final do seculo 20 sabem sobre 
internet e computadores. 

Ele entendeu a proposta e narrou sua historia desde o principio, de uma 



forma quase elementar, permitindo pacientemente que eu o interrompesse 
quando tivesse duvidas. Isso possibilitou que assuntos tao diferentes como 
Movimento Zapatista, Pos-modernidade, desobediencia civil e ciberespaco 
se entrelacassem e juntos se explicassem. 

No comeco, eu queria contar uma historia curiosa. Mas duas horas depois, 
quando a entrevista terminou, percebi que o conteudo gravado pode ajudar 
pessoas que, como eu, ainda nao encontraram um conceito e uma pratica 
para exteriorizar o desgosto pela miseria e a violencia do mundo hoje. 

Dedico essa entrevista a minha amiga Andrea Paula dos Santos, militante do 
Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, que por alguns motivos obvios e 
outros nao tao obvios, esteve na minha cabeca durante todo o processo de 
gravacao e edicao deste texto. (JS) 



JS - Como voce passou de ator a militante Zapatista e agora a idolo hacker? 

RD - Essa e uma longa historia, de mais de 15 anos, de quando eu comecei a 
pensar numa teoria e numa pratica para a 'Desobediencia civil eletronica'. 
Enquanto ideia, a 'Desobediencia civil' surgiu aqui nos Estados Unidos no 
seculo passado, com Henry David Thoreau, que escreveu o ensaio 'Sobre a 
desobediencia civil'. Ativistas como Martin Luther King e Gandhi foram dois 
grandes popularizadores dessa proposta. 

JS - E o que Thoreau propoe no ensaio? 

RD - Propoe uma atitude critica contundente mas ao mesmo tempo pacifica, 
muito aplicada inclusive pelos movimentos estudantis de 1968. Em sintese, 
a desobediencia civil significa que voce se dispoe, de uma forma nao- 
violenta, a perturbar a ordem. Por exemplo, durante o Movimento pelos 



Direitos Civis dos negros americanos nos anos 50 e 60, desobediencia civil 
era entrar num restaurante e se sentar. Isso era tudo que um negro 
precisava fazer para tocar nos nervos da sociedade... 

JS - E como surgiu a vontade de transpor essa ideia para o mundo virtual? 

RD - Em 87, eu e quatro outras pessoas formamos um grupo chamado 
Critical Art Ensemble (CAE). Eramos artistas e profissionais que tinhamos em 
comum um profundo desgosto por nossas profissoes. Por causa desse odio a 
quern nos eramos e o que estavamos fazendo, comecamos a debater formas 
de alterar esse quadro atraves de desobediencia civil eletronica. Isso nao 
seria possivel se estivessemos satisfeitos. Dentro da nossa sociedade, somos 
treinados a agir e pensar de uma certa forma e isso nos impede de inventar 
coisas novas. Porque estavamos angustiados, estavamos tambem dispostos 
a fazer concessoes que a sociedade discrimina. Aquele era o momento para 
artistas abrirem mao desses habitos, especialmente nos anos 80 quando 
emergiu o pensamento critico pos-moderno... Nessa epoca, comecavamos 
tambem a contemplar a ideia de um ciberespaco, de um universo 
desmaterializado que dava possibilidades infinitas de comunicacao. 
acesso a computadores ainda era limitadissimo, mas o genero cyberpunk ja 
falava sobre essa nova realidade virtual. Autores como William Gibson, 
Bruce Sterling, e varios britanicos escreviam sobre isso e nos Ifamos tudo 
deles. Gibson, alias, foi o cara que no romance "Neuromancer" criou o 
termo 'ciberespaco' que, para ele, era uma "mass of alucination agreed 
upon" ou uma alucinacao coletiva e consensual... 



nao apenas local mas global. A sociedade hoje acredita e defende que 
produtos tern mais direitos que seres humanos. Isso esta errado, e 
comecamos a estudar como aplicar a desobediencia civil dentro deste 
mundo para interferir no quadro do mundo real. No seculo 19 e em boa 
parte do seculo 20, o poder existia nas ruas, tudo se resumia a fazer ruas 
maiores para transportar mais produtos. O movimento de desobediencia 
civil, nessa epoca, pregava exatamente o bloqueamento dessas ruas. Gandhi 
levava milhares de indianos para o centro das cidades para que todos se 
sentassem e com isso, interrompessem essa ordem. Queriamos fazer a 
mesma coisa mas no ciberespaco. 

JS - E o que no ciberespaco atraia tanto a atencao de voces? 

RD - Justamente a absoluta liberdade de expressao desse novo ambiente. E 
tambem a possibilidade de criar um foro publico de debates que pudesse 
fazer frente aos veiculos de informacao tradicionais, que filtram as ideias de 
acordo com interesses proprios. Esse elemento e central para nos porque 
ate entao, para fazer frente ao New York Times, uma pessoa precisava ter 
muito dinheiro ou poder politico para montar uma estrutura semelhante a 
desse jornal, com centenas de reporteres ao redor do mundo. Sempre 
houve pessoas descontentes mas com a internet, essas pessoas puderam 
encontrar muitas outras que tern as mesmas ideias e por isso conseguem 
falar simbolicamente com um volume bem mais alto e sem filtros. 

JS - Como o Movimento Zapatista entrou nessa historia? 



JS - Qual era o projeto do CAE? 

RD - Para nos, o ciberespaco era uma Utopia a ser conquistada. Sentiamos 
que a cultura do Ocidente estava em ruinas e talvez, se ocupassemos antes 
esse novo espaco, poderiamos ajudar a construir uma nova comunidade, 



RD - CDA tinha discutido muito sobre o conceito de desobediencia civil 
eletronica mas ainda faltava colocar tudo aquilo em pratica. Foi quando, em 
94, surgiu o Movimento Zapatista em Chiapas. Aparentemente era um 
grupo guerrilheiro tradicional, com formacao maoista-leninista muito 
parecida com a do Sendero Luminoso peruano e que saiu das florestas com 



fuzis nas maos para impor suas ideias pela forca ou morrer. O grupo, 
formado por 28 comunidades de origem maia, declarou autonoma a regiao 
de Chiapas e queria negociar direitos aos povos indfgenas do pafs. Nao 
existiam muitas diferencas entre os Zapatistas e outros grupos guerrilheiros 
do passado recente ou presente e, provavelmente, o governo mexicano os 
teria massacrado cedo ou tarde se, em 12 dias de luta, eles nao tivessem 
mudado da agua ao vinho. Esse foi o tempo que os Zapatistas precisaram 
para descobrir os mecanismos da 'fabrica virtual' e reorganizar toda sua 
estrategia de luta. Assim que eles descobriram a internet, o jogo ser 
inverteu e eles ganharam um novo poder para combater o exercito 
mexicano. E isso quern afirma nao sou eu mas a Rand Corporation, um dos 
principals centres de pesquisa militar dos EUA. Os Zapatistas, em menos de 
duas semanas, se tornaram os maiores e mais fortes guerreiros da 
informacao que ja existiu na terra. 



JS - E porque eles e nao qualquer 
outro grupo armado? 

RS - Por dois motivos, 
principalmente. Porque em 94 ja 
existia concretamente o ciberespaco. 
Dentro das universidades e dos 
institutos, estudantes e professores 
ja tinham e-mail para trocar ideias, 
inclusive usando as chamadas listas 
de discussao. Voce assinava a lista 
sobre o assunto e passava a receber e a mandar mensagens para todos os 
outros assinantes ao mesmo tempo. Mas havia tambem um componente 




\ 



cultural dos Zapatistas. Eles tinham sonhado com isso antes. Eram capazes 
de conceber uma rede intergalatica, intercontinental, de luta e resistencia, 
ou como eles dizem, "as nossas forcas eletronicas"... Ou seja, em apenas 12 
dias eles perceberam que nao precisavam mais lutar a velha guerra 
moderna, de morrer e matar. Eles perceberam que existia uma outra 
maneira mais eficiente que e a guerra de informacao, que quer dizer 
simplesmente uma guerra de palavras... 

JS - Como essas comunidades, sem ter nem luz eletrica, conseguiram chegar 
ate os computadores e de la para as redes? 

RD - Chegavam e chegam ainda, primeiro a pe pela floresta, ate encontrar 
alguem que tenha um cavalo, de la ate a estrada, depois de carro ate a 
cidade. E mesmo sem luz eletrica, se tornaram a mais poderosa 
comunidade da guerra de informacao do planeta. Em 99, a Wired, a 
principal revista do mundo digital nos EUA, publicou uma lista com o nome 
das 25 pessoas ou organizacoes mais influentes on-line. A primeira era Bill 
Gates e a segunda, um bando de indios maia do sul do Mexico. Comparando 
as posses de um e de outro, fica claro como os Zapatistas entenderam bem 
o funcionamento do ciberespaco... Hoje, fala-se muito de 'adaptabilidade', 
que as companhias devem se adaptar rapido ao novo mercado. Essa, para 
quern nao sabe, e uma contribuicao dos Zapatistas a economia digital... 

JS - Qual era o conteudo dessas mensagens que eles comecaram a passar? 

RD - Bom, sao cartas de todo tipo, milhares e milhares que eles mandam 
todos os dias. E nao sao notinhas mas cartas longas, que formam livros. 
Muitas sao historias para criancas. Os assuntos mais recorrentes sao o mar, 
a lua, a tecnologia maia, o efeito dos sonhos. Tern tanto livro que eles 
brincam dizendo que se os empilhassem, daria para chegar a lua... 



JS - E a primeira vez que eu estou ouvindo que os Zapatistas escrevem livros 
e ainda mais nesse ritmo alucinante. Por que isso nao chega aos jornais? 

RD - Porque as mensagens nao sao mandadas para os jornais. Elas circulam 
entre comunidades autonomas ao redor do mundo, na Italia, na Coreia do 
Sul, na Australia, na Austria. Sao os Zapatistas virtuais que recebem essa 
literatura e passam a diante. Nao precisamos do New York Times para 
traduzir e publicar nossos textos. Tudo existe dentro da rede. Eles, os 
Zapatistas de Chiapas, sao revolucionarios pos-modernos, os primeiros 
revolucionarios virtuais. Sem ter conectividade, nem laptops, nem celulares, 
eles me ensinaram em 1994 o que era desobediencia civil eletronica. Eles 
foram capazes de criar e abastecer uma rede de informacao que contava 
com infinitas mensagens de e-mail e centenas de sites. 

JS - E quanto tempo levou entre o surgimento dos Zapatistas e a criacao do 
Eletronic Disturbance Theater (EDT)? 

RD - Eu entendi a mensagem deles quase instantaneamente. Ja fazia parte 
do Critical Art Ensemble e assim que soube dos Zapatistas, comecei a 
participar de protestos nas ruas de Nova York em favor dessa causa, fazer 
greve de fome na frente da Embaixada do Mexico. Urn desses atos foi uma 
performance virtual chamada de 'Rabinal Achi/Zapatista_Port_Action at 
MIT'. Durante 4 meses, em 96, eu fiz 3 horas semanais de entrevistas com 
Zapatistas ao redor do mundo. O sinal de voz era retransmitido ao vivo para 
o site do MIT, o Massachusetts Institute of Technology, que disponibilizava o 
material ao publico. Tambem em 96, urn analista financeiro do Chase 
Manhattan soltou urn memorando interno dizendo que apesar dos 
Zapatistas nao oferecerem nenhum perigo a economia mexicana ou a Wall 
Street, o movimento estava provocando uma depressao no mercado e por 
isso ele recomendava a sua erradicacao imediata. E isso mesmo, o Chase 
estava ordenando: Ataque! Esse documento vazou e urn dia depois deu o 



ter recebido, o presidente Zedillo do Mexico autorizou o primeiro ataque 
massivo aos rebelados de Chiapas. Mas nos, os Zapatistas virtuais, 
respondemos imediatamente mandando o memorando para o New York 
Times, para toda a imprensa. Fizemos atos publicos e distribuimos muitas 
copias do documento borrado de tinta vermelha. Resultado: em tres dias o 
exercito mexicano suspendeu a ofensiva e recuou. Por causa dessas e de 
outras atividades, muitas pessoas entraram para as nossas listas de 
discussao. Foi dessa rede que nasceu o EDT. 

JS - Por que o nome 'teatro'? 

RD - Porque e no teatro que voce cria um drama; a causa dos Zapatistas e 
um drama social. Eu acredito no teatro que e invisivel e que propoe uma 
situacao, leva a questao para a comunidade, e deixa as pessoas da 
comunidade se tornam os personagens. Tudo que voce faz e oferecer para 
eles o palco e a internet e justamente um palco para o dialogo publico. Os 
nossos atos nao sao para agradar. Estamos descontentes e demonstramos 
isso. De repente, outros ativistas nos atacam dizendo que isso que fizemos e 
pessimo. Os hackers dizem o mesmo. New York Times diz o mesmo. 
Pentagono diz o mesmo. Mas porque e pessimo, surge o dialogo entre as 
pessoas, a troca de informacoes para saber se o que a gente faz e legal ou 
ilegal. O resultado, apesar de muitas vezes doloroso, e sempre positive 

JS - Voces ja se conheciam antes? 

RD - Nos nao nos conheciamos e ate hoje, quase cinco anos depois da 
criacao do EDT, eu ainda nao conheco pessoalmente um dos membros, o 
Brettt Stalbaum, que mora em San Jose, na California. Conheci o Stefan 
Wray de cara porque ele estava fazendo o curso de doutoramento na 
Universidade de Nova York sobre a desobediencia civil eletronica. Mas a 
criacao do grupo veio mais tarde, em decorrencia de um ataque paramilitar 



a uma aldeia maia em Chiapas. Esses assassinos, treinados e armados pelo 
governo mexicano, mataram a sangue frio 45 mulheres e criancas em 22 de 
dezembro de 97. Os policiais que estavam a um quarteirao do local 
declararam que nao ouviram nada, nenhum tiro de fuzil, nenhum grito de 
gente sendo esquartejada. Logo depois do Massacre de Acteal - Acteal era o 
nome da vila - recebi um e-mail de uma net-artista de Boston chamada 
Carmin Karasic. Carmin trabalhava no MIT e tinha lido meus artigos e 
acompanhado a performance que eu fiz no site do MIT. Ela queria os nomes 
dos indigenas assassinados para fazer um monumento virtual de protesto. 
Estavamos todos revoltados e todos da lista trocavamos muitas mensagens 
discutindo formas de responder aquele ato imbecil. Recebi tambem uma 
mensagem do Anonymous Digital Coalition, que e um grupo italiano, 
propondo que todos nos fossemos ao site do presidente mexicano, que era 
o sr. Ernesto Zedillo, num mesmo periodo, e ficassemos refrescando nossos 
browsers para sobrecarregar o sistema e tira-lo do ar. Nisso, o Brett , que 
trabalha para o Cadre Laboratory of New Media ( switch.sjsu.edu ), escreveu 
dizendo que ele criaria um aplicativo para fazer os nossos navegadores 
ficarem recarregando sem parar a pagina do sr. Zedillo. Juntamos essas 
ideias e colocamos em pratica o protesto em 10 de agosto de 98... 

JS - Acho que nao entendi. Como e que funcionava esse protesto? 

RD - E simples. A Carmin construiu o monumento as vitimas do Massacre de 
Acteal, contando quern eram as pessoas que tinham morrido e porque elas 
foram mortas . No servidor em que o site-monumento estava hospedado, 
colocamos o aplicativo do Brett. Esse aplicativo contava o numero de 
pessoas que visitavam o site. Para cada pessoa que visitasse o monumento, 
o aplicativo mandava um sinal eletronico ao site da presidencia mexicana. E 
como se essas pessoas estivessem acessando o site do presidente. sinal 
bate na porta do endereco virtual do sr. Zedillo e pede um documento. Um 
segundo depois, bate de novo e pede o mesmo documento. Imagina o que 



acontece quando 28 mil pessoas fazem isso ao mesmo tempo durante 4 
horas. sistema cai, e foi o que ocorreu. Veja bem que este e o exemplo 
tipico de desobediencia civil eletronica. O ato foi pacifico, nao destruiu 
banco de dados, e as pessoas que organizaram o movimento nao eram 
anonimos. Apenas, como fez Gandhi, nos sentados na porta do site... Mais 
uma vez os Zapatistas mostraram o poder de sua rede, que e um poder 
totalmente descentralizado. Nao tern ninguem dando ordens. O 
comandante Ramona nao fala para a gente: facam isso, nao facam aquilo. 
Por isso e pos-moderno, porque nao tern centro nem periferia. E o campo 
perfeito para a guerra de informacao. 

JS - E o que aconteceu depois desse protesto? 

RD - Durante 4 horas, quern tentasse acessar o site do sr. Zedillo recebia a 
seguinte mensagem: "Nesse momento nao podemos abrir esta pagina. Por 
favor, volte mais tarde". Isso naturalmente chamou a atencao da imprensa e 
no dia seguinte estavamos de novo no New York Times. Nessa altura o 
grupo do Eletronic Disturbance Theater estava formado. Eramos Carmin, 
Brettt, Stefan Wray e eu. Agora que tinhamos descoberto o meio de por em 
pratica a desobediencia civil pela internet, planejamos mais performances 
ao longo do ano. Os nossos objetivos eram criar os protocolos para a 
desobediencia civil eletronica na pratica e nao mais na teoria, informar a 
sociedade sobre esse assunto, ajudar outros grupos a realizar protestos 
virtuais, e desenvolver o dialogo entre hackers, 'hacktivistas' e net-artistas. 

JS - Alem do compromisso de promover apenas atos pacifistas, quais sao os 
outros elementos da etica do EDT? 

RD - Comeca com a questao da transparencia. Sempre informamos quern 
somos, onde estamos, onde e porque vamos agir, quanto tempo vamos ficar 



la. O Sr. Pentagono, se precisar, tem os nossos numeros de telefone e e-mail 
ao alcance da mao. 

JS - E qual a resposta do publico aos atos do EDT? 

RD - A pior possivel, gracas a Deus! Ainda em 98 fizemos mais dois protestos 
virtuais, trabalhamos durissimo para organizar os eventos, e fomos tambem 
muito atacados, por todos os lados, pelo que eu chamo de comunidade 
'digitalmente' correta. Isso porque a coisa mais importante da internet e a 
velocidade de acesso e o nosso trabalho consiste exatamente no oposto, ou 
seja, em travar a rede. Para os digitalmente corretos, a velocidade de 
conexao e tudo. E a nossa mensagem e: atencao, todo mundo para o meio 
da rua! Muitos pensaram que a gente estava fazendo alguma coisa ilegal. 
Mas de novo, nos faziamos performances pacificas e sempre de forma 
transparente. Mas mesmo os hackers, no principio, ficaram contra nos 
porque para eles, vale tudo, menos congestionar a rede. 

JS - Voces fizeram mais dois atos em 98. Como foram esses atos? 

RD - Foram semelhantes ao primeiro. Cada urn deles homenageou urn 
momento importante da trajetoria do Movimento Zapatista. A ultima 
performance aconteceu na cidade de Linz, na Austria, no Ars Electronica 
Festival ( web.aec.at/infowar/index.html ) que foi criado em 1975 e e o mais 
antigo do genero. O tema de 98 era justamente guerra de informacao e o 
EDT foi convidado. Decidimos fazer urn protesto paralisando tres sites, o do 
Sr. Zedillo, que era de praxe, o do Pentagono, pelo envio 25 helicopteros 
Hueys para o governo do Mexico supostamente combater o narcotrafico e 
que foram direto para Chiapas, e da Bolsa de Frankfurt, porque la eram 
negociadas acoes de empresas que estavam interessadas em comprar minas 
de uranio em Chiapas. (Alias, e essa a funcao do NAFTA, permitir que essas 
empresas entrem em territorio indigena.) No dia da performance, 



estavamos todos no hotel e as 7:30 da manha eu recebi um telefonema no 
meu quarto. A pessoa perguntou se eu era Ricardo Dominguez, eu disse que 
sim, entao ele falou em espanhol claro: "Mira, Ricardo, sabemos quien eres, 
sabemos que vas hacer. No lo hagas, porque esto no es un juego". 

JS- Foi um bom-dia, digamos, encorajador... 

RD - E era so o comeco. Logo que eu desci do quarto para o saguao do hotel, 
um grupo de hackers que estava no festival me cercou e me deram o 
mesmo recado do governo mexicano: desista do ato ou nos vamos te tirar 
do ar. Eles tambem eram contra prejudicar a velocidade de conexao... Alem 
disso, porque anunciamos que tirariamos do ar ao mesmo tempo o site do 
Pentagono, da Bolsa de Frankfurt e do presidente do Mexico, o hotel estava 
lotado de jornalistas que queriam cobrir a performance. Nesse clima de 
tensao e expectativa, comecamos o ato. Duas horas depois, percebemos 
que algo estava errado. Os computadores das pessoas que estavam 
participando do ato comecaram a travar e, como eu disse, o nosso aplicativo 
nunca travou o sistema de ninguem. Para nos, os hackers estavam nos 
atacando. Mas como explicar isso para milhares de pessoas e mais 
jornalistas. Ate os organizadores do festival estavam nas nossas orelhas 
reclamando e dizendo que sabiam que nao ia dar certo, que eramos 
irresponsaveis. Um desastre! Bom, uma hora e meia depois, o ato ja tinha 
terminado, recebemos um telefonema da revista Wired.com. Eles diziam 
que tinham confirmado que o ataque a nossa performance tinha saido do 
Pentagono. Do Pen-ta-go-no! E de fato, quando examinamos o codigo da 
pagina deles, achamos o aplicativo que estava causando a travacao em 
todos os computadores. Esse foi o primeiro caso registrado que Forcas 
Armadas dos EUA usaram armas de guerra de informacao contra um 
servidor civil. O que, por sinal, e contra a lei. 

JS - E voces tomaram alguma providencia? 



Eles passaram vergonha porque no dia seguinte estavamos todos na capa do 
New York Times. Levamos o caso para o Departamento de Direito Eletronico 
de Harvard mas so nao foi adiante. 

JS - Esse foi o ultimo ato do ano? 

RD - Nao, foi a ultima performance. Terminamos aquele ano celebrando o 
quinto aniversario do surgimento do Movimento Zapatista lancando, um 
minuto depois da meia-noite, o kit com o aplicativo e o manual para a 
execucao de disturbios eletronicos. Muita gente estava nos procurando, 
querendo saber como fazer protestos virtuais, e para comemorar a data e o 
ano novo, mandamos o kit para todos em nossas listas. Vinte minutos 
depois, o grupo Queer Nation (Nacao gay), da California, congestionou o site 
www.godhatesfags.com (Deus odeia os viados), do Canada. Logo depois, o 
International Animal Liberation, de defesa dos direitos dos animais, fez um 
ato contra uma empresa de medicamentos da Suecia, que desligou todo seu 
sistema por medo do que poderia acontecer. Ativistas anti-armas tambem 
paralisaram o sistema de comerciantes de armas pela internet. Esse foi o 
nascimento do 'hacktivismo' ou do ativismo no ciberespaco. 

JS - Outra momento importante para os hacktivistas foi a vitoria contra a 
www.Etoys.com, nao foi? 

RD - Sem duvida! Foi o ponto maximo, eu diria. Ninguem da comunidade 
digital esperava um ato de selvageria tao explicito como aquele. 

JS - Voce pode contar o que aconteceu? 

RD - A Etoys.com, gigante da internet e revendedora de brinquedos, atacou 
atraves da corte dos Estados Unidos um pequeno site de artistas suicos 
chamado Etoy.com (sem S). Detalhe: Etoy existia desde 94 e era famoso 



entre os net-artistas. Em 99, Etoys usou seu dinheiro e o sistema judiciario 
americano para roubar o dominio 'Etoy' dos artistas suicos. A mensagem dos 
EUA para a comunidade internacional era que a partir daquele momento, as 
leis americanas regulamentavam a internet. Acontece que a comunidade da 
internet nao concorda com essa postura, inclusive porque a ideia de 
internet pressupoe que ela seja um espaco sem fronteiras. que a 
Etoys.com nao contava e que nos tinhamos uma longa experiencia em 
desobediencia civil eletronica. Fizemos um protesto de 12 dias 
congestionando o site da Etoys bem no fim de ano, quando as pessoas 
compram mais brinquedos, e cada dia o preco das acoes deles caia mais. Em 
Janeiro, a situacao deles estava tao preta, com as acoes totalmente 
desvalorizadas, com a imprensa do nosso lado, que eles capitularam. 
Levantaram a bandeira branca! Nao so devolveram o dominio do nome Etoy 
para os suicos como pagaram todos os custos do processo e ainda pediram 
desculpas publicamente. Este e o conceito de desobediencia civil eletronica 
funcionando! Porque a pequena Etoy nao tinha como lutar contra o 
adversario americano, mas a rede levantou tanto a voz e a causa dos suicos 
que eles ganharam um poder de fogo fantastico! Somos como um enxame 
de abelhas atacando um gigante... Inclusive uma das coisas que as empresas 
de e-commerce se esquecem no delirio de consumo delas, e que existe uma 
outra rede, uma outra sociedade que nao funciona dessa forma, e que essa 
sociedade e extremamente inteligente, e que agora tern poder por causa da 
internet. 

JS - E qual e o legado que voces deixam para a rede? 

RD - Acho que varios. Para comecar, uma coisa que esta me entusiasmando 
muito e a politizacao dos hackers. Ha duas semanas, o grupo hacker 2600, 
que e um dos maiores do mundo, nos convidou para falar em sua convencao 
anual, que foi aqui em Nova York. Dois dos paineis mais importantes do 
evento eram: hacktivismo e desobediencia civil eletronica. Esses caras sao 



duros de convencer. Mas demonstraram que estao conscientes e que veem 
com muita seriedade o que fazemos. Alem disso, existem outros grupos 
surgindo pelo mundo espelhados na nossa pratica, como os Electrohippies 
na Gra-Brettanha, o Federation of Random Action na Franca. Recentemente 
um novo grupo foi criado na Australia chamado S-ll. Para protestar contra 
uma reuniao da OMC (Organizacao Mundial do Comercio), marcada para 
setembro desse ano num cassino de Melborne, eles 'sequestraram' o 
dominio da Nike. Com isso, todas as pessoas que iam a www.nike.com num 
dia determinado, entravam num site sobre a condicao dos trabalhadores 
das fabricas da Nike no Sudeste Asiatico... A pratica e a mesma do EDT: 
ninguem saiu ferido e o patrimonio do site nao foi violado. E assim que eu 
analiso esse ato e eu o considero muito inventive.. 

JS - EDT tambem foi convidado para se ir falar no Pentagono. Como foi a 
experiencia? 

RD - Ao Pentagono e as Agenda Nacional de Seguranca (Nacional Security 
Agency) dos EUA tambem, nao se esqueca... A experiencia foi divertidissima! 
Fizemos uma performance de uma hora e meia com DJs e apresentando 
videos para contar a historia dos Zapatistas sobre a tecnologia maia. 
Falamos quern somos, porque fazemos o que fazemos e, em resumo, o que 
ouvimos deles, de mais de 400 generais e congressistas americanos, e que 
temos um "pacto com o demo" e que ainda vamos provocar "a invasao 
virtual de Pearl Harbor"! Ao que eu respondi da seguinte forma: "Veja, 
senhores, se isso fosse verdade, eu nao estaria aqui falando com voces e sim 
na cadeia. Foram os senhores que quebraram as leis e nao nos"... Eles tern 
as paranoias deles. Mas o curioso e que por causa disso eu estabeleci um 
dialogo com grupos dessas organizacoes, o que para mim e fantastico! 
Quern nao quer ter contatos no Pentagono? 

JS - Alem dos Zapatistas, quais outros movimentos estao em contato com o 



EDT 



para 



organizar suas guerras de informacao? 



RD - Bom, temos contato com as comunidades do Timor Leste, com o 
movimento estudantil da Indonesia (que derrubou o presidente Suharto do 
ano passado), com o movimento pro-democracia na China, com as 
comunidades tibetanas, com as comunidades indigenas do Peru e Colombia 
que vem sendo atacados por multinacionais do petroleo, com o povo de 
Okinawa que esta mobilizado contra a reuniao do G-8, com os aborigenes 
australianos que lutam contra a construcao de usinas atomicas nas terras 
deles, entre outros. 

JS - Voce sabe se o movimento dos Sem-Terra no Brasil esta usando esses 
recursos? 

RD - Eu acho que ainda nao. Pelo menos eles nunca entraram em contato 
comigo, enquanto os grupos que eu mencionei fazem parte da nossa 
comunidade. A proposta do EDT e oferecer ferramentas e tentar chegar a 
comunidade que fala portugues para que os Sem-Terra e outros grupos 
brasileiros passem a usa-las e assim aumentar ainda mais o volume da voz 
deles. 

JS - E onde eles podem conseguir essas ferramentas? 

RD - Eles podem entrar em contato comigo. Meu e-mail e rdom@thing.net . 
Estamos tentando colocar essas ferramentas num site mas os governos nao 
concordam porque consideram o nosso kit armas de terrorismo. Estamos 
trabalhando para, nos proximos meses, colocar tudo na Freenet. E um novo 
sistema que esta sendo desenvolvido que vai ser virtual, ou seja, nao vai 
estar hospedado em nenhum servidor. Uma vez que voce carrega um 
arquivo, nao e possivel tirar de circulacao. Dessa forma as pessoas poderao 
encontrar essas ferramentas mais facilmente. 



JS - O que voce ve no future proximo para os hacktivistas? 

RD - Acho que a ideia esta frutificando. Especialmente agora que a 
comunidade hacker esta encarando esse dialogo, que na minha opiniao vai 
florescer, ficar mais forte. A chamada 'democracia html' deve popularizar 
mais o hacktivismo, tornando o conceito e as ferramentas mais proximas do 
grande publico, de modo que protestos virtuais devem se tornar tao comuns 
como mandar um e-mail ou visitar um site. Uma pessoa nao tern mais que 
ter conhecimentos especiais ou saber da infraestrutura da rede para 
participar do dialogo. Esse era o nosso objetivo e eu acho que esta 
caminhando para o rumo certo. 

URL da homepage de Ricardo Dominguez: www.thing.net/~rdom 

URL do Eletronic Disturbance Theater: www.thing.net/~rdom/ecd/ecd.html 

URL do Critical Art Ensemble : www.critical-art.net/ 

Texto tirado do site de cinema Mnemocine ( www.mnemocine.com.br ) 



HACKLABS, DO DIGITAL AO ANALOGICO 

Nomada e Montserrat Boix (Suburbia :[Telemacktical MediaZine]) em 
colaboracao com Mentes Inquietas 



/wUcVqbb 




a col lect if s . net 



A historia dos hacklabs remonta a 1999, ano da segunda edicao do 
hackmeeting italiano celebrado em Milao onde se discutiu a necessidade de 
dar urn salto para a comunicacao digital e criar vinculos fisicos entre as 
pessoas interessadas no uso das novas tecnologias com urn fim social. 

Mas vamos por partes... que e urn hackmeeting ?... Os hackmeetings ou 
"encontros de hackers" surgem na Italia no ano de 1998. O manifesto do 
hackmeeting 2003 italiano destaca que se trata de urn "encontro da 
comunidade e da contracultura digital" estabelecendo uma "visao do 
hacking como atitude nao exclusivamente informatica". Nosso ser "hacker" 
- diz o manifesto - "se mostra na cotidianidade mesmo quando nao usamos 
computadores. Ele se mostra quando lutamos para mudar tudo aquilo que 



nao gostamos como a informacao falsa e pre-fabricada, a utilizacao da 
tecnologia para ofender a dignidade e a liberdade, a mercantilizacao e as 
restricoes impostas ao compartilhamento do conhecimento e do saber". Sao 
convocados anualmente, costumam ter uma duracao de tres dias durante os 
quais sao organizadas oficinas, debates e conferencias relacionadas com o 
mundo da telematica liberada, do software livre, dos ciberdireitos, da 
criptografia y do hacking em geral e, sobretudo, se estabelecem com um 
forte elo de uniao com coletivos sociais que utilizam a rede como um espaco 
de comunicacao, divulgacao e luta por suas causas. 

Logo se coloca a necessidade, todavia, de que alem do encontro anual e do 
contato atraves das redes telematicas se criem espacos fisicos permanentes, 
espacos autonomos onde se possa experimentar, criar e aprender junto a 
outras pessoas com inquietacoes semelhantes. Surge assm o primeiro 
hacklab, o LOA hacklab . Em seguida, o virus vai se porpagando e comecam a 
se espacos por toda a geografia italiana e a proposta atravessa as fronteiras. 
Os hacklabs (laboratories de hackers) proliferam especialmente nas grandes 
urbes... "porque acaba por ser pouco util e mesmo triste experimentar 
solitariamente aquelas coisas que podes fazer facilmente com outros; 
porque nao queremos nos isolar mas o total oposto, do mundo que nos 
rodeia; porque o quarto de cada um@ e pequeno demais para montar redes 
de computadores; porque o digital nao substitui o organico; porque e 
prazeroso aprender e fazer coisas junt@s", se assinala na web do hacklab de 
Madrid wh2001, alias Cielito lindo. 

Nao e fruto do acaso que a iniciativa surja neste pais mediterraneo, com 
uma forte presenca e um longo percurso de movimentos sociais e radios 
livres. Naqueles dias ja existiam coletivos telematicos autonomos de grande 
repercussao e que cubriam as necessidades de presenca na rede a todo tipo 
de organizacoes civis. Grupos como Autistici, Isolle Nella Rete, experimentos 
comunicativos na Internet como Radio Blackout, Strano Network, etc... 




Mais tarde, repetindo-se a aventura italiana na Espanha durante o 
Hackmeeting de Leioa em Bilbao , se apresenta o primeiro hacklab 
(espanhol) : o Kernel Panic , um local aberto no CSOA (Centro Social 
Okupado y Autogestionado) do "Les Naus" em Barcelona. Depois, nasce o 
WH2001 (Wau Holland 2001, prestando homenagem ao recente falecimento 
do fundador do Caos Computer Club), o Metabolik BioHacklab em Bilbao, o 
Downgrade em Zaragoza, a Cuca Albina em Alicante, o VkLab no bairro 
madrilenho de Vallecas, o hacklab da Casa Encantada de Santiago de 
Compostela na Galicia...e os que ainda estao sendo gestados em diversos 
povoados. 

Os passos para a abertura de um local sao multiplos e variados e neles se 
valoriza a busca de autonomia e independencia, o aluguel de um local ou o 



uso de espacos dentro de Centros Sociales Autogeridos sao as opcoes mais 
frequentes. Todos eles sao autogeridos, pelo que as decisoes sao tomadas 
em assembleias periodicas onde qualquer participante do hacklab pode 
decidir e opinar sobre qualquer tema. O objetivo e nao cair em uma 
organizacao piramidal e apostar na horizontalidade das decisoes e 
atividades seguindo um modelo de cooperacao sem comando. 

Um elemento chave e a auto-suficiencia. Para manter esta capacidade, os 
hacklabs se auto-finaciam com a venda de camisetas, distributes de 
software livre, venda de refrescos, festas e as contributes individuals de 
cada um dos membros ao projeto, numa cota simbolica segundo a economia 
pessoal. Freqiientemente, sao descartadas as subvencoes municipals para 
associates, pois isso poderia supor a perda da independencia em seu 
funcionamento. 

Todos os hacklabs contam com uma rede local com saida ADSL para 
Internet, onde se oferece acesso gratuito a toda pessoa que queira utilizar 
as instalacoes. Habitualmente, sao utilizados computadores reciclados ou 
recuperados das garras da trituradora de lixo e como a difusao do software 
livre e uma das principais causas, todos eles rodam sistemas livres tipo *BSD 
e GNU/Linux. 

Os hacklabs oferecen um campo pleno de possibilidades e iniciativas abertas 
e sem travas a colaboracao de todas aquelas pessoas que queiram participar 
no coletivo. Nao tern diferenca se for "hacker" experiente ou uma pessoa 
que nunca soube usar o correio eletronico... so que se deve entrar nestes 
espacos "magicos" com os desejos e a positividade de criar e aprender com 
@s demais. 

Com a perspectiva de mudar as coisas para melhor e de apoiar a livre 
circulacao e distribuicao do conhecimento, os hacklabs oferecem oficinas e 



cursos relacionados com o amplo espectro que as novas tecnologias 
oferecem : redes, programacao, design grafico, etc... todos eles, 
supostamente, usando sistemas livres. Fomentar o uso do software livre e 
um objetivo inegociavel dos hacklabs. 




E nesse campo de cultivo pessoal e cooperativo onde nasce um 
compromisso social e politico. Mas nao nos confundamos... nao estamos 
falando de politicas ou ideologias partidarias. Trata-se da necessidade de 
melhorar a convivencia e a qualidade de vida de todos e todas, de valorizar 



o coletivo e da necessidade de uma democracia real e ativa. Da uniao das 
palavras "ativismo" e "hackers" surge "hacktivismo", uma nova maneira de 
estabelecer a luta cidada. 

O assedio a que nos vemos submetidos face a decisoes tomadas em 
escritorios de grandes corporacoes interesseiramente apoiadas pelos 
governos nos faz ser, na uniao, mais capazes de reagir frente a eles. E 
surgem todo tipo de iniciativas para lutar pelo que consideramos legitimo e 
de bem comum, discutindo-os e nos organizando dentro do terreno em que 
melhor nos movemos. Uma das ferramentas principais de comunicacao que 
utilizamos e a lista de discussao que o convidamos a participar. 

Sao varias as iniciativas que tern surgido dentro e em torno dos hacklabs 
face, por exemplo, a leis tao polemicas como a super-famosa LSSI ou o "plan 
Info". Apoiar as campanhas ja iniciadas por grupos como Kriptopolis, realizar 
debates em universidades, associates, etc... para dar a conhecer o corte de 
liberdades que supoem a implantacao destas leis, recolhimento de 
assinaturas para o cancelamento destas e posterior entrega nas proprias 
maos do ministro Pique . 

Muitas destas acoes podem ser consideradas talvez como insignificantes e 
ineficazes, mas sem duvida e pior ficar com os bracos cruzados e nao fazer 
nada para evita-lo. Se se fomenta a resposta cidada de una maneira original 
e criativa, estamos convencid@s em grande parte que podemos dar "a volta 
por cima" em muitos casos. 

Nesse sentido, os hacklabs nao sao fechados para ninguem que chegue com 
iniciativas e boas ideias. E, por isso, normal a participacao nos locais de 
membros de outros coletivos afins. Comunidades de redes cidadas sem fio 
(wireless) como GuadaWireless.net ou ZaragozaWireless, associates 
dedicadas aos objetivos do software livre como GNU-es , HispaLinux e as 



diversas comunidades GNU/Linux que existem em todas as cidades e 
provfncias; grupos defensores dos ciberdireitos como CPSR-ES ; coletivos 
pro-feministas como Heterodoxia e Mujeres en Red que utilizam a rede 
como ferramenta de comunicacao e mobilizacao; projetos telematicos 
antagonistas como sinDominio e os diferentes Indymedias espanhois; 
grupos hacktivistas como RunLevelZero/Hactivist Spain; e grupos que se 
movem num campo mais underground como LineNoise y DtfZine, etc... se 
encontram em torno, e muitos deles participam ativamente, dos hacklabs. 

Sao muitas as iniciativas e acoes que ja tern sido desenvolvidas ate o 
momento : 

As "Jornadas Wireless", celebradas no mes de julho para o encontro, debate 
e visibilidade das diversas comunidades wireless do Estado espafiol, 
convocadas e organizadas a partir dos hacklabs Metabolik e VKIab . 

A partir do hacklab Kernel-Panic se reinventaram as acoes de rua do grupo 
ativista global Reclaim the Streets (urn grupo que organiza festas de rua 
espontaneas, reinvindicando a criacao e a recuperacao de espacos publicos 
invadidos por centros comerciais, auto-estradas, etc..) no "Hacking in the 
Streets" . Esta acao ja foi adotada em outros hacklabs. O objetivo e okupar 
ruas ou espacos com computadores... Organiza-se uma festa, sao dadas 
palestras, se distribui software livre, se mostra o uso do software livre na 
criacao de redes cidadas sem fio, se alerta sobre o perigo das patentes, etc.. 
Uma boa oportunidade de comunicacao e inter-relacao para hacklabistas e 
transeuntes. 

O Metabolik invadiu o espaco do lt4AII, um congresso de grandes 
companhias da industria das telecomunicacoes e da computacao. Em tal 
acao, um hacktivista disfarcado de um simpatico pinguim (mascote do 
movimento Linux) distribuia panfletos para o publico do congresso, tudo 



isso enquanto outro grupo convidava participantes a se conectarem 
gratuitamente na Internet atraves de computadores em wireless que 
rodavam Debian GNU/Linux. Esta acao foi batizada de 
"Money4them"(dinheiro para eles) e com ela se pretendia demonstrar e 
denunciar que outras tecnologias sao possiveis, criadas alem disso pela 
cidadania como resposta aos interesses economicos e politicos das grandes 
corporacoes. 

A primeira comunidade wireless do territorio espanhol: madridwireless.net, 
nasceu da ajuda do hacklab wh2001. Este importante grupo que aposta na 
criacao de redes cidadas sem fio participa ativamente nas dinamicas dos 
hacklabs. O wh2001 se converteu assim num ponto de encontro onde se 
ensina a construcao de antenas, a criacao de nodos wireless, etc e se discute 
sobre a organizacao da rede metropolitana que pouco a pouco vai 
crescendo. Quando uma pessoa toma contato com o madridwireless, 
descobre nao apenas as possibilidades tecnicas e sociais do wifi... Descobre 
que toda essa rede nasce da livre cooperacao entre as pessoas com o 
software livre como ponto de referenda. 

Depois das Jornadas contra a propriedade intelectual organizadas em marco 
de 2003 em Madrid, se enxergou a necessidade de criar um Copisterio com 
material Copyleft . O copycenter foi criado no espaco do wh2001 e nele e 
dada a possibilidade de que qualquer pessoa possa copiar e tornar a 
distribuir todo tipo de material copyleft: musica, video, literatura, manuais 
tecnicos, revistas, software, entre outros. A proposta resulta numa mostra 
pratica das iniciativas que podem ser tomadas contra as medidas 
implantadas por associates como a SGAE e defensoras do copyright e das 
patentes. O caminho que esta se iniciando contra o livre fluxo da informacao 
e dos dados ( como as recentes denuncias contra usuarios de P2P ), esta 
levando governos pressionados por grupos de interesses a atentar contra a 
privacidade e liberdade da cidadania. Frente a isso, a difusao das licencas 



livres como a LGPL,BSD,GPL, etc... E um caminho a tomar como arma legal 
de luta e assim evitar que nos coloquem a tod@s no "saco da pirataria 
intelectual". 

A criacao da distribuicao do Live-cd X-evian por parte do Metabolik, uma 
"distro" que poe em funcionamento um sistema GNU/Linux sem 
necessidade de instalacao no disco rfgido, e uma tentativa de fazer chegar o 
software livre a todas as pessoas que jamais se atreveram a usa-lo por medo 
e desconhecimento. Construido a partir de Knoppix, tern o valor agregado 
de poder ser utilizado em computadores antigos nao muito potentes como 
um Pentium 100 com 32 MB, permitindo usar uma infinidade de 
ferramentas multimidia de redes e programacao. 



como forma de iniciativa e protesto desde partir da perspectiva social como 
aposta de mudanca para melhor nestes "obscuros" tempos que correm. 

Traducao de Ricardo Rosas 

Este documento e livre. Ele esta sob a licenca Creative Commons . Porta nto, 
e permitido difundir, citar e copiar literalmente seu conteudo, de forma 
Integra ou parcial, por qualquer meio e para qualquer proposito, sempre que 
se mantenha esta nota e se cite a procedendo. 

Fonte: Suburbia ( www.sindominio.net/suburbia/ ). 



Entre outras acoes, a participacao ativa nos Hackmeeting ou nas jornadas de 
propriedade intelectual, em conferencias como as recentes de Richard 
Stallman em Zaragoza , la instalacao de um Centro Independente de 
Informacao para a difusao da resposta cidada contra a participacao 
espanhola na guerra do Iraque atraves de streaming via wireless e usando 
software livre, as criacoes dentro desses como a radio-pwd e o e-zine 
Suburbia ... 

O proximo encontro sera no Hispalinux 2003 onde se realizara uma mesa de 
debate sobre as dinamicas e os desafios dos hacklabs como espacos de 
ativismo social. 



Os hacklabs retomam a filosofia hacker, da liberdade da informacao, "The 
information wants to be free", e respondem com um ativismo positivo em 
relacao a imagem estereotipada e negativa criada em torno do "hacker" 
como perigo social. A criacao, a luta pelas liberdades e pela difusao do 
conhecimento sao maximas dentro da comunidade, tentando recuperar a 
essencia dos primeiros hackers do MIT ... O afa da curiosidade e da criacao 



HACKTIVISMO 

Acao Direta nas auto-estradas da informacao 

Ricardo Rosas 




Se pra voce hacker ainda e sinonimo de nerd que entende de programacao e 
so invade sites pra deixar mensagens tipo "Estive aqui" ou por puro 
vandalismo, talvez seja hora de mudar seus conceitos. Ha ja alguns anos tern 
aparecido um novo tipo de hacker no ciberespaco, um misto de 
programador e ativista social, que age nao pelo ego mas por causas 
politicas, geralmente conhecido como hacktivista. 

Especie confrontacional de cyberativismo, os hacktivistas nao sao ativistas 
de midia, como os participantes dos Indymedia (centros de midia 
independente) e outros sites de midia alternativa, pois sua atuacao equivale 
muito mais a atividade dos grupos que fazem acao direta nas ruas, so que 
agindo no espaco virtual. 



Embora se possa reportar acoes isoladas em anos anteriores, 1998, ao que 
tudo indica, foi o ano-chave para a consolidacao do movimento hacktivista. 
Foi neste ano que o hacker ingles "JF" invadiu mais de 300 sites colocando 
textos e imagens com mensagens anti-nucleares. Foi igualmente em 1998 
que surgiu o primeiro site dedicado ao tema, pelo grupo de hackers do Cult 
of the Dead Cow (Culto da Vaca Morta -www.cultdeadcow.com), a cujo 
membro "Oxblood Ruffin" e atribuida a criacao do termo Hacktivismo. 
Tambem neste ano, na tentativa de auxiliar a situacao dos Zapatistas de 
Chiapas, o grupo de Nova York Eletronic Disturbance Theater (Teatro do 
Disturbio Eletronico - www.thing.net/~rdom/ecd/ecd.html ) realizou diversas 
acoes de "Desobediencia Civil Eletronica" contra o governo mexicano, com o 
programa FloodNet, que permite repetidos dowloads num site por varias 
pessoas no mundo inteiro, congestionando o acesso. Ao longo de todo o 
ano, foram reportadas diversas acoes hacktivistas em sites da Australia, 
India, China e paises de quase todos os continentes. Desde entao, o 
movimento so fez crescer. 

Seja para protestar contra a situacao na Palestina, contra a Organizacao 
Mundial de Comercio (OMC) ou a CNN, a dominacao das grandes 
corporacoes, pornografia infantil, transgenicos ou a censura em paises como 
a China, o campo de acao dos hacktivistas e bastante vasto. O que nao 
impede, igualmente, as controversias entre os diferentes grupos em acao. 
Para alguns, por exemplo, congestionar o acesso a sites e violar a livre 
expressao. 

As taticas podem ser varias, da pura invasao no estilo do hackerismo 
tradicional, "sit-ins"* virtuais (ou net strikes) tipo o ja citado FloodNet para 



impedir acessos, programas de mensagens escondidas em imagens para 
fugir da censura (tipo o "Camera/Shy", criado pelo Cult of the Dead Cow), 
ate pichacao com mensagens anti-guerra em games online. 

Se as taticas diferem, os grupos tambem. Poderfamos distinguir, pelo menos 
tres tipos de hacktivistas. Primeiro, os grupos mais proximos dos hackers 
tradicionais, como o ja citado Cult of the Dead Cow, que sao hackers 
visceralmente anti-censura, criadores do famoso aparato hacker "Back 
Orifice", especie de "cavalo de Troia" que confisca o controle sobre a 
maquina da vitima pela Internet, e fundadores do grupo "Hacktivismo". 
Nessa mesma linha, estariam a polemica Legion of the Underground (LoU), 
que supostamente teria atacado sites chineses, mas, ao que consta, 
negaram tudo publicamente, ou ainda os brasileiros do grupo Microfobia 
que hackearam sites israelenses em protesto contra a politica na Palestina. 

Urn segundo grupo, mais intelectualizado e politicamente atuando tanto em 
terreno virtual como real, estariam grupos como os britanicos Electrohippies 
( www.fraw.org.uk/ehippies ), que participam de protestos de rua e tambem 
agem na arena virtual, tendo feito ataques a OMC ou a Monsanto, e o mais 
conhecido Eletronic Disturbance Theater, criadores do FloodNet. O EDT tern 
trabalhado principalmente pelos rebeldes de Chiapas, mas tambem ja 
entrou na batalha com o grupo de artistas europeus do site etoy.com 
contra a loja EToys, que queria tirar o dominio dos grupo e acabou 
desistindo da causa por conta das acoes hacktivistas e da consequente 
polemica na midia. Tambem atuam no campo da teoria. Ricardo Dominguez, 
urn dos fundadores do EDT, e igualmente membro do Critical Art Ensemble, 
ja conhecido no Brasil pelo livro Disturbio Eletronico, da colecao Baderna. 



Finalmente, poderfamos distinguir urn terceiro grupo que trabalharia mais 
na confluencia de ativismo, net arte e programacao de software. Esta 
mistura, que tern cada vez mais se popularizado entre artistas eletronicos e 
programadores, atualiza as questoes postas por grupos como os dadaistas e 
situacionistas, polemizando sobre questoes polfticas, direito autoral (anti- 
copyright) e interatividade. Entre outras acoes, o plagio de sites restritos 
para permitir acesso publico como fez o www.0100101110101101.org com 
sites de net arte, o apoio do RTmark ( www.rtmark.com ) a invasao de games 
violentos para colocar imagens de rapazes se beijando, ou o Knowbotic 
Research ( www.krcf.org ), que realizou em Hamburgo o "Connective Force 
Attack" (Forca de Ataque Conectiva), permitindo que a populacao da cidade, 
via CD ROMs distribuidos gratuitamente nas estacoes de metro, postasse 
mensagens suas em dominios protegidos por senha, no proprio servidor de 
Hamburgo. 

Variadas como parecam ser, as acoes hacktivistas se guiam sobretudo pela 
luta pro-liberdade de expressao, pelos direitos humanos ou uma maior 
justica social e politica. Na esteira destes tempos de tantas e imprevisfveis 
mudancas, esta nova faceta da atividade hacker so faz ampliar os horizontes 
de atuacao de uma pratica que parecia fadada a uma "gloria" pessoal de 
adolescente, nao muito distante daquelas das gangues de pichadores 
urbanos. Abrindo-se para os problemas mais candentes da nossa sociedade, 
essa cria mutante da tecnologia finalmente se humanizou e, quern sabe, 
chegou a idade adulta. 



*Sit in e uma pratica nao-violenta de protesto de rua em que as pessoas se 
sentam barrando a passagem ou entrada/safda de vefculos ou pessoas. 

Conheca alguns sites dedicados ao Hacktivismo: 
www.thehacktivist.com 

www.hacktivismo.com 

www.collusion.org 

Esta materia apreceu originalmente na Revista PLAY n Q 6 
( www.pl4y.com.br ). 



HACKTIVISMO BRASILEIRO 

ENTREVISTA COM SUB-SYS DO GRUPO MICROFOBIA 

Por Carter (Centra de Mfdia Independente) 

Como comecou o grupo e por que essas posicoes rebeldes que o grupo 
vem assumindo? 

O grupo surgiu no Brasil em meados de 1999, e nao tomamos nenhuma 
posicao rebelde. Nossa posicao e apenas etica, e no nosso meio chamamos 
isso de hacktivismo. Essa ditadura empresa.rial, acoplada ao mau 
desenvolvimento tecnologico, vai nos levar a um cenario como o inicio do 
filme Exterminador do Futuro, onde robos matavam pessoas para assegurar 
interesses de grandes corporacoes. 

O grupo possui membros de paises como Arabia Saudita, Africa do Sul e 
Cuba. Como essas pessoas chegaram ao grupo? 

Sinceramente eu nao sei bem, mas nao foi sempre que fomos homogeneos, 
e ainda nao somos completamente, mas conseguimos mostrar pro mundo 
que na America Latina existe um grupo que faz hacktivismo de verdade. 
Acho que muitos admiram nossas posicoes, mas nao acreditam que podem 
ajudar, e isso nos faz falta em alguns momentos. Eu desejo que todos que se 
interessem facam contato conosco, e venham pro Microfobia. 

Voces tambem mantem relacoes com grupos venezuelanos e russos, 
segundo eu pude ver no site. Como se dao essas relacoes? 



Os venezuelanos sao nossos irmaos. O Darkd do HVEN e um cara nota 10 e o 
russo Saiprex tambem. Os chineses tambem fazem muitas coisas conosco, 
mas a comunicacao nao e tao boa. Nossas relacoes com esse pessoal 
englobam muita coisa, desde virus a jogos online. 

Recentemente o grupo ganhou espaco na midia por comandar um 
movimento de hackers contra Israel. Quais foram os objetivos desse 
movimento? 

Na verdade nao fomos somente nos q tomamos a ponta nesse movimento. 
Existem outros grupos que possuiam mais zumbis do que nos nos ataques 
de DoS, que deixaram muitas maquinas da rede israelense paradas. Nosso 
objetivo e o mesmo que cada cidadao. Se eu fosse um sapateiro, ou eu 
mandaria um sapato bomba pro Sharon, ou daria sapatos aos palestinos. 
Cada um ajuda da maneira que pode. Eu fiquei muito admirado quando 
conheci um cara chamado Latuff. Ele faz uns cartuns muito legais, e inclusive 
usamos nas duas das 3 vezes que tivemos acesso fullcontroll a pes da rede 
sionista. 

A pouco mais de uma semana, um assessor do gabinete de seguranca 
israelense disse que Israel iria exigir atitudes dos paises, apos identificar os 
responsaveis por ataques. Voces tiveram algum problema? 

Eu sei que ele disse isso. Na verdade, ele devia era esquecer a Microsoft e 
passar aquela rede todinha pra sistema Unix, ao inves de ficar fazendo 
ameacas. Tiveram membros de grupos que perderam provedores de acesso, 



e por pouco nao se enrolaram, mas eu diria que daqui no Brasil, esse 
assessor vai ter mesmo que vir nos buscar. 

Qual foi o balanco de todos esses ataques? 

Bern, nao temos um balanco exato, mas posso te dizer que muitos sites e 
redes de Israel safram do ar devido ao grande numero de ataques de 
diversos grupos. Nos agimos com mais 3 grupos e, comecamos realizando 
um ataque de DoS, que contava com mais de 300 micros zumbis. Demos o 
maior trabalho aos caras que nao conseguiam transmitir nada nesse 
periodo. Dias depois apos tentativas frustradas de invasao, ja que a rede e 
muito bem protegida, vimos que o site do governo de Tel Aviv ja havia sido 
invadido em uma outra ocasiao, entao analisamos, ate achar falhas, dai foi 
possivel acessar outras maquinas. Somente conseguimos entrar em 3 
maquinas, onde colocamos um pinguim arabe, e diversos cartuns do Latuff 
no papel de parede apos instalamos alguns programas espioes. 

Para terminar a entrevista, qual recado voces dariam aos internautas? 

Eu ja nao gosto desse termo porque trata pessoas normais como 
institutes. Isso me faz imaginar pessoas dentro de foguetes. De toda a 
forma, ai vai um grande conselho: Nunca use um cartao de credito de limite 
alto para compras na internet. Mais cedo ou mais tarde isso cai em maos 
erradas, e voce vai se enrolar. Certifique-se de que nao existe nada instalado 
no seu pc, antes de voce acessar conta bancaria ou pagar contas. 



Entrevista retirada do Centro 
( www.midiaindependente.org ). 



de Midia Independente 



Visite o Microfobia : www.microfobia.com. 




MAIORIA DOS PROJETOS DE 
INCLUSAO DIGITAL IGNORA 
INCLUSAO SOCIAL 

Bia Barbosa, 01/04/2005 

Na semana da inclusao digital, 
organizacoes gue trabalham para levar 
computador a populagao carente 
afirmam gue muitos programas tern 
enfogue a pen as ferra mental. Elas 
defendem o uso do software livre e a 
participacao popular na gestao dos 
projetos como condicao de acesso a 
cidadania. 



Sao Paulo - "Digital, digital. Preciso de uma chance pra mostrar meu 
potencial. Digital, digital. Um dia quero ser um professional". No refrao do 
Rap da Inclusao Digital, o jovem Ademir Francisco da Silva, de 18 anos, 
mostra a aposta que faz no mundo da informatica para mudar o mundo da 
comunidade de Paraisopolis, uma das mais carentes da cidade de Sao Paulo. 
Ha cinco anos, ele freqiienta a Escola de Informatica e Cidadania (EIC) 
Creche Arquinha. Ali, uma vez por semana, ele e mais de 100 criancas e 
adolescentes tern aulas de computacao voltadas nao apenas para a inclusao 
digital, mas, principalmente, para a social. "A tecnologia mudou a minha 
vida. As vezes eu me enrolo no teclado, mas ja sei usar a internet para fazer 
pesquisas para a escola, tenho e-mail, fiz o meu curriculo, tudo ficou mais 
rapido", conta Ademir. 

As EICs sao escolas criadas em comunidades de baixa renda e que tern como 
objetivo a inclusao digital e social por meio da utilizacao de tecnologias da 



informacao e da comunicacao. Sao um projeto do Comite para a 
Democratizacao da Informatica (CDI), uma organizacao que nasceu ha doze 
anos no Rio de Janeiro com o objetivo de integrar ao universo da tecnologia 
pessoas que estejam a margem do processo de acesso e uso de 
computadores. Hoje, o CDI esta presente em 20 Estados brasileiros e em dez 
paises. A Rede CDI ja conta no Brasil com 962 escolas - em areas de pobreza, 
assentamentos, comunidades quilombolas, penitenciarias, aldeias indigenas 
e institutes de ressocializacao de jovens infratores - , que funcionam neste 
modelo atraves do trabalho de cerca de dois mil educadores e mais de mil 
voluntarios. Mais de 500 mil jovens e adultos ja se formaram nesses 
espacos, onde o encontro com o computador abre caminhos para a 
construcao de cidadania. 

Na chamada era da informacao e do conhecimento, garantir o acesso da 
populacao a informatica pode ser visto como uma ferramenta tao essencial 
ao desenvolvimento humano como o acesso a educacao, a saude e aos 
demais direitos humanos. O brasileiro, no entanto, esta ainda muito longe 
desta realidade. A media nacional de acesso a computadores e de 12%, e 
apenas 8% da populacao tern acesso a internet. Segundo o Mapa da 
Exclusao Digital, publicado em 2003 pelo Centra de Politicas Sociais da 
Fundacao Getulio Vargas, as menores taxas de acesso sao encontradas nos 
estados mais pobres, como Maranhao e Piaui, ou de ocupacao recente, 
como o Tocantins. Os domicilios com altos percentuais de acesso digital 
estao, em sua maioria no sudeste urbano, principalmente na regiao 
metropolitana de Sao Paulo (31,10%). Dos chamados "incluidos digitals", 
97,24% encontram-se em areas urbanizadas. 

Outro dado interessante do estudo e o que mostra que a populacao branca 
representa 79,77% dos incluidos digitais (no Censo 2000, a populacao 
branca corresponde a 53,74% da populacao brasileira). Os pardos 
representam 15,32%, contra 38,45% indicados pelo Censo. Os negros 



correspondem a apenas 2,42% dos inclufdos digitals, o que prova que os 
apartheids racial e digital caminham de maos dadas no Brasil, mesmo 
quando se consideram brancos e afrobrasileiros que obtiveram as mesas 
oportunidades de educacao e emprego. Mesmo sob a igualdade destas 
condicoes, a chance de um branco ter acesso a internet e 167% maior do 
que a de um nao branco. 

E para diminuir este abismo digital - que contribui para a perpetuacao e 
aumento da exclusao social no Brasil - e que centenas de programas de 
inclusao digital nasceram e se proliferaram no pais, pela iniciativa do poder 
publico e, principalmente, da sociedade civil. A imensa maioria deles, no 
entanto, ainda e focada na simples oferta de computadores e internet a 
populacao carente, sem que se garanta que essas pessoas usem a tecnologia 
para adquirir o conhecimento necessario para a transformacao social. 



espacos, conseguem vender seus equipamentos, fazem grandes feiras, mas 
ficam no mercado e no comercio. Na pratica, o que as pessoas vao fazer 
com essa tecnologia ninguem sabe. E um pessoal voltado para o seu 
umbigo, com pouquissima preocupacao social. E essa pratica ainda e muito 
presente no Brasil", afirma Soares. "Quando a inclusao digital se soma a 
cidadania, nos temos a ponta de lanca para fazer avancar as questoes. Os 
grupos que estao fazendo isso estao superando a fragmentacao que muitos 
tecnologos trouxeram, ao fazer um discurso laudatorio da tecnologia sem 
compromisso social. A uniao dos grupos que trabalham com inclusao social 
a partir de uma perspectiva da convergencia de linguagens e da pratica da 
cidadania representa a ponta mais avancada do processo de avanco na 
discussao de democratizacao da propria sociedade", diz. 

Participacao popular e software livre 



"No discurso, todo mundo que esta falando de inclusao digital demonstra 
preocupacao com a inclusao social e com usar as ferramentas como meio 
para essa inclusao. Na pratica, e um pouco diferente, e a gente corre um 
risco muito grande de falar para os convertidos. Mas se a gente foca na 
tecnologia apenas, que ja esta pronta e que foi criada por quern nao esta la, 
sabendo das necessidades de quern precisa, nao tern sentido. O sentido e 
partir das necessidades das pessoas e usar a tecnologia a favor. E isso o que 
fazemos quando discutimos comunicacao, organizacao comunitaria, 
protagonismo juvenil. Esse e o pulo do gato", acredita Rodrigo Alvarez, 
coordenador do CDI-SP. 

Para o professor Ismar de Oliveira Soares, do Nucleo de Comunicacao e 
Educacao da Universidade de Sao Paulo, os grupos que promovem inclusao 
digital com foco da cidadania ainda sao minoria. "O que predomina e o 
ferramental. E o discurso instrumental e o predominante da matriz, ou seja, 
dos Estados Unidos. Sao eles que difundem a tecnologia, que lutam por 




Nos diversos debates realizados em diferentes capitals do Brasil nos ultimos 
dias, quando comemora-se a Semana da Inclusao Digital, ficou muito claro 



um dos caminhos a ser seguido na busca pela relacao entre inclusao digital e 
inclusao social: a participacao da populacao atingida pelos projetos na sua 
gestao e definicao de rumos. O exemplo de como efetivar isso na pratica foi 
dado pela prefeitura de Sao Paulo em seu programa de inclusao digital. 
Durante a ultima gestao municipal, quando foram instalados 124 telecentros 
nas regioes de menor IDH (fndice de Desenvolvimento Humano) da cidade, 
foram criados tambem 80 conselhos gestores desses telecentros. Ali, a 
participacao popular definia em parceria com o poder publico questoes 
desde o horario de funcionamento dos espacos ate os cursos que seriam 
oferecidos aos moradores locais. 

Com a mudanca na administracao de Sao Paulo, o programa de inclusao 
digital foi um dos primeiros a sofrer cortes. A gestao Serra alega restricoes 
orcamentarias para manter o projeto funcionando nos mesmos moldes, mas 
tambem houve modificacoes em areas que nao dependem necessariamente 
de recursos financeiros - o que alterou, na pratica, o modelo de inclusao 
digital que vinha sendo desenvolvido na cidade. 

"Na gestao passada, trabalhavamos com o tripe inclusao digital, internet 
cidada e software livre. Na inclusao digital, era central a participacao 
popular. Nao queriamos formar consumidores de politicas, de servicos e de 
softwares, aprisionados aos monopolios; mas formar cidadaos. Nao 
tivessemos a cabeca em que o central e formar cidadaos, nao teriamos feito 
um terco do que fizemos", explica Beatriz Tibirica, ex-coordenadora do 
Governo Eletronico do municipio de Sao Paulo. "Hoje os telecentros estao 
escorrendo por nossos dedos. Nao ha manutencao dos equipamentos e os 
conselhos gestores foram reduzidos a conselhos regionais, num total de 
nove. A estrutura comunitaria que cuidava dos telecentros desapareceu. Em 
vez de assumir o piano de inclusao digital - o maior da America Latina - e 
transformar isso numa conquista da cidade, a nova gestao optou por criar 



consumidores e nao cidadaos que cobram do poder publico o que ele deve 
fazer para a melhoria da vida da populacao", critica Beatriz. 

Para tentar reverter este processo e institucionalizar os conselhos gestores 
dos telecentros, diversas organizacoes que trabalham com inclusao digital 
elaboraram um projeto de lei de iniciativa popular que mantem os 
conselhos regionais e garante um conselho local para cada um dos 
telecentros. De acordo com o projeto, cada conselho local seria formado por 
seis representantes da comunidade, eleitos em assembleia, um 
representante dos profissionais do telecentro, um da sub-prefeitura e um 
indicado pela prefeitura do municipio. A este conselho caberia, por 
exemplo, acompanhar a implementacao e participar da elaboracao e do 
planejamento das atividades a serem desenvolvidas pelo telecentro, 
encaminhar propostas para o Conselho Gestor Regional dos Telecentros, 
propor ao poder publico medidas que visem a organizacao e manutencao do 
telecentro, a melhoria do sistema de atendimento aos usuarios e a 
consolidacao do seu papel como centro gerador de inclusao digital e social, 
e articular a populacao para promover debates e novas propostas para 
capacitacao e inclusao social. 

O projeto, que tambem preve a criacao de um Conselho Municipal de 
Inclusao Digital, sera abracado como uma das bandeiras da Frente 
Parlamentar em Defesa dos Telecentros e do Forum Municipal em Defesa da 
Inclusao Digital e da Liberdade do Conhecimento, lancado nesta quinta-feira 
(31) por iniciativa dos mandatos dos vereadores Paulo Teixeira e Soninha 
Francine, ambos do PT. Entre os objetivos do Forum estao a manutencao e 
ampliacao do projeto de inclusao digital da Prefeitura de Sao Paulo e a luta 
para que a administracao publica passe a trabalhar com o software aberto. 
Um pontape para esta luta tambem foi dado nesta quinta, com o 
lancamento do projeto Gabinete Livre pelos mandatos dos deputados 



estaduais Simao Pedro e Mario Reali e dos vereadores Paulo Teixeira e 
Soninha. 

"96% dos softwares da administracao publica do Estado de Sao Paulo sao 
proprietaries. E inadmissivel num pais como o nosso continuarmos a usar o 
software proprietario e a enviar royalties para o exterior. Somente em 2002, 
um bilhao de reais em licencas foi enviado. Estes recursos precisam ser 
investidos em pesquisas no Brasil", aponta Simao Pedro. "Da mesma forma, 
nao podemos desenvolver politicas publicas de inclusao digital via software 
proprietario. O software livre e uma luta da esquerda, de quern quer 
implantar uma sociedade democratica, contra o aprisionamento da 
informacao e do conhecimento", diz o deputado. 



tecnologico", afirma Sergio Amadeu da Silveira, presidente do Institute 
Nacional de Tecnologia da Informacao. "Estamos sob pressao. O governo 
tern que tomar uma decisao. Vai fazer um programa para o financiamento 
do software comercial ou vai agir para a populacao poder escolher? Para 
isso, e preciso quebrar monopolios. Esperamos que o governo siga nessa 
linha", conclui. 

Fonte: Agenda Carta Maior ( http://agenciacartamaior.uol.com.br/ ). 



Se depender do exemplo do governo federal, a sociedade de Sao Paulo deve 
comprar a briga por programas de inclusao digital focados na inclusao social 
e baseados no uso de software livre. Dois projetos que em breve serao 
implantados pelo governo Lula seguem justamente neste caminho. 
primeiro deles, chamado de Casas Brasil, instalara nas capitals e maiores 
cidades do pais centrais de inclusao digital com telecentros rodando 
softwares livres, salas de producao multimidia e laboratories de 
popularizacao da ciencia. O segundo, intitulado PC Conectado, que 
subsidiara o acesso aos computadores para a populacao de baixa renda, 
tambem trabalhara com softwares livres e sistema operacional GNU/Linux. 



"Nao queremos inclusao digital por incluir. Este precisa ser um processo que 
garanta ao pais participar do desenvolvimento tecnologico internacional. E 
quando voce usa software livre, voce diz que vai participar do 
desenvolvimento da tecnologia. Nao so porque em vez mandar royalties 
para o exterior voce aplica o dinheiro aqui dentro, mas porque quern pagou 
pelo software decide o que vai fazer com ele. E um incentivo a autonomia 
tecnologica do pais. Defendemos o compartilhamento do conhecimento 



REFLEXOES ALEATORIAS SOBRE A REDE INDYMEDIA E MIDIA TATICA 

Evan Henshaw-Plath 



Este e um depoimento sobre o Indymedia Center 
(Centro de Mi'dia Independente), por urn de seus 
primeiros programadores, Evan Henshaw-Plath. 
Evan foi um dos fundadores do Protest 
(www.protest.net) , o maiorsite de protestos na net. 
texto faz parte do segundo Sarai Reader, 
publicado pela Autonomedia, gue tambem publico 
Hakim Bey e outros radicais contemporaneos. 




Indymedia ( www.indymedia.org ) e a ecletica combinacao de web sites, 
centros de mfdia comunitarios e redes de midia e grupos ativistas. A 
proposta e criar um ambiente atraves do qual possamos coordenar, 
batalhar, e esperancosamente ganhar a guerra de ideias. RAND*, o think 
tank de direita, cunhou o termo Guerra em Rede (Netwar) para expressar a 
luta pelas ideias e a esfera politica, a luta por hegemonia, dentro da 
linguagem do conflito militar. Em alguns aspectos, eles estao certos. O 
desenvolvimento de armas de alta tecnologia removeu a possibilidade de 
conflito armado dentro do mundo industrializado. A guerra em rede, a 
efetivacao de conflitos sociais, politicos e economicos no ambito da 
informacao abriu um novo terreno pelo qual a luta contra o poder na 
sociedade e efetivada. 



Guerra em rede significa a luta pelas ideias e a ideologia efetivada numa 
sociedade altamente conectada e baseada na comunicacao em rede. O 
processo de revolucao nao e aquele de atacar os centros de poder, mas de 
criar o ambiente atraves do qual nocoes populares de sociedade, poder e 
legitimidade sao deslocadas dos alicerces daqueles centros de poder. 
Indymedia e um vefculo pelo qual a base ideologica das atuais estruturas de 
poder pode ser subvertida. Estamos nos opondo a elite da midia corporativa 
que serve tanto como criadora quanto beneficiaria de nossa sociedade 
consumista neo-liberal. 

Indymedia e uma desorganizacao, descentralizada e livremente conectada. 
Opondo-se tanto a midia de esquerda tradicional quanto a midia capitalista. 
Surgida do movimento anti-globalizacao, Indymedia reflete muitos dos 
valores, metodos organizacionais e contradicoes do movimento maior. De 
certa forma, somos um movimento de midia, mas, dada a natureza do 
movimento, nao advogamos uma perspectiva ideologica particular. De 
preferencia temos um terreno de ideologias que sao tanto contraditorias 
quanto complementares, mas que refletem as correntes subterraneas da 
luta anti-globalizacao. Nao ha voz editorial, exceto vagas concordancias 
gerais sobre direcao. Para alguns, a luta e por dar uma face humana ao 
capitalismo, ou criar "mercados solidarios", para outros e a eliminacao do 
capitalismo, ou a totalidade tanto do estado quanto dos mercados, ou a 
propria civilizacao. Todas estas visoes coexistem dentro de um sistema de 
coalizacao em rede. Nao concordamos no que queremos, mas todos 
concordam que a monolitica dominacao hegemonica da atual globalizacao 
neo-liberal precisa ser rompida. Na luta por um planeta que permita muitas 
verdades e que se localiza a ideologia num mundo globalizado. 

Indymedia e uma rede de coletivos de midia, centros, jornalistas, ativistas, 
comentadores, e criadores de midia que estao usando esta tecnologia para 



subverter a legitimidade da mfdia corporativa global e seu "consenso de 
Washington", nao provendo uma alternativa, mas criando uma espaco pelo 
qual muitas vozes podem se elevar numa cacofonia de dissencao. 

* RAND Corporation e um think tank (ou consultoria de pesquisas) 
americano de vies conservador, dedicado a pesquisa sobre assuntos 
estrategicos para o governo americano, principalmente nas areas militares e 
de novas tecnologias. Tipico das paranoias ianques, o conceito de Netwar 
(guerra em rede) concebido por estudiosos da RAND, coloca no mesmo 
balaio movimentos civis, redes terroristas e organizacoes do narcotrafico, 
nivelando por igual os Zapatistas de Chiapas, a mafia da cocaina ou mesmo a 
Al Qaeda. Para conhecer mais a organizacao, acesse www.rand.org, com 
muitos documentos (a maior parte em PDF). Cuidado para nao noiar de vez 
(N. do trad.). 

Traducao de Ricardo Rosas 

Visite o Centro de Midia Independente (CMI), o Indymedia brasileiro 
( www.midiaindependente.org ). 

Fonte: Sarai Reader( www.sarai.net ). 

Artigo originalmente publicado na revista Play n^5 ( www.pl4y.com.br ). 



Manifesto nomade 

Tom-B 

Liberte-se do atomo. Nao tenho muita certeza quanto ao Negroponte, mas 
uma ele deu dentro: entre o atomo e o bit, fique com o bit. Trabalhe com a 
mente, nao com a mao, e que o fruto do seu trabalho seja digital. 

Liberte-se da corporacao. "Patrao" e "empregado" sao palavras que nao 
tern mais sentido, assim como "senhor" e "escravo". Trate as corporacoes 
de igual pra igual, com cuidado! - pois sao feras poderosas. De a elas uma 
dose do seu proprio veneno: a oferta e a procura. Cobre sem do. 



ceu vai se coalhar de satelites e voce vai poder sair correndo pra praia. 

Arme-se! Os monolitos do poder nao verao com bons olhos esses bandos de 
freaks correndo por ai, vivendo de producao intelectual pura, cagando pras 
regras do passado industrial. Fique ligado em criptografia, em redes de 
contatos e nos caminhos da economia. 

A epoca e de transformacao. Caos e oportunidade. E a nova fronteira - 
laptops estao para os anos 00 assim como os classicos Colts de 6 tiros estao 
para o Velho Oeste 



Liberte-se do tempo e do espaco. Pra que acordar de manha e bocejar em 
unissono com o resto da cidade? Pra que enfrentar congestionamentos so 
para se deslocar ate um cubiculo odioso cuja unica funcao e te colocar sob a 
vigilancia de bedeis e babas? Faca o seu trabalho fluir atraves dos fios. 

Trabalhe nu. 

Arranje ferramentas para o seu cerebro. Outro paradigma: esqueca caixotes 
estacionarios, pense em portateis baratos e versateis enfiados numa 
mochila. 

Se tiverem a aparencia de uma bolha colorida e translucida, melhor. Se a 
velha-guarda der risada, deixe. Lembre-se que caixotinhos bege combinam 
com isorias bege, carpetes cinza, luzes fluorescentes e almoco das 12:00 as 
12:30. Voce pode escolher: e por isso que dreadlocks serao o simbolo de 
status do future. 



Por enquanto voce ainda vai estar preso: a fios de telefone e ethernet; a 
area de cobertura do seu celular. Mas fique esperto: daqui a vinte minutos o 



O XYZ DO NET ATIVISMO 

Luther Blissett 



poderosa para construir um movimento de massas, assim como difundir de 
uma maneira popular a net.cultura e a net.crftica de cfrculos fechados como 
Nettime ou N5M, expandindo suas malhas para fora da rede. 



"E o momento de criar pop stars do ativismo, idorus da 'comunicacao- 
guerrilha', e o momento de ameacar e encantar as massas com os fantasmas 
que vem da Rede, de jogar o mito contra o mito, de ser mais niilistas que o 
info-entretenimento!" 
-etoy- 

_0_ Luther Blissett e o net. ativismo 

_1_ EDT e LB: dois modelos de simulacao midiatica 

_2_ A virada pop 

_3_ Interfaces pop para as massas: um mito politico 

_4_ Hibridacao 

_5_ A revolucao de 99 

0. < LUTHER BLISSETT E O NET. ATIVISMO > 

Com esta contribuicao quero introduzir o projeto Luther Blissett no debate 
sobre net. ativismo. Para aqueles que nao o saibam: Luther Blissett e um 
mito pop, um pop star coletivo "aberto", cujo nome e o mesmo de um 
jogador de futebol de Watford. Mas o LB virtual possui uma cara feita por 
computador. LB e um nome multiplo: qualquer um pode se tornar LB e 
utilizar o nome dele/dela para qualquer proposito. Quern usa o nome, 
aumenta e toma parte de uma fama coletiva. Na Italia, onde pequenos 
grupos promoveram este projeto, a estrategia do nome multiplo ativou uma 
reacao em cadeia. Mediante um nome de multi-uso, um mito de massas foi 
construido e usado em campanhas politicas. Os conceitos que subjazem a LB 
(nome multiplo, pop star aberto, avatar politico) podem ser uma ferramenta 



Para mais detalhes sobre LB: 
http://www.syntac.net/lutherblissett/ 

1. < EDT E LB: DOIS MODELOS DE SIMULACAO MIDlATICA > 

Uma pergunta fundamental no corrente debate sobre net ativismo e a 
oposicao entre "simulacao" e "acao real". Creio que se tornou uma pergunta 
viciosa e retorica. Lovink e Garcia, em "O ABC e DEF da Midia Tatica" sao 
muito pacientes com aqueles que sao ceticos quanto a importancia de 
questoes de "representacao midiatica". Em vez disso, apontarei aqui as 
teses e estrategias mais radicals expressadas sobre simulacao: em minha 
opiniao, o Electronic Disturbance Theater e LB/a.f.r.i.k.a. gruppe. 

http://www.nyu.edu/project/wrav/wwwhack.html 
http://www.nettime.org/nettime.w3archive/199809/msg00044.html 

Ambos pensam que tanto o ativismo como a contra-informacao devem 
aprender a simular no palco da midia de massas, isto e, no info- 
entretenimento. Mas esses projetos sao completamente diferentes. 
Electronic Disturbance Theater e o nome de um *grupo* de ativistas. Estes 
utilizam o "ataque na rede" para protestar contra institutes e midias de 
massas sobre questoes politicas. Os "atores" do EDT nao ocultam seus 
nomes. Por outro lado, LB so e um nome, uma marca adotada por milhares 
de pessoas que, muitas vezes, nem se conhecem nem se comunicam entre 
elas. LB nao e um grupo nem um movimento senao um pop star coletivo. 



Todos os ativistas tern o mesmo nome, todos os ativistas *sao* o mesmo 
pop star multiple LB normalmente nao protesta diretamente contra o 
sistema. Ele/ela trabalha dentro da mfdia de massas produzindo notfeias 
falsas, lendas urbanas, pretendendo por em curto-circuito as contradicoes 
internas do espetaculo. O nome de LB e utilizado em obras de arte, atos 
polfticos, sabotagens, etc... LB nao tern fama mundial como o EDT, mas 
ele/ela poderia te-la. 

-Electronic Disturbance Theater 

A principal pergunta que se poderia fazer ao EDT e: qual e o risco de 
ameacar e provocar a midia com simulacoes? Como controlar os feedbacks 
e reacoes violentas? Como evitar ser cooptado ou desencadear um panico 
moral? De acordo com Stefan Wray, os ativistas devem se dar conta de que 
a politica e um teatro e que devem aprender a atuar: "estamos 
manipulando a esfera midiatica, estamos criando o hype (tendencia), 
estamos fazendo congestionamento cultural (culture jamming), estamos 
simulando ameacas e acao [...] somos atores! Isto e teatro politico! Uma 
glorificacao e transformacao do falso em real, pelo menos na mente das 
pessoas." Como apresentar o ativismo no palco? Com uma imagem e um 
nome que funcione na midia. Isso e lidar com a construcao de simulacros: 
"Como inventamos um exercito ciberespacial internacional? Primeiro, 
dando-lhe um nome." 

O simulacro criado pelo EDT e muito simples: se apresenta como um 
protesto contra as institutes, a midia, as corporacoes. Isto pode se definir 
como simulacro de primeiro nivel, pois desafia o Sistema de um modo 
direto. A efetividade midiatica e dada pela ameaca simulada: "O poder da 
Floodnet(*) jaz na ameaca simulada." A meta e dirigir a atencao para pontos 
particulares, atrair certo grau de cobertura de midia dedicando-se a acoes 



pouco usuais. A questao para o EDT e ter inventado um simulacro negativo, 
destrutivo. O sistema da midia coopta estes simulacros antagonistas, os 
demoniza e criminaliza, e utiliza-os para iniciar estados de emergencia, 
panico moral. O "estado" joga com o mesmo tipo de medo. Isso acontece 
quando voce se situa no "primeiro nivel" do jogo da midia de massas. 

- Luther Blissett 

Se o EDT visa uma luta direta, LB quer aumentar o desafio para um nivel 
logico mais acima. Como escreveu o a.f.r.i.k.a. gruppe: "A comunicacao- 
guerrilha nao foca em argumentos e fatos como a maior parte dos folhetos, 
revistas, slogans, ou insignias. A seu modo, ela reside numa posicao politica 
militante, e acao direta no espaco da comunicacao social. Mas ao contrario 
de outras posturas militantes (pedras contra vitrines), nao e seu objetivo 
destruir os codigos e signos do poder e do controle, mas distorcer e 
desfigurar seus significados como modo de contra-atacar o onipotente 
delirio do poder". Baudrillard citando Wilden: "Cada elemento de 
contestacao ou subversao de um sistema devera empregar uma logica 
superior." 

Ao contrario da pratica do EDT: "Comunicacao-guerrilhas nao pretendem 
ocupar, interromper ou destruir os canais dominantes da comunicacao mas 
deturnar (praticar o desvio, plagiar) e subverter as mensagens transmitidas." 
Isto nao significa atuar como inocentes atores mas imitar o espetaculo e 
seus engodos : "Contra uma ordem simbolica das sociedades capitalistas 
ocidentais que e construida em torno de discursos de racionalidade e 
conduta racional, a Comunicacao-Guerrilha confia na poderosa possibilidade 
de expressar uma critica fundamental atraves do nao-verbal, do paradoxal, 
do mitico." 

Com certeza, a estrategia nao racional e muito racional: tornar-se o 



espetaculo, tornar-se mito, usar as armas do info-entretenimento contra ele 
mesmo. A simples contra-informacao tradicional ja nao funciona mais. LB 
quer introduzir a luta no reino da cultura pop, construir simulacros 
"inteligentes", difundir notfcias falsas utilizando a ironia pra se retirar no 
momento precise De acordo com o Critical Art Ensemble, o inimigo e 
invisivel, o poder se converteu em um fluxo eletronico nomade. Se e facil 
entender isto, e mais dificil entender como o sistema da midia de massas 
coopta, neutraliza ou demoniza as forcas subversivas. A rede criou a 
simulacao democratizada e a informacao falsificada. Mas onde se encontra 
o mito na comunicacao de massas hoje? 



2. <AVIRADAPOP> 

Roland Barthes, "Mitologias", 1957: "Ha de estar profundamente 
estabelecido, desde o inicio, que o mito e um sistema de comunicacao, e 
mensagem." O mito e o que esta do outro lado do Espetaculo, o reverso da 
paisagem da midia. O mito unifica o que e oposto no espetaculo e 
supracodifica(overcode) qualquer facanha ou significado subversive 



Sociedade 
emergencias 

ESPETACULO- Estado 
Sistema estabelecido 

I 

I 



guerra de informacao, 

movimentos underground 
contra cultura, ativismo 
I 
I 



Barthes: "Destruir o mito desde dentro era entao extremamente dificil. O 
mesmo movimento de se ver livre dele, cai de imediato como presa do mito: 
mito sempre pode, ao final, significar a resistencia feita ao mesmo." 

O titulo da introducao de 'leia-me!" e: "nada e espetacular se voce nao fizer 
parte dele". Nao sei se e uma citacao nem de onde vem (Debord...? e pura 
filosofia do Debord!), mas e bastante retorica, politicamente correta, 
puritana. Deveriamos dizer: nada e espetacular se voce *e* parte dele! O 
ativismo tern de fazer uma virada de 180 graus: vamos chama-la uma virada 
pop. 

Barthes: "a melhor arma contra o mito e se auto-mitificar, produzir um mito 
artificial: e este mito reconstituido sera uma mitologia real." 

- Net hype. 

Por exemplo Net hype e um mito que o ativismo deve parasitar e 
supracodificar. Como escreve o A.f.r.i.k.a. gruppe: "os crescentes intentos de 
policiar a rede, de estabelecer o estado e o controle corporativo aumentara, 
paradoxalmente, sua atracao como campo de operacao de comunicacao- 
guerrilhas: possivelmente, inclusive aqueles de nos que ate agora nem 
mesmo possui um PC, vai entao se conectar. Fraudes e falsos rumores 
dentro e fora da rede podem ajudar a contra-atacar a comercializacao e o 
controle do estado - afinal, a internet e uma area ideal para produzir 
rumores e fraudes." 



"Comunicacao-Guerrilhas tambem estao fascinadas por possibilidades 
oferecidas pela internet num sentido bastante distinto: muito alem da sua 



realidade, A REDE e um mito urbano, e talvez o mais forte e mais vital de 
todos. O discurso social concebe A REDE como o lugar onde as pessoas, os 
prazeres, o sexo e os crimes de amanha ja estao acontecendo. Entre na 
internet, conheca o futuro! Medos e desejos sao projetados sobre A REDE: 
este e o lugar mitico de onde podemos ver o futuro de nossa sociedade." O 
palco midiatico esta englobando a net passo a passo. O espetaculo esta se 
hibridizando com a rede. O imaginario coletivo esta penetrando o 
ciberespaco. O ativismo deve atacar e parasitar o imaginario coletivo 
alimentado pela rede. O imaginario da midia de massas esta ficando mais e 
mais interativo, "democratico". As teorias da Velha Esquerda sobre 
manipulacao midiatica estao obsoletas. 

3. < INTERFACES POP PARA AS MASSAS: UMA IDORU POLITICA> 

A "Virada Pop" significa que os ativistas ficaram menos chatos e falam a 
linguagem das massas. Como todas as interfaces, e um compromisso. Algum 
ativista puritano, algum anarquista ou eco-raver vai discordar. Mas o unico 
meio de afrontar o info-entretenimento e ser mais niilista que ele. A virada 
"pop" nao e so uma licao estrategica, tambem e um modo de construir um 
acesso para as massas. 

- Avatar pop. 

A cultura pop e como o panteao hindu, onde deuses e semi-deuses lutam 
sem parar. Ela trabalha criando autenticos simulacros pop, controlando-os, 
deixando-os para tras quando comecam a produzir reacoes nao desejadas. 
O ativismo deve construir pop stars virtuais, avatares coletivos conduzidos a 
partir da rede para atuar no info-entretenimento, como LB ou a idoru Kioko 
Date. Pela metafora "avatar de massas" pretendo explicar o modelo do pop 
star aberto para usuarios da rede ou net ativistas que nao conhecam sobre o 
nome multiple A metafora do avatar pode ser transposta muito facilmente 



da rede para a midia tradicional e usado no ativismo midiatico. Com "avatar 
de massas" quero dizer um idolo virtual para atuar no palco midiatico e nao 
uma identidade simulada em uma comunicacao de um pra um na rede. 
Feicoes antropomorficas fazem o publico se identificar com ele. Tambem, 
como bem sabem Ballard e Gibson, na sociedade midiatica o icone e o modo 
direto de acessar o sistema nervoso das pessoas. Franco Berardi, aka Bifo, 
definiu LB como "o Anticristo da informacao". Esta definicao explica o 
proposito de LB de unir-se a contra-informacao e a mitologia pop 
autonoma. 

- Portal para a midia. 

Os hacktivistas devem organizar portais entre a rede e a midia "tradicional". 
Estes portais rede-midia deveriam ser um interface para alimentar e 
controlar as noticias que a midia difunde. Trata-se de contactar e cooperar 
com o pessoal on-line da TV e dos jornais, criando interfaces estupidas mas 
amaveis para os jornalistas. A experiencia do Eletronic Disturbance Theater 
o demonstra: se nao houvesse feito a primeira pagina do New York Times 
em 31 de outubro de 1998, o EDT so teria uma mera existencia on-line. 

4. <HIBRIDACAO> 

-Modulos pop. 

A hibridacao nao consiste unicamente em conectar o virtual e "as ruas". Nos 
arriscamos a permanecer retoricos e previsiveis em ambas as frentes. Temos 
de hibridizar e contaminar as formas da cultura pop criando modulos pop 
para o ativismo. A cena Net e um tanque de ideias estranhas e uteis. Pense 
em um uso midiatico subversivo dos trabalhos de arte net mais iconoclastas 
antes que possam ser captados pela Nike ou Adidas! Um modulo Pop pode 
ser definido como um programa de plataforma multipla que pode funcionar 



em diferentes ambientes sociais e estruturas polfticas, tanto na nova como 
nas velha mfdia. Um exemplo e LB cujo nome apareceu em varias ocasioes 
na mfdia italiana em livros de autor, romances, perfomances, shows, 
campanhas de contra-informacao, fraudes, lendas urbanas. nome 
multiplo e um modulo hfbrido, pois funciona em tanto na velha como na 
nova mfdia, tanto nas ruas como na rede. 

- Compondo teorias... 

Nao necessitamos das faceis abstracoes e oposicoes da filosofia ocidental 
que seguem as raizes criticas: simulacao vs. acao real, o alternativo vs. 
corrente dominante, pop vs. vanguarda, molar vs. molecular, "tomemos as 
ruas" vs. "as ruas estao mortas". Uma teoria (ou estrategia) nao se constitui 
em oposicao a outra senao que devem compor-se juntas em um mesmo 
nivel. "Composicionismo" e um metodo deleuziano sugerido por autores 
como Bifo. Observa a besta do espetaculo e seus movimentos. Esta se 
infiltrando na rede e enraizando nas novas formas sem haver abandonado a 
antiga. O capital infiltra qualquer intersticio. A rede nao se opoe a midia de 
massas, o hipertexto nao pode destruir o espetaculo mas novas formas 
hibridas crescem. O espetaculo se ramifica na rede hipertextual, se faz mais 
cambiante. Ja e hibrido, aprendamos dele. 

- ...e integrando o ativismo. 

Do mesmo modo o ativismo nao abandonara as velhas estrategias mas ira 
integra-las, conecta-las entre si. A convergencia dos meios conduz a uma 
convergencia de estrategias e "ativismos". Temos que parar de fazer teorias. 
Simplesmente temos de conectar uma estrategia com outra, uma coisa com 
outra. A hibridacao deve integrar diferentes tipos de ativismo. Depois do 
hacker, temos de integrar no ativismo web designers e artistas. Falo de um 
ativismo euforico, subversivo, iconoclasta, travesso! Se os net artistas 



comecassem a desenhar interfaces e estrategias pop para o ativismo, claro 
que estariam mais estimulados e inspirados e acabariam sendo mais uteis. 
Mas nao precisamos ser um "rizoma": o mito rizoma trouxe danos. Deleuze 
e Guattari tambem pergutaram: Como podemos distinguir entre 
esquizofrenia subversiva e esquizofrenia capitalista? O capitalismo e esquizo 
e rizomatico tambem. Precisamos integrar e ser integrados. 

5. <AREVOLUCAODE99> 

A cena ativista da arte-midia-rede esta fragmentada em multiplos grupos, 
sub-redes proximas, guetos de cultura alternativa, vanguardistas solitarios, 
hiper-egos. Demos uma olhada no mapa de Jodi: http://www.jodi.org/map . 
Nao sei de que modo se organiza, mas e uma efetiva vista panoramica de 
"nossa" rede. Esta cena so pode vir a ser popular pela interconexao de cada 
grupo de artistas, ativistas, escritores, teoricos, designers, jornalistas, 
mediadores, organizadores, etc. Esta rede poderia se converter em um 
icone midiatico! O proximo movimento subcultural (ocidental), depois do 
punk, techno, cyberpunk, etc. Temos de encontrar um nome bastante pop e 
estupido: "a revolucao de 99". O esquema que segue nao e tao obvio, mas 
tambem pretende ser uma interface para a "teoria": 
E um tanto estupido e bastante generico mas claro. 

- E bastante "hegemonico"? Nao importam nomes como "nettime", so por 
exemplo. 

- Onde esta a simulacao e onde a acao real? 



o "Espetaculo" 
"hype" da mfdia 
MIDIADEMASSAS 
\ 
\ 

portal 
\ 
REDES DE INFORMACAO_ 
_REDES LOCAIS 


c-theory 
nettime 
CRITICA 








| "as ruas' 
| sindicato / 
| nettime / 

_ redes da Area ampla 

/ \ tao.ca 




/ \ 


ecn 


•org 





(*) N do Trad: Programa do EDT para os Zapatistas de Chiapas cuja principal 
arma era congestionar a entrada a determinado sitio pelo excesso 
propositado de acessos, coisa repetida por hackers contra a Amazon. 

Traducao: Ricardo Rosas 

Fonte: Nettime - www.nettime.org 

Para mais Luther Blisset - www.lutherblisset.net 

(Arquivo Rizoma) 



\ 



LB / \ ZapNet 

avatares de massas / \ McLibel 

net.art INTERFACE ATIVISMO 

POP \ 

/ \ 

/ ACAO! 

MIDIA CULTURAPOP 

DE MASSAS mainstream/underground 



CULTURAS DO SABER EM MEGACIDADES: OS TELECENTROS DE SAO 
PAULO 

Ciro Marcondes Filho* 




0. Preliminares 

No Encontro de Okinawa falou-se da digital divide, dessa grande linha 
divisoria digital que havia se criado entre as sociedades do mundo, em que a 
falta de oportunidades de acesso as tecnologias digitals poderia aprofundar 
ainda mais o fosso ja razoavelmente profundo das desigualdades sociais no 
planeta. Instituiu-se, entao, a partir daf, a "forca-tarefa" da oportunidade 
digital (Digital Opportunity Task Force) para incentivar a inclusao digital: os 
paises deveriam adotar estrategias para reduzir a distancia entre os que 
possuiam e os que nao possuiam acesso as tecnologias de informacao e 
comunicacao (TIC). 



No Brasil, fez-se outra leitura da chamada "inclusao digital". Nao se adotou 
simplesmente a ideia de incorporacao de contingentes cada vez maiores nas 
oportunidades de acesso a tecnologia, pois isso levaria fatalmente apenas a 
um aumento no consumo dos equipamentos e a remessa maior de lucros as 
grandes empresas monopolistas. Um pais pobre como o nosso nao pode se 
dar ao luxo de pagar licencas de usos de softwares proprietaries, pagamento 
esse que apenas fortalece o poder de uma unica multinacional, enquanto 
cidades e a Federacao sofrem serias restricoes orcamentarias. O sistema 
operacional da Microsoft, por exemplo, esta instalado em 97% dos 
computadores do planeta, o Microsoft Office, em 93% das maquinas; o 
mesmo se da com os navegadores, onde, em 2001, o Internet Explorer era 
utilizado em mais de 90% dos computadores. Em 1990, o pais gastou 3,7 
bilhoes de dolares a mais do que recebeu em transacoes cotidianas. Em 
2000, o numero saltou para 24,6 bilhoes de dolares. 

O principio que nos orientou foi em outra direcao, a de que nao adianta 
treinar pessoas que saibam operar softwares criados por outras nacoes, 
visto que assim elas so participarao do mercado global como consumidoras. 
Trata-se, ao contrario, de operar com sistemas operacionais abertos e 
investir macicamente nos conteudos. So isso nos permitiria reduzir, pelo 
menos em parte, o fosso das desigualdades sociais do pais. 

O Brasil tern uma historia conhecida na producao internacional de solucoes 
proprias em computacao e ocupa o 7o. posto no ranking mundial dessa 
atividade. Tern uma excepcional criatividade em produzir softwares livres e 
consegue criar solucoes similares as importadas. Na questao da inclusao 
digital, o caminho nao poderia ser diferente. O movimento de criacao de 
info e telecentros em Sao Paulo tendeu a privilegiar a producao local de 
softwares e a investir pesadamente nos conteudos. Para isso contribuiu 
excepcionalmente, alem da pobreza e do subdesenvolvimento economico 
nacional, a questao dos softwares livres e do uso do copyleft. 



1. A Megacidade de Sao Paulo 



2. Os telecentros e os infocentros da megacidade 



A regiao metropolitana de Sao Paulo compreende 39 municfpios e uma 
populacao de 17 milhoes de pessoas. E o principal centro financeiro, 
industrial e comercial do pais e um importante elo na cadeia da economia 
mundial. Ela e sede de grandes grupos mundiais, de servicos especializados 
de alta qualidade, de moderna infra-estrutura de telecomunicacoes e 
transportes. Ha um expressivo parque industrial em pleno processo de 
modernizacao, uma estrutura avancada de pesquisa, contendo, inclusive, a 
mais importante universidade da America Latina; ha segmentos de alta 
renda inseridos em mercados cosmopolitas tipicos de cidades mundiais. No 
nucleo desta regiao encontra-se a megacidade de Sao Paulo com seus dez 
milhoes de habitantes. 

Sao Paulo, uma "cidade global" que em seu rapido movimento de 
assimilacao dos padroes de concorrencia do capitalismo internacional, 
deixou descobertas, contudo, algumas questoes basicas, como a 
universalizacao dos servicos essenciais, em particular, a telefonia, 
equipamento basico para a integracao da populacao as redes informaticas. 
A disseminacao dos beneficios das novas tecnologias, condicionada a 
capacidade de pagamento dos usuarios, acabou criando ilhas em torno das 
areas geograficas mais privilegiadas, das corporacoes transnacionais e dos 
estratos de alta renda, escolaridade e habilidades especificas. Assim, a 
modernizacao tecnologica em larga escala, com elevado custo social, acabou 
por aumentar as desigualdades e criar novas formas de marginalizacao. 

Os dados da miseria urbana registram 870 mil pessoas morando em 612 
favelas e 182 mil pessoas em corticos. Dois milhoes de paulistanos (20% da 
populacao) estao desempregados e 40% vivem em areas irregulares e 
grande parte em areas de risco. 



Tanto o governo estadual quanto o governo municipal estimularam a 
criacao de infocentros e telecentros para dinamizar a inclusao digital. Eles 
nao foram pensados para beneficiar familias de altas rendas, mas visam, ao 
contrario, comunidades de baixa renda. Algumas vezes sao instalados em 
bibliotecas, outras em postos do Poupatempo, em terminals de onibus, 
metro, etc. 

O primeiro telecentro foi criado ha tres anos, na Cidade Tiradentes, um dos 
distritos com pior qualidade de vida de Sao Paulo e fez parte do programa 
de governo municipal "Viver Melhor". La esta localizado o maior conjunto 
habitacional construido pela Companhia Habitacional estadual (Cohab), com 
38 mil apartamentos, populacao de 150 mil habitantes e foi escolhido por 
ter um alto crescimento demografico, um alto indice de criminalidade (90 
assassinatos por 100 mil habitantes ou tres homicidios por semana), e um 
baixo nivel de escolaridade, com evasao de 4,5% no ensino fundamental e 
16,8% no ensino medio. Situa-se 22 km a leste do centro da cidade. 

Outro telecentro e o de Capao Redondo, o lugar mais violento de Sao Paulo 
e mais abandonado pelo poder publico. Area de intensa exclusao social mas 
dotada de forte e enraizada producao cultural, berco do hip hop na cidade, 
dotada de grande rede de entidades comunitarias. No local criaram-se em 
2000 seis telecentros, e, depois de dois meses, mais quatro. Os 
computadores acessam a internet atraves de uma solucao em Linux, de boa 
performance e alta economia quando equiparada ao licenciamento do 
software proprietario. 

Telecentros funcionam em media 12 horas por dia, sete dias por semana, 
oferecem cursos de informatica e atividades de desenvolvimento cultural, 



social e economico. Ficam abertos a comunidade e todas as pessoas com 
mais de dez anos podem utilizar gratuitamente todos os equipamentos e 
servicos. O tempo de utilizacao mensal e, em media, de 14 mil horas; ha 
cerca de mil usuarios por mes, em sua maioria (70%) do sexo feminino, na 
faixa etaria de 13 a 17 anos (60%). Mas ha tambem usuarios acima de 60 
anos e abaixo dos 12 anos de idade. A maioria dos usuarios jamais teve 
contato com um computador. 

Em fins de 2002, o programa estadual Acessa Sao Paulo ja possuia 117 
infocentros instalados, 66 na capital e 51 no interior do estado. 1,8 milhao 
de atendimentos foram prestados e mais de 200 mil pessoas ja estao 
cadastradas. 

Nos telecentros de Sao Paulo, a inclusao digital concentra-se em tres focos 
principais: a ampliacao da cidadania, atraves do estimulo ao direito de 
interagir e ao direito de se comunicar atraves das redes informacionais; a 
insercao de camadas pauperizadas no mercado de trabalho informacional 
(profissionalizacao e capacitacao); a educacao dos jovens para melhor filtrar 
o volume de informacoes recebidas da internet. 

Por isso, a opcao pelos telecentros e a importancia de Sao Paulo como a 
cidade que, segundo especialistas, esta experimentando o maior piano de 
inclusao digital em software livre do mundo. Igualmente nas populacoes 
carentes o entusiasmo foi grande: a populacao, historicamente 
negligenciada pelo poder publico, aderiu rapidamente aos servicos. Nas 
aberturas de novos postos, as pessoas formavam fila desde a madrugada 
para se inscrever no telecentro. 

3. Numeros da exclusao digital 

A exclusao digital nao e, naturalmente, o mesmo que a exclusao social e 



economica, mas uma necessariamente converge para a outra. O Brasil 
possui 11,4% de analfabetos e a renda mensal de 50% de seus 160 milhoes 
de habitantes e, no maximo, de 133 euros mensais. 

Define-se o excluido digitalmente como aquele que nao possui um 
computador, os meios basicos para utiliza-lo e tampouco dispoe de acesso a 
internet. Nas regioes metropolitanas do pais, apenas 20% da populacao esta 
contectada a rede mundial de computadores; no pais como um todo, sao 
apenas 8%. Observa-se que quanto mais distante se esta do centra, maior e 
o fosso entre possuidores e nao-possuidores. 

Dos dez milhoes de habitantes da Megacidade de Sao Paulo, apenas 1,8 
milhao possui computador (em casa ou no trabalho). 39,5% da populacao 
tern linha telefonica fixa que permite o acesso a internet e 49,2% nao 
possuem nenhum dos dois equipamentos. 

A concepcao dos participantes, contudo, e que a questao da exclusao nao 
pode se limitar aqueles que nao possuem computador em casa nem nos 
locais de trabalho, os "sem-teto tecnologicos", mas deveria estender-se 
aqueles que estao a margem da revolucao tecnologica, moldada em bits e 
em informacao. Sao pessoas que sao excluidas ate mesmo da selecao. 

4. A politica contra e a exclusao digital 

O especialista brasileiro Jose Arthur Giannotti diz que, quando o sistema 
economico apropria-se nao apenas da tecnologia mas da capacidade de 
desenvolve-la, entao esse sistema ja nao e mais o mesmo: ele nao se esgota 
nem se supera como queria Marx. O sistema capitalista depende do 
desenvolvimento tecnologico e o processo de exploracao esta ligado a 
invencao e a construcao de novos produtos. E ja nao se trata mais do valor- 
trabalho marxista, mas de "pontos de poder no campo da ciencia". A 



questao, para ele, e, entao, como democratizar esse complexo de ciencia e 
tecnologia; ja que nao podemos enfrentar esse complexo, temos que jogar 
na margem, dizele. 

A tecnologia e nosso destino, poder-se-ia dizer. Simon Nora e Alain Mine 
descreveram, ha mais de 25 anos, a evolucao do capitalismo como um 
sistema baseado em redes de processamento e comunicacao de 
informacoes. Para a epoca atual, conforme Marcos Dantas, a informacao 
seria a forca produtiva dominante. A inclusao digital, portanto, implicaria 
tambem a apropriacao da tecnologia da informacao pelas comunidades e 
grupos socialmente excluidos. 

Por isso, a opcao pelos info e telecentros e a importancia de Sao Paulo como 
a cidade que, segundo especialistas, esta experimentando o maior piano de 
inclusao digital em software livre do mundo. 



Os 



conteudos 



inclusao 



digital 



brasileira 




Os jovens buscam os telecentros para pesquisas escolares, para correio 
eletronico, para participar de salas de bate-papo e de sites de 
entretenimento. Ja os adultos os buscam para procurar emprego, para fazer 
curriculo vitae, envia-lo via internet a empresas, alem de pesquisa e noticias. 
Das pessoas que vao buscar um info ou telecentro, 60% nao se acham 
preparadas para utilizar a internet e carecem de uma capacitacao. Alem 
disso, eles sentem que ha, para eles, falta de conteudo relevante, lamentam 
que boa parte do material esta em ingles e que o que esta em portugues 
volta-se mais as classes A e B. 

Por isso, os organizadores nao quiseram apenas abrir um lugar e instalar 
computadores. Era preciso, alem disso, fazer a articulacao com a 
comunidade, com sua historia, sua cultura, suas necessidades e 
expectativas. O diferencial da Coordenadoria do governo municipal de Sao 
Paulo, por exemplo, foi a intencao de transformar o telecentro numa 
agenda de desenvolvimento de programas livres, relacionados as proprias 
comunidades. La, os monitores dos centros atuam nao exatamente "dando 
cursos de informatica" mas identificando as necessidades e orientando 
usuarios no uso da tecnologia para satisfaze-las. Assim, oferecem-se 
conteudos e estimula-se, ao mesmo tempo, a criacao de conteudos pelas 
proprias comunidades. A ideia e a de resgatar aquilo que os monitores 
chamam de "riqueza" das comunidades: o conhecimento acumulado pelos 
seus membros. Ha tambem discussoes sobre a consciencia ambiental e o 
estimulo dos usuarios para que pratiquem pequenas acoes como o cultivo 
de uma horta e a plantacao de mudas de an/ores. Isso ocorre atraves da 
confeccao de sites locais e de jornais comunitarios, assim como pela 
convocacao dos mais velhos para o resgate da memoria da comunidade. 

No Acessa Sao Paulo, do governo do estado, o conhecimento e um 
instrumento de solidariedade, onde estimula-se o principio da doacao: as 



pessoas doam material mas tambem trocam informacoes, dao dicas de 
emprego, informacoes sobre saude, sobre os direitos. 



6. A questao do software livre 



Julio de Oliveira Campos, 72 anos, morador no Jardim Norma, a quatro 
quilometros do Infocentro Sao Judas Tadeu. E aposentado e foi marmorista 
na epoca em que trabalhava. Seu vizinho, Jaime, vendo alguns de seus 
quadros, convidou-o para visitar o Infocentro, no qual ele inicialmente nao 
acreditava. Atraves de fotos feitas pelo seu amigo, ele viu que era possivel 
divulga-las pela Internet. Foi conhecer o lugar e gostou. "Na minha idade, 
disse ele, eu pensei que tinha visto tudo, mas nao tinha visto um projeto em 
que as proprias pessoas pudessem se ajudar atraves de uma maquina". 

No Infocentro Vila Conceicao descobriu-se Angel Paes, uma jovem escritora 
que surpreendeu a todos com a qualidade de seu texto. As pessoas seguem 
ansiosas as publicacoes sucessivas que ela faz de seu "livro" na pagina da 
entidade na Internet. 

A tecnologia e um instrumento de transformacao. O primeiro impacto, 
segundo seus organizadores, esta no resgate da auto-estima, depois vem a 
conviccao de que e possivel falar e ser ouvido, propor e ser atendido, unir-se 
e agir coletivamente e com essa acao mudar a realidade a nossa volta. 



Na discussao sobre a quebra do monopolio da Microsoft aparece o Linux 
como o representante do codigo aberto na luta contra o imperio do codigo 
fechado no mundo digital. Trata-se, efetivamente, de uma das mais 
importantes batalhas no campo tecnologico, com serias repercussoes 
politicas, economicas e sociais. E uma guerra subterranea sem avioes 
destruindo torres, sem manifestos, sem confrontos diretos, uma guerra 
descentralizada, onde ha multidoes de pessoas trabalhando de graca para 
emancipar pessoas e sociedades. Para Hermano Viana, jamais houve um 
movimento semelhante em toda historia da humanidade. 

GNU/Linux, sistema operacional livre, completo e multifuncional, conta com 
o trabalho de mais de 400 mil desenvolvedores nos cinco continentes e mais 
de 90 paises. Enquanto a Microsoft tern 30 mil funcionarios para produzir 
seu sistema operacional, a GNU/Linux conta com cerca de 1 milhao de 
programadores. No telecentro Sapopemba de Sao Paulo, os operadores 
derrubaram o mito de que esse sistema seria intragavel a um usuario nao- 
tecnico, demonstrando que la os usuarios nao estavam levando mais do que 
dez minutos para comecar a usar o sistema operacional tranqiiilamente. 



Por isso, os organizadores refutam a reducao da inclusao eletronica ao piano 
do "digital". Para eles, a inclusao e tambem analogica. Robinson Tenorio, da 
Faculdade de Educacao da USP, defende a tese de que com a dicotomia 
analogico/digital, sugere-se uma superioridade do digital sobre o analogico. 
Os usuarios, assim como os estudantes, estariam associando o digital 
automaticamente ao novo, preciso, logico, em contraposicao ao analogico, 
tido como antiquado, impreciso, emocional. De fato, cria-se uma 
tendenciosidade, que acaba por viciar os raciocinios, matematizando o 
saber e destacando aquilo que e menos significativo para as comunidades. 



Apesar de ter surgido ja ha algum tempo, foi so com a expansao da internet 
que o software livre ganhou espaco e autonomia. Diferente dos sistemas 
operacionais proprietaries, este sistema instiga o conhecimento do 
individuo com base na necessidade de pensar e nao somente de apertar. 
Alem disso, seu uso gratuito facilita a adocao em comunidades muito 
carentes, que jamais poderiam de outra forma ter um sistema de qualidade. 
Por fim, o software livre propicia um sentido de comunidade impossivel de 
se obter no sistema tradicional. 



No municfpio de Sao Paulo, a prefeitura esta criando uma gigantesca rede 
de softwares livres com cerca de 90 mil usuarios cadastrados nos 
telecentros da cidade. Em cada telecentro ha dez a vinte computadores com 
acesso banda larga a internet e uso livre paras a populacao de regioes 
perifericas. Pretende-se atender 300 mil pessoas ainda este ano. 



atualiza as grandes questoes que envolvem o uso da tecnica em nossa 
sociedade atual e que novos caminhos ela abre para uma discussao da 
inclusao digital e das relacoes entre os atores desse processo e as grandes 
corporacoes que hoje comandam hegemonicamente a inovacao tecnologica 
no planeta. 



7. Comentarios 

Todas as experiencias comentadas podem evocar muitas reservas por parte 
de quern as recebe. Os relatos podem sugerir, por exemplo, um certo 
"encantamento" com os telecentros, como se o software livre, a criacao de 
softwares e o copyleft fossem a grande solucao para as comunidades 
carentes. E inevitavel num relato linear dos sucessos dessas iniciativas 
publicas um certo torn de "estamos no melhor dos mundos" para as 
comunidades carentes mencionadas. 

De fato, os depoimentos sao de agentes envolvidos, alguns deles expressoes 
dos proprios responsaveis pelo processo de inclusao digital, nao podendo 
negar-se ai um certo tipo de oficialismo, de propaganda oficial das 
respectivas administrates publicas, tanto municipal como estadual. 

Alem disso, os relatos nao deixam de incorporar um tema antigo nas 
investigates sociologicas, que e uma possivel (e desejada) ressurreicao do 
sujeito emancipado, o estilo habermasiano, que agora estaria recuperando 
suas capacidades de criar e produzir seus proprios softwares a partir de seu 
proprio Lebenswelt, que se sobrepoe aos sistemas tecnicos abstratificantes. 

Todas essas impressoes sao legitimas e nao e minha intencao nesta 
exposicao fazer as vezes do advogado desses governos e defensor 
incondicional de tudo que esta sendo feito. Mas me cabe, por outro lado, 
avaliar em que medida a experiencia dos telecentros evoca, discute e 



Basicamente, algumas consideracoes podem serfeitas em relacao a inclusao 
digital e a forma que assumiu no Brasil: 

1. A digital divide realiza aquilo que Jacques Ellul ja havia previsto para a 
tecnica, a saber, o fato que a universalidade da tecnica provoca a ruptura do 
mundo humano, nao sua unificacao [Le sisteme technicien]. A 
mundializacao do sistema proprietario sob a tutela de uma unica empresa 
aumenta a distancia social entre os incluidos e os excluidos digitalmente. 
Nesse sentido, iniciativas de quebrar esse monopolio e democratizar os usos 
e a criacao de softwares sao projetos de incentivos ao pluralismo digital. 

2. Estimular nao apenas o uso de computadores, os conhecimentos para seu 
uso e o acesso internet, mas tambem a producao de conteudos, tanto na 
geracao de novos softwares quanto na criacao de narrativas, relatos e trocas 
entre as pessoas, integra o equipamento tecnico a especificidade cultural, 
conserva e reforcas as ligacoes sociais, estimula o espirito critico e a 
autoestima. 

3. E evidente que, num primeiro momento, procuram-se os telecentros para 
fins imediatos de aprendizagem, busca de emprego, busca de informacoes 
sobre saude, etc. Mas, em seguida, com a capacitacao e, mais ainda, com 
producao de conteudos, atinge-se um outro patamar, nao mais apenas 
"pragmatico" dos centros, mas agora, "reflexivo". A tecnica nao e inocente, 
bem o sabemos, a simples substituicao de um processo tradicional pelas 
formas digitais altera a consciencia, os mecanismos mentais, o sentimento 



de insercao no mundo das pessoas. Ate agora, isso so tem atingido os 
"inclufdos" que se sentem, pelo proprio uso da tecnologia, cada vez mais 
separados dos "exclufdos". A questao colocada por Heidegger, de que "o ser 
esta obscurecido por uma imensa capacidade organizativa da tecnica" 
adquire aqui outro sentido quando imaginamos o ingresso das populates 
das periferias neste mundo e do que isso pode provocar em termos de 
alteracao de consciencia. A tecnica, de fato, tem essa imensa capacidade 
organizativa, que "obscurece o ser", inconscientemente o faz submeter-se a 
essa "armacao" invisivel. Mas, uma vez sabendo dos "furos" desse sistema, 
dos caminhos de ruptura desse complexo e podendo "jogar na margem", 
como diz Giannotti, redescobre, pela porta dos fundos, uma discreta chance 
de participar desse mundo. E, se permitir o acesso aos equipamentos e a 
rede mundial de computadores ja permite um salto de qualidade em seu 
sentimento de insercao no mundo, a capacitacao de producao e a realizacao 
de conteudos altera substancialmente esse seu estatuto de excluido. 

* Ciro Marcondes Filho e jornalista, professor titular do Departamento de 
Jornalismo e Editoracao da ECA/USP e coordenador do Nucleo Jose Reis de 
Divulgacao Cientifica e do Nucleo de Estudos Filosoficos da Comunicacao 
(FiloCom). nucleojosereis@eca.usp.br . 

Fonte: Revista Espiral (www.eca.usp.br/nucleos/njr/espiral/). 



SEDUCAO DOS ZUMBIS CIBERNETICOS 

Hakim Bey 




As outras redes obviamente incluem - primeira e principalmente - padroes 
de convfvio e comunicatividade . Empresto este termo da frenologia do 
seculo XIX - aparentemente existe uma saliencia de comunicatividade em 
algum lugar no cranio - mas eu o uso para significar algo como o "dialogo" 
de Bakhtin transposto para o registro do social; onde o convfvio implica 
presenca fisica, a comunicatividade pode tambem incluir outras midias. Mas 
- como o hermetismo nos ensina - o ato positivo do significado 
comunicativo, seja cara-a-cara (mesmo que sem fala), ou mediado 
simbolicamente (por texto, imagem, etc.), e sempre confrontado por sua 
negatividade. Nem toda a "comunicacao" comunica, mapa nao e territorio, e 
assim vai. "Programas interativos" em si mesmos nao tern o menor sentido 
entre seres vivos, mas, de fato, nenhum meio e privilegiado ou 
completamente aberto. Como Blake poderia dizer, cada meio tern a sua 
forma e o seu espectro . 

O que precisamos, entao, e uma "analise espectral" blakeana da Net. Uma 
"analise fourierista" tambem poderia ser util (nao Fourier o matematico, 
mas Fourier o Socialista Utopico). Mas estes filosofos eram verdadeiros 
hermeticistas, enquanto nos podemos apenas empilhar alguns fragmentos 
sobre o que quer que seja. 



(Para Konrad e Marie) 

Para comecar, ajudaria se pudessemos falar sobre redes em vez de sobre A 
Rede (Net). Apenas os mais extropicos crentes na Net ainda sonham com ela 
como solucao final. Pensadores mais realistas rejeitaram a cyber- 
soteriologia, mas aceitam a Rede como ferramenta (ou arma) viavel. Eles 
concordariam que outras redes devem ser configuradas e mantidas 
simultaneamente com "a" Rede - de outra maneira, ela se torna apenas 
outro meio de alienacao, mais envolvente que a TV, talvez, mas de qualquer 
maneira mais total em sua hipnose. 



A questao implicita: - a Net vai alem do proposito de comunicatividade, e 
pode ser usada como ferramenta para "maximizar o potencial para o 
aparecimento" de situacoes de convfvio? Ou existe um "efeito 
contraproducente paradoxal" (como llich diria)? Em outras palavras: a 
sociologia das instituicoes mostra que certos sistemas (e.g. educacao, 
medicina) chegam a uma rigidez monopolizadora e comecam a produzir o 
oposto do efeito pretendido (a educacao estupidifica, a medicina faz 
adoecer). A midia tambem pode ser analisada desta maneira. A midia de 
massa, considerada como entidade paradoxal, se aproximou de um limite de 
enclausuramento total pela imagem - uma crise da estase da imagem - e do 



completo desaparecimento da comunicatividade. O que se julgava que 
tornava a Net tao singular eram os seus padroes "de-muitos-para-muitos", 
tendo como implicacao a possibilidade de uma democracia popular 
eletronica. A Net e uma instituicao, pelo menos no sentido amplo da 
palavra. Ela serve ao seu proposito "original", ou ha um efeito 
contraproducente paradoxal? 

Outro padrao original dentro da Net e a sua descentralidade (sua heranca 
"militar"); isto lancou a Net numa especie de guerra com os governos. A Net 
"cruza fronteiras" como um virus. Mas nisto a Net partilha certas qualidades 
com, digamos, as corporacoes transnacionais ("zaibatsus") - e com o proprio 
Capital nomade. O "nomadismo" tern sua propria forma e espectro. Como a 
Nacao Islamica dos Cinco Porcento (1) coloca, "nem todo irmao e um 
irmao". A molecularidade e uma tatica que pode ser usada contra e a favor 
da nossa autonomia. Estar informado compensa. E podemos ter certeza que 
a Inteligencia Global paga bem por sua informacao; - certamente a Net ja 
esta completamente penetrada pela vigilancia... cada bit de um e-ail e um 
cartao postal para Deus. 

Os nossos exemplos favoritos do uso imaginative e insurreicionario da Net - 
o Caso McLibel,o Caso da Cientologia, e acima de tudo os Zapatistas - 
provam que a estrutura descentralizada de muitos-para-muitos tern 
potencial de verdade [o McDonalds ganhou a batalha mas parece estar 
perdendo a guerra - as franquias cairam em 50%!]. Luditas que negam isto 
simplesmente estao se fazendo parecer desinformados - e muito mal 
dispostos na direcao das boas causas. Os Luditas originais nao eram 
quebradores de maquina indiscriminados - eles tencionavam defender seus 
teares manuais e o trabalho em casa contra a mecanizacao e centralizacao 
das fabricas. Tudo depende da situacao, e a tecnologia e apenas um fator 
numa situacao complexa e envolvendo diferentes valores. Exatamente o 
que e que precisa ser destruido aqui? 



O Capital Global abraca abertamente a Net por que a Net parece ter a 
mesma estrutura do Capital Global. Ele anuncia a Net como o Futuro Agora, 
e protege os cidadaos virtuais desses governos velhos e maus. Ora, a Net e 
mesmo o paradigma de um Mercado Livre, nao? O sonho de um Libertario. 
Mas secretamente o Capital Global [perdoem pela falacia patetica - puxa, eu 
nao consigo parar de reificar o Capital...]... secretamente, o Capital Global 
deve estar doente de preocupacao. Bilhoes de dolares de investimento 
foram tragados pela Net, mas a Net parece agir como um astro eclipsado: - 
ha um efeito de penumbra, mas o planeta esta negro. Talvez mesmo um 
buraco negro. Afinal, Hawking provou que mesmo buracos negros produzem 
uma quantidade minima de energia - alguns milhoes de pratas, talvez. Mas 
essencialmente nao ha dinheiro circulando na Net, nem dinheiro saindo 
dela. Parece que a Net pode agir metaforicamente como uma "feira livre" 
ate certo ponto (possivelmente bem mais do que ja age) - mas falhou em se 
desenvolver como um Grande Mercado. A WWW nao parece estar ajudando 
muito neste ponto. A "Realidade Virtual" comeca a se parecer com mais um 
futuro perdido. IntraNets, transmissao personalizada de dados e "televisao 
interativa" sao as estrategias propostas pelos Zaibatsus para colonizar o que 
resta da Net. O e-cash nao parece estar dando conta. 

Enquanto isso, a Net toma o aspecto nao apenas de uma feira livre sem 
corpo, mas tambem de uma favela psiquica . Avatares predatorios - 
desinformacionistas - dados sobre trabalho escravo nas prisoes americanas - 
cyber-estupro (violacao do corpo de dados) - vigilancia invisivel - ondas de 
panico (Pedofilia, Nazistas-na-Net, etc) - invasoes massivas de privacidade - 
propaganda - todo tipo de poluicao psiquica. Sem mencionar a possibilidade 
de lavagem cerebral bionica, sidrome do tunel carpal, e a sinistra presenca 
em cinza e verde das proprias maquinas, como nos cenarios dos velhos 
filmes de ficccao cientifica (o futuro como design ruim). 



De fato, como Gibson previu, a Net ja esta virtualmente assombrada. 
Cemiterios na web para cyber-mascotes mortos - obituarios falsos - Tim 
Leary ainda mandando mensagens pessoais - mestres ascensionados do 
"Heaven's Gate" - sem mencionar a ja vasta arqueologia perdida da propria 
Net, os niveis da Arpa, velhas BBSs, linguagens esquecidas, paginas da web 
abandonadas. De fato, como alguem disse na ultima conferencia da 
NETTIME em Liubliana, a Net ja se tornou um tipo de ruina romantica . E 
aqui, no nivel mais "espectral" da nossa analise, repentinamente a Net 
comeca a parecer... interessante de novo. Uma pitada de horror gotico. A 
seducao dos Zumbis Ciberneticos. Fin -de-mi Hen ium , flores de estufa, 
laudano. 

Como seja. 

Vivemos num pais em que 1% da populacao controla metade do dinheiro - 
num mundo onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro - 
onde 94.2% de todo o dinheiro se refere apenas a dinheiro, nao a producao 
de qualquer tipo (exceto de dinheiro); - um pais com a maior populacao 
carceraria per capita do mundo, onde "seguranca" e a unica industria que 
cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra as drogas e ao 
meio-ambiente e concebida como a ultima funcao valida do governo; - um 
mundo de ecocidio, agronegocio, desflorestamento, assassinato de 
populacoes indigenas, bioengenharia, trabalho forcado - um mundo 
construido na afirmacao de que o lucro maximo para 500 empresas e o 
melhor piano para a humanidade - um mundo em que a imagem total 
absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante - em que a imagem 
da troca tomou o lugar de todas as relacoes humanas. 

Em vez de resmungar cliches liberals sobre tudo isto - ou levantar a 
perturbadora questao da "etica" - permita-me simplesmente comentar 
como um anarquista stirneriano (um ponto de vista que ainda acho util 



depois de todos estes anos): - presumindo que o mundo seja a minha ostra, 
eu estou em guerra pessoal contra todos os "fatos" acima, por que eles 
violam os meus desejos e me negam os meus prazeres. Portanto, procuro 
alianca como outros individuos (numa "uniao de independentes") que 
partilham de minhas metas. Para os stirnerianos de esquerda, a tatica 
favorita sempre foi a Greve Geral (o mito soreliano). Em resposta ao Capital 
Global nos precisamos de uma nova versao deste mito que possa incluir 
estruturas sindicalistas mas nao se limitar a elas. O velho inimigo dos 
anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar 
(segurancas no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais sao os 
zaibatsus e bancos (o maior erro na historia revolucionaria foi a falha em 
dominar o Banco em Paris, 1871). Num future muito proximo havera uma 
"guerra" contra a estrutura OMC/FMI/GATT do Capital Global - uma guerra 
de desespero claro, alimentada por um mundo de individuos e grupos 
organicos contra as corporacoes e "o poder do dinheiro" (i.e., o proprio 
dinheiro). De preferencia uma guerra pacifica, como uma grande Greve 
Geral - mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que 
precisamos saber e, o que a InterNet pode fazer por nos? 

Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunicacao. 
Neste momento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos 
conspiratorios (se eu tivesse algum) pelos Correios em vez da Net. Uma 
conspiracao realmente bem-sucedida nao deixa rastro em papel, como a 
Revolucao Libia de 1969 (mas na epoca, os grampos telefonicos ainda eram 
bastante primitivos). Mais do que isto, como poderiamos ter certeza que o 
que vimos na Net era informacao e nao desinformacao? Especialmente se 
nossa organizacao existe apenas na Net? Falando como stirnerista, eu nao 
quero banir assombracoes da minha cabeca apenas para encontra-las de 
novo na tela. Luta de rua virtual, ruinas virtuais. Nao parece uma proposicao 
vantajosa. 



Mais perturbador para nos seria a qualidade "gnostica" da Net, sua 
tendencia a exclusao do corpo, sua promessa de transcendencia tecnologica 
da carne. Mesmo que algumas pessoas tenham "se conhecido atraves da 
Net", o movimento geral e rumo a atomizacao - "cafdo sozinho em frente a 
tela". "movimento" hoje presta muita atencao a midia em geral por que o 
poder virtualmente nos iludiu - e dentro do speculum da Net o seu reflexo 
zomba de nos. A Net como substituto ao convivio e a comunicatividade. A 
Net como uma ma religiao. Parte do transe midiatico. A mercantilizacao da 
diferenca. 

A parte a critica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, nos 
poderiamos tambem lancar uma analise de uma posicao Fourierista. Aqui no 
lugar de individuos nos considerariamos a "serie", o grupo basico Passional 
sem o qual cada ser humano permanece incompleto - e o Falansterio, ou 
Serie completa de Series (minimo de 1620 membros). Mas a meta 
permanece a mesma: - o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres 
ou o "luxo" para os membros do grupo, Paixao sendo a unica forca viavel de 
coesao social (de fato, nesta base nos poderiamos considerar uma "sintese" 
de Stirner e Fourier, em aparencia polarmente opostos). Para Fourier, a 
Paixao e por definicao incorporada; todo o "networking" e mantido via 
presenca fisica (apesar dele permitir pombos-correio para comunicacao 
entre Falansterios). Como um mistico dos numeros, Fourier bem que teria 
gostado do computador - na verdade ele inventou o "namoro por 
computador", de certa forma - mas ele provavelmente desaprovaria 
qualquer tecnologia que envolvesse a separacao fisica (eu creio que foi 
Balzac quern disse que para Fourier o unico pecado era almocar sozinho). O 
convivio no sentido mais literal - idealmente, a orgia. A "Atracao Passional" 
funciona por que cada um tern Paixoes diferentes: a diferenca ja e "luxo". O 
corpo de dados, o corpo na tela, e apenas metaforicamente um corpo. O 
espaco entre nos - o "medium" - deve ser preenchido com Raios Aromais, 
zodiacos de luz brilhante ( novas cores!), profusoes de frutas e flores, os 



aromas da cozinha gastrosofica - e finalmente o espaco deve ser fechado, 
curado . 

Outra critica da Net poderia ser feita de uma perspectiva proudhoniana 
(Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que nao foi. Ambos 
eram de Bezancon, como Victor Hugo). Proudhon era mais "progressista" 
quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver 
que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e 
anarco-federacao. Para ele "governo" era meramente uma questao de 
administracao da producao e troca. Os computadores poderiam se mostrar 
ferramentas uteis sob estas condicoes. Mas proudhon assim como Marx 
sem duvida modificariam sua visao otimista da tecnologia se fossem 
consultados hoje da sua opiniao: - a maquina como poluicao social, a propria 
tecnologia (e por implicacao o Trabalho ) como alienacao. Este argumento foi 
obviamente feito por Marxistas libertarios, anarquistas Verdes, etc. - 
descendentes legitimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou llich. Nao 
seria justo considerar a InterNet (nem a bioengenharia) fora desta critica da 
tecnologia. O trabalho de Benjamin, Debord e mesmo Baudrillard (ate que 
ele tenha caido exausto) torna claro que a imagem total - "a midia" - tern 
um papel central nesta critica. Proudhon questionaria a Net quanto a 
justica, e quanto a presenca . 

Mas eu preferiria focar mais estritamente na questao da imagem. Aqui nos 
poderiamos retornar a Blake como nosso "martelo filosofico" (Nietzsche 
realmente queria dizer com isso uma especie de diapasao ), uma vez que 
estamos falando do idolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos 
sofrendo uma crise de superproducao da imagem. Estamos, como Giordano 
Bruno colocou, "acorrentados", hipnotizados pela imagem. Em tal caso nos 
precisamos ou de uma dose saudavel de iconoclastia, ou entao (ou tambem) 
um tipo mais sutil de critica hermetica, uma liberacao da imagem pela 
imagem. Na verdade, Blake nos supriu com ambos - ele era tanto um 



destruidor-de-fdolos quanto simultaneamente um hermetista que usava 
imagens para a libertacao, tanto polftica quanto espiritual. Hermetistas 
entendem que o "hieroglifo", a imagem/texto ou comunicacao mediada 
(simbolica), tern um efeito "magico", ultrapassando a consciencia racional 
linear e influenciando profundamente a psique. E por isso que Blake dizia 
que uma pessoa deve fazer seu proprio sistema ou entao ser escravo do 
sistema de outros. A autonomia da imaginacao e um alto valor para o 
hermetismo - e a crftica da imagem e a defesa da imaginacao. A tela e um 
aspecto da imagem que nao pode escapar desta "analise espectral" - a midia 
como "moedores satanicos". 

No final das contas, parece que nao ha mesmo como fugir da tecnologia ou 
da alienacao. A propria techne e protese da consciencia, e portanto 
inseparavel da condicao humana (linguagem inclusa aqui como techne ). A 
Tecn ologia como a fusao obvia de techne e linguagem (a ratio ou "razao" da 
techne ) tern sido simplesmente uma categoria da existencia humana pelo 
menos desde o Paleolitico. Mas - podemos perguntar em que ponto o 
proprio coracao sera substituido por um orgao artificial? Em que ponto uma 
determinada tecnologia "surta" e comeca a produzir uma 
contraprodutividade paradoxal? Se pudessemos alcancar um consenso 
nisto, ainda existiria algum motivo para falar de determinismo tecnologico, 
ou do maquinismo como destino? Neste sentido, os antigos Luditas 
merecem alguma consideracao. A techne deve servir ao ser humano, nao 
definiro ser humano. 

Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciencia, mas 
apenas na condicao de que nao sera a mesma consciencia. Suspeitamos que 
a consciencia racional, maquinica, linear, universal, da aufklaerung, gozou 
durante muito tempo de uma tirania - ou "monopolio". Nao ha nada de 
errado com a razao (na verdade nos poderiamos usar bem mais dela) mas o 
racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A razao deve dividir o 



espaco com outras formas de consciencia: consciencia enteogenica, ou 
consciencia xamanica (que nao tern nada a ver com "religiao" como e 
usualmente definida) - bioconsciencia, o discernimento sistemico do ideal 
hermetico da terra viva - consciencia etnica ou cultural, modos diferentes de 
ver - povos indigenas - ou os Celtas - ou o Isla - consciencias de "identidade" 
de todos os tipos - e consciencias de trans-identidade. Uma variedade de 
consciencias parece ser a unica base possivel para a nossa etica. 

Entao, e quanto a consciencia da InterNet? Ela tern seus aspectos nao- 
lineares, nao tern? Se pode existir uma "racionalidade do maravilhoso", nao 
ha um lugar para a mente da Net no banquete? 

No fim devemos nos contentar com a ambiguidade. Uma resposta "pura" e 
impossivel aqui - iria feder a ideologia. Sim e nao. 

Mas - "Entre o Sim e o Nao, estrelas caem do ceu e cabecas voam do 
pescoco", como o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao filosofo Aristotelico 
Averroes. 

Uma imagem adequada para uma ruina romantica... 

1. Faccao dissidente da Nacao do Islam, tambem conhecida como The 
Nation of Gods and Earths, Five Percent Nation ou Five Percenters, e um 
movimento social/religioso afro-americano fundado no Harlem nos anos 
1960 por Clarence 13X. Combina ensinamentos de Malcolm X e da Nacao do 
Isla e busca justica, liberdade e igualdade social. Em que pese a aura de 
misterio e reputacao escusa como acusacoes de assalto a bancos ou outros 
tipos de acao direta, reza a lenda que seus membros sao preparados para 
morrer na luta contra a supremacia branca. Dela fazem parte muitos rapprs 
famosos, como Rakim, Brand Nubian, Nas, AZ, Nine, os Wu Tang Clan, etc. 
(Nota do Rizoma) 



Hakim Bey 



NYC 

18 de agosto, 1997. 



Traducao de Danieli Moreira 

Fonte: Descartavel ( http://descartavel.com/ ). 



CIBERESPACO: USINA DE APRENDIZAGEM 

Carolina Borges 

Ultimamente se debate muito sobre inclusao digital, alfabetizacao digital e 
toda uma preocupacao social de estar incluindo populacoes de baixa renda 
na sociedade da informacao. Estas definicoes -de medidas abstratas - 
necessitam de muitos dialogos, debates e pesquisas para direcionar seus 
objetivos, ja que em alguns casos conceitos de alfabetizacao digital sao 
aplicados como cursos de iniciacao a praticas de informatica. 

Desde quando pessoas capacitadas em informatica sao necessariamente 
incluidas na sociedade da informacao? Na verdade sao incluidas em mais urn 
banco de curriculos de pessoas "com conhecimentos de informatica". 
Sociedade da informacao - como o proprio nome ja define - compreende 
trocas de informacoes, portanto, troca de conhecimento. 

Neste sentido a alfabetizacao digital para a inclusao na sociedade da 
informacao, seria capacitar populacoes a conhecer e interagir com a rede 
planetaria chamada internet.lnclusao no ciberespaco e alfabetizacao da 
utilizacao da rede como potencia de conhecimento , interacao e producao 
de conteudo. 

A pratica da inclusao digital associada a pratica da informatica e 
contraditoria na medida em que se busca uma igualdade social do acesso a 
informacao; ja que conhecimentos de informatica se nao estiverem 
associados a internet nada mais sao do que ferramentas tecnicas de auxilio 
no cotidiano da populacao. 



Considerando a inclusao/alfabetizacao digital um processo de apropriacao 
do ciberespaco como um universo de conhecimento, de infinitas 
possibilidades de interacao, producao e pesquisa de conteudo, cabe 
ressaltar outro aspecto relacionado a este "metodo" de aprendizagem. A 
questao e: como definir uma metodologia de "educacao digital" tomando o 
ciberespaco como ferramenta de ensino? 

Se pensarmos nos metodos de aprendizagem e educacao utilizada no seculo 
passado , onde aprendizes eram limitados ao conhecimento do educador, 
nao ha resposta para esta questao; tamanha a dimensao da 
incompatibilidade da comparacao entre "um" educador e o ciberespaco. 

Surgem outras formas de aprendizagem, uma vez que a cada conexao ao 
ciberespaco um universo de possibilidades e apresentado. A aprendizagem 
vai depender da curiosidade, capacidade criativa, inteligivel de cada 
individuo e nao mais de um educador para transmitir conhecimentos. O 
papel do educador e direcionar conteudos e navegacoes variaveis ao 
trabalhar temas e interesses. 

Esta ocorrendo praticamente uma reversao no processo de aprendizagem 
,ja que antes o conhecimento era de um para todos e agora e de todos para 
um. (Educador- aprendizes / ciberespaco - individuo conectado.) 

O processo de aprendizagem ja se transformou, e a educacao acompanhou 
esta transformacao? Ja e hora da inclusao/alfabetizacao digital deixar de ser 
uma pratica social para tornar-se uma pratica educacional. Eis o futuro da 
educacao e da sociedade do conhecimento. 



UTOPIAS PIRATAS 

Hakim Bey 

OS PIRATAS E CORSAmoS do seculo 18 criaram urn "rede de informacao" 
que atravessava o mundo : primitiva e devotada primariamente a negocio 
sujo, a rede entretanto funcionava admiravelmente. Espalhadas por toda a 
rede estavam ilhas, remotas tocaias onde navios podiam se abastecer de 
agua e provisoes, muamba comerciada com luxos e artigos de primeira 
necessidade. Algumas destas ilhas sustentavam "comunidades 
intencionais", mini-sociedades completas vivendo conscientemente fora da 
lei e determinadas a manterem-se assim, mesmo se apenas por uma curta 
mas alegre vida. 

Alguns anos atras eu pesquisei urn monte de material secundario sobre 
pirataria esperando encontrar um estudo destes enclaves - - mas parecia 
que nenhum historiador ainda tivesse achado eles validos de analise. 
(William Burroughs ja mencionou o tema, assim como o fez o anarquista 
britanico Larry Law - - mas nenhuma pesquisa sistematica tern sido levada a 
cabo.) Eu recuei para as fontes primarias e construi minha propria teoria, 
alguns aspectos da qual vao ser discutidas neste ensaio. Eu chamei os 
povoamentos de "Utopias Piratas". 

Recentemente Bruce Sterling, um dos principais exponentes da ficcao 
cientifica Cyberpunk, publicou um romance num futuro proximo baseado na 
premissa de que a decaida dos sistemas politicos vai levar a proliferacao 
descentralizada de experimentos na maneira de viver : corporacoes gigantes 
possuidas pelos trabalhadores, enclaves independentes dedicados a 
"pirataria de dados", enclaves Verde-Social-Democratas, enclaves de 
Zerotrabalho (Zerowork), zonas anarquistas liberadas, etc. A economia da 
informacao que sustenta esta diversidade e a chamada Rede; os enclaves (e 
o titulo do livro) sao Ilhas na Rede (Piratas de dados) (1). 



Os medievais Assassinos fundaram um "Estado" que consistia de uma 
cadeia de remotos vales montanhosos e castelos, separados por milhares de 
milhas, estrategicamente invulneraveis a invasao, conectadas pelo fluxo de 
informacao de agentes secretos, em guerra com todos os governos, e 
devotados unicamente ao conhecimento. A tecnologia moderna, 
culminando no satelite espiao, faz desse tipo de autonomia um sonho 
romantico. Nao mais ilhas piratas! No futuro a mesma tecnologia - - liberta 
de todo controle politico - - poderia tornar possivel um mundo inteiro de 
zonas autonomas. Mas por enquanto o conceito permanece precisamente 
como ficcao cientifica - - pura especulacao. 

Estamos nos que vivemos no presente condenados a nunca experimentar a 
autonomia, nunca a estar por um momento num pedaco de terra governado 
unicamente pela liberdade? Estamos reduzidos ou a nostalgia pelo passado 
ou nostalgia pelo futuro? Devemos esperar que o mundo inteiro seja 
liberado de controle politico antes mesmo que um de nos possa clamar 
conhecer a liberdade? Logica e emocao se unem para condenar tal 
suposicao. A razao pede que nao se lute por algo que nao se conhece; e o 
coracao se revolta com um universo tao cruel de conceder tais injusticas em 
nossa geracao por causa da humanidade. 

Para dizer que "eu nao estarei livre ate que todos os humanos (ou todas as 
criaturas sencientes) estejam livres" e simplesmente sucumbir a um tipo de 
estupor-nirvana, para abdicar nossa humanidade, para definir nos mesmos 
como perdedores. 

Eu acredito que ao extrapolar de estorias passadas ou futuras sobre "ilhas 
na rede" nos devemos coletar evidencia para sugerir que um certo tipo de 
"enclave livre" e nao so possivel em nosso tempo mas tambem real. Toda 
minha pesquisa e especulacao tern cristalizado em torno do conceito da 
ZONA AUTONOMA TEIvIPORARIA (TEMPORARY AUTONOMOUS ZONE, mais 



adiante abreviada TAZ). Apesar de sua sintetizante forca para meu proprio 
pensamento, no entanto, eu nao pretendo que a TAZ seja tomada como 
mais que um ensaio ("experimento"), uma sugestao, quase uma fantasia 
poetica. Apesar do ocasional entusiasmo meio Ranterista(2) de minha 
linguagem, eu nao estou tentando construir um dogma polftico. De fato, eu 
tenho deliberadamente evitado definir a TAZ - - Eu circulo em torno do 
tema, acendendo farois exploratorios. No fim a TAZ e quase auto- 
explicativa. Se a expressao se tornasse corrente ela poderia ser 
compreendida sem dificuldade...compreendida na acao. 

1. Islands in the Net, no Brasil traduzido como Piratas de dados, Ed. Aleph, 
1990. 

2.Nota do trad. - Os Ranters foram uma revolucionaria seita heretica 
medieval. 



Trad. Ricardo Rosas 
(Arquivo Rizoma) 



WSIS? NOS ADERIMOS! 

Durante os ultimos meses, ativistas e artistas com diferentes propositos, 
Centros Indymedia, movimentos pelo Software Livre, grupos de Hackers, 
tern discutido como intervir dentro, fora, perto, ou como uma alternativa a 
agenda do Encontro Mundial sobre a Sociedade da Informacao (World 
Summit on the Information Society - WSIS) que acontecera entre os dias 10 
e 12 de Dezembro em Geneva, Suica. 

QUE E WSIS? 

WSIS e o primeiro de dois encontros globais tratando da informacao e 
comunicacao organizado pelas Nacoes Unidas em Geneva. Mas o encontro e 
uma cortina de fumaca. Enquanto fala sobre inclusao digital, disseminacao 
do conhecimento, interacao social, engajamento politico, midia, educacao e 
saude, utiliza essa linguagem para mistificar o continuo uso da informacao 
com o proposito de proteger o avanco dos interesses do Capital Global. 

GENEVA-03 

Geneva-03 e uma livre, aberta e temporaria associacao de grupos e 
individuos que estao preparando uma serie de eventos em torno do WSIS. A 
meta comum e criar espacos fisicos e de rede autonomos para a acao e 
discussao da diversidade tatica, grassroots, ativistas e midia comunitaria em 
torno dos encontros do WSIS. 



Os encaminhamentos que temos 



maos sao muitos: 



* formando e subvertendo a tecnologia da informacao que e agora parte da 
vida cotidiana. 

* Recusando a guerra e a guerra da informacao. 

* Contrariando a exploracao do trabalho imaterial e informatizado. 

* Resistindo ao controle das fronteiras e dos direitos digitais. 

* Defendendo nossas ideias comuns, incluindo o conhecimento indigena, 
cientifico, o software livre, os sistemas de educacao e a criativa expressao 
contra a pressao intensa das privatizacoes. 

*Lutando por liberdade de movimento e liberdade de comunicacao para 
todas as pessoas, nao apenas para aquelas que promovem e beneficiam o 
capital. 

As acoes que ocorrerao no WSIS? WE SEIZE! promoverao novas formas de 
comunicacao, por quern e para quern: criar novas formas sociais que possam 
dirigir-se contra os sistemas de dominacao que cercam e informam nosso 
mundo. 

A luta contara com uma estrutura local, regional e global (radio e TV, acesso 
wireless, cabos de fibra otica, conexao via satelite) para incluir aqueles que 
trabalham com essas estruturas. Estas redes poderao ser utilizadas e 
enriquecidas por todas as pessoas do mundo, organizadas para nutrir e 
sustentar a cooperacao social. 

WSIS? WE SEIZE! 



O evento trabalhara com as seguintes areas: 

* Uma convencao estrategica antes do encontro das Nacoes Unidas em 
Geneva, incluindo discussoes, paineis e apresentacoes. 

* Urn laboratorio polymedia para compartilhar ferramentas, habilidades, 
experiencias e conhecimento. 

* Urn terceiro dia de esforco em rede que seguira a revolucao da terra, 
disseminando o ativismo da mfdia independente e os projetos de mfdia 
comunitario por todo o globo. 

Geneva-03 convida a todos os interessados que se envolvam nessa 
iniciativa. Estamos trabalhando para estabelecer locacoes e agendamentos, 
bem como opcoes de acomodacao e sobrevivencia na carfssima cidade de 
Geneva. 

A lista aberta para todos os interessados no projeto Geneva-03 e: 
http://lists.emdash.org/mailman/listinfo/prep-l e o site 

( www.geneva03.org/ ) funciona como um forum aberto onde voce pode 
publicar suas propostas, ideias e contributes. 

Sera uma breve preparacao para o encontro no Forum Social Europeu em 
Paris, Novembro. 

Mais informacoes em www.hubproject.org 

Fonte : Centro de Midia Independente ( www.midiaindependente.org ).